O Janeiro Branco, mês de campanha brasileira dedicada à conscientização da saúde mental, simboliza novos começos por ser tradicionalmente um período em que as pessoas estabelecem metas. Já a cor branca atribuída ao mês representa uma “folha em branco” a ser preenchida com novas histórias e projetos, reforçando a ideia de recomeço e renovação. Para um grupo em específico, no entanto, focar em objetivos futuros e recomeços pode ser mais complicado.
Continua depois da publicidade
Clique aqui para receber as notícias do NSC Total pelo Canal do WhatsApp
De acordo com a psicóloga especialista em Psicologia Positiva, Luciane Corrêa, existem diferenças significativas entre os problemas de saúde mental enfrentados por idosos e por outras faixas etárias.
Janeiro Branco: Por que este é o mês da saúde mental?
— Não é fácil envelhecer. O idoso não tem mais uma projeção de futuro pelas questões de vitalidade de corpo e também por já ter realizado os projetos familiares ou profissionais. É uma faixa etária que não tem mais projetos a longo prazo, que [te] motivam — explica a profissional que atua em Florianópolis, Capital de Santa Catarina.
Continua depois da publicidade
Sensação de improdutividade traz impactos na saúde mental
Segundo a psicóloga, um dos primeiros impactos negativos na saúde mental dos idosos pode acontecer quando o grupo se desliga das atividades profissionais e dá início à aposentadoria.
Envelhecimento populacional no Brasil traz alerta para cuidados com a saúde mental de idosos
— A aposentadoria pode ser encarada como deixar a sociedade de lado. Tem idosos que se aposentam felizes da vida, porque estavam cansados, mas tem outros que, quando se desligam, a família está toda na rotina. Os filhos estão com a família deles, trabalhando, e se o idoso não sabe o que gosta de fazer, pode sentir a solidão. É a velhice — continua a psicóloga.
São nesses momentos que alguns idosos podem desenvolver ansiedade e depressão, diz Luciane.
— Se o idoso está muito preso nas coisas que ele perdeu, como a vitalidade, a companhia dos familiares, a tendência de a pessoa ficar deprimida é muito grande — explica.
Se o momento presente gera insegurança, como é o caso de dificuldades financeiras, por exemplo, a ansiedade também pode surgir.
Continua depois da publicidade
— Hoje em dia, o idoso vem com outras necessidades de saúde, que também está muito cara. Aí vem os sintomas de ansiedade — afirma.
Tratamento psicológico com idosos pode ser mais complicado
Luciane, que trabalha a depressão e a ansiedade com diversas faixas etárias, relata que o tratamento com os idosos é bem diferente das demais.
— Todos nós somos adaptados aos nossos aprendizados de vida, que usamos para responder emocionalmente aos estímulos externos. O idoso já é muito adaptado aos aprendizados dele, então na terapia, ele não tem facilidade de mudar de opinião — explica.
Por isso, refazer estratégias mentais, uma medida que é muito presente no tratamento psicológico, é mais difícil para os idosos. Outras faixas etárias, que ainda tem ambição de conquistar coisas ou construir novos relacionamentos, por exemplo, podem ter mais facilidade com a melhora.
Continua depois da publicidade
— O idoso tem uma tendência de se entregar muito para a nostalgia, para a tristeza, e ficar remoendo as coisas do passado. Tem idosos que não conseguem mais se olhar no espelho, por se sentirem feios com as rugas, com menos cabelo… É uma faixa etária bem mais difícil da gente lidar com esses sintomas — diz ela.
Quais são os sinais que devem trazer alerta às famílias
Os sinais mais comuns de depressão e ansiedade em idosos que podem trazer um alerta para a família, segundo Luciane, incluem o isolamento.
— A família tem que observar o idoso que está muito “guardadinho” dentro de casa, dentro dele mesmo, sem muita vontade de conversar, sem apetite ou até com mais apetite, descontando as angústias na alimentação — esclarece.
Outro sinal de alerta é o idoso que repete hábitos que médicos já explicaram a ele que fazem mal, como um diabético que está comendo muito doce, ou um idoso que não pode beber álcool e continua bebendo.
Continua depois da publicidade
— É uma tendência da tristeza, em que a pessoa pensa: “já quero morrer”. A depressão vem com esse sentimento — destaca.
Um problema também é o idoso que reclama demais, é muito amargo ou muito “ranzinza”, de acordo com Luciane. O foco nas perdas e em falas depreciativas sobre si mesmo ou sobre os outros também podem acender um alerta.
Quais são os comportamentos positivos na velhice?
De acordo com Luciane, um bom sinal é o idoso que tem vontade de fazer as coisas.
— O idoso que faz um “crochezinho”, que você vê que tem vontade de fazer o bolinho para chamar os netos, que tem vontade de fazer uma caminhada mesmo com o pé doendo, com o joelho doendo… Tudo isso é um movimento de vida — explica.
Continua depois da publicidade
Para Luciane, o idoso saudável é o idoso que aprendeu a ficar sozinho e sentir paz na solidão, uma vez que as pessoas em volta deles estão imersas nas próprias vidas com os trabalhos e relacionamentos pessoais.
Uma ação que pode ser uma aliada aos idosos é a fé, diz Luciane.
— O idoso está mais perto da finitude, então cada dia ver as pequenas coisas é muito importante. Eu percebo que os idosos mais espiritualizados são os mais felizes, porque eles lidam melhor com essa solidão e com o desamparo. A fé movimenta a alegria, movimenta o conforto interno de estar bem dentro de um corpo, muitas vezes, limitado — pontua.
Da atividade física ao grupo de idosos: os métodos de prevenção
Entre os métodos de prevenção ou até mesmo uma aliada no tratamento após um diagnóstico de depressão ou ansiedade, está a atividade física.
— A atividade física é extremamente importante, claro, no ritmo que o idoso pode fazê-la. O exercício potencializa as mitocôndrias, que é onde tem a usina de energia celular que a gente precisa para gerar os neurotransmissores que dão essa sensação de felicidade e de bem-estar. O idoso tem que fazer alguma coisa, dentro do que o corpo dele comporta — diz Luciane.
Continua depois da publicidade
Outra opção é a integração com grupos de idosos, por meio de terapia em grupo ou até mesmo atividades como artesanato ou crochê.
— É muito importante, também, ter um psicólogo, que entra nessa parte afetiva. O idoso fica muito sozinho, e as pessoas não têm muita paciência de sentar para conversar com eles. É aí que ele tem um acolhimento, uma escuta e uma troca — afirma.
Outra recomendação de Luciane é a Psicologia Positiva, área onde ela é especializada. A área consiste numa abordagem psicoterapêutica que estuda o bem-estar.
— Eu acho a área fantástica, porque ela trabalha com a potência de tudo que a gente tem de bom, nossas virtudes, nossos valores. O idoso, quando ele vai para terapia, ele está muito depreciativo, olhando só para as perdas, ele tem um sentimento muito grande de inutilidade, de “eu não sirvo para nada, eu já podia morrer”. [A Psicologia Positiva] é uma linha terapêutica que olha para para essa potência e faz a psicoeducação de rotina, de quais atividades vão trazer a ele os sentimentos bons para o desenvolvimento dessa parte mental satisfatória — diz.
Continua depois da publicidade
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) também é uma boa linha da psicologia para os idosos, diz Luciane. Essa linha da psicologia procura modificar padrões de pensamento e comportamento disfuncionais para tratar transtornos psicológicos.
*Sob supervisão de Andréa da Luz
Leia também
6 dicas para cuidar da saúde mental dos idosos