Há cerca de dois anos, Daiara Aparecida Bernardes viu sua vida mudar por completo. Deixou a faculdade de enfermagem, o emprego no comércio e todas as atividades físicas que praticava para dedicar-se exclusivamente aos cuidados da filha, Elliana Bernardes. Mãe solo de uma criança atípica, diagnosticada após o nascimento com Mielomeningocele, Comunicação Interatrial (CIA), autismo e bronquite asmática severa, vive com auxílio de campanhas na internet para custear tratamentos e medicações enquanto enfrenta ao menos outras duas batalhas. Na Justiça, a busca pelo reconhecimento paterno. E consigo, contra a exaustão diária.

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— A maternidade solo, para mim, não é nem um pouco fácil. Já se passaram seis internações, e em todas elas estive sozinha com minha filha — conta resignada, enquanto acompanha Elliana em mais uma tarde de terapia, das cinco semanais.

O maternar solo nada mais é do que ser mãe e assumir toda ou a maior parte dos cuidados com os filhos (levar, buscar, alimentar, marcar consultas, auxiliar nas tarefas escolares, disciplinar, vacinar, comprar roupas e ter tempo de lazer), segundo a psicóloga clínica e educadora parental Carol Fussiger. E essa ausência ou insuficiência paterna, seja por viuvez, abandono, divórcio ou opção, segundo Fussiger, implica em uma séria consequência às mães: a da carga mental.

— O estado de alerta constante sobre o planejamento da vida com os filhos e o atendimento às expectativas sociais (o “dar conta”) podem desencadear problemas como estresse, insônia, melancolia, sentimentos de tristeza ou raiva, ansiedade, cansaço constante e outros tantos que podem até evoluir para quadros de transtornos de ansiedade e depressão — alerta.

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Consciente das dificuldades que testam seus limites, Daiara sabe que o apoio paterno mudaria não só a rotina dela — lhe abrindo possibilidades para atividades que sente falta, como voltar a trabalhar e a lembrar-se de si mesma —, mas principalmente o desenvolvimento da filha. Sem ele, no entanto, Daiara conta com apoio da mãe, de 78 anos, com quem mora no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis.

— Ela é minha base para tudo, me ajuda em tudo que pode — afirma.

Esse apoio de familiares, de amigos, grupos de responsáveis da escola, de igrejas ou de onde essa mulher estiver inserida é indispensável para quem não pode contar com o pai, conforme Fussiger.

— Existe um ditado que diz que é preciso uma aldeia para educar uma criança e hoje estamos cada vez mais indo na contramão desta máxima, fazendo todo este gerenciamento de forma individual. Permitir ou pedir uma ajuda, por menor que seja, pode fazer toda a diferença — afirma.

Veja fotos de Daiara com sua filha

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Desenvolver a independência dos filhos também é uma sugestão dada pela educadora parental para “aliviar o lado da mãe”. E funciona, segundo Aline Fernandes Rodrigues, 41 anos. Mãe de uma adolescente de 12 anos, ela trabalha três turnos por dia, em dois empregos. É professora durante à tarde e manicure de manhã e à noite. E só consegue se dedicar a ambos os trabalhos porque tem apoio em casa.

— O pai da minha filha, meu marido, é parceiro e completamente apaixonado pela família. É um pai exemplar. E todas, absolutamente todas as tarefas de casa, são divididas entre nós três — relata.

Apesar do apoio das pessoas que mais importam a ela, a professora e manicure conta que se sentiu culpada diversas vezes por passar 11 horas por dia longe da filha para “poder dar conta” (financeiramente):

— Como mãe, a culpa vem e as perguntas junto. Será que estou sendo uma boa mãe mesmo trabalhando tanto?

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Segundo Fussiger, inúmeros estudos falam sobre a culpa que as mulheres sentem como mães, mas, em uma perspectiva mais pessoal, com base em seus atendimentos, ela menciona os julgamentos voltados a elas.

— Não só aquelas que trabalham, mas tenho a impressão de que nenhuma decisão tomada será suficiente. Se a mãe trabalha está abandonando a criança, se fica em casa não se preocupa com o futuro dos filhos, se é separada não soube escolher o pai, se é casada precisa servir ao marido, e por aí vai. É uma lista de exigências que trazem culpa — avalia.

Aline e Maria Isabel
Aline Fernandes Rodrigues e Maria Isabel (Foto: Arquivo Pessoal)

Participação do marido é imprescindível

Mãe de quatro crianças — de 1, 3, 7 e 9 anos —, a servidora pública Emanuelle Tillmann Biz Meirelles, 39, passa as manhãs com os filhos em casa, em Florianópolis, e à tarde se dedica ao trabalho, que tem formato híbrido (alguns dias em casa e outros presencial). Antes de ter o primeiro filho, já se imaginava como mãe:

— Mais dentro de um check-list de coisas que precisamos fazer na vida do que entender de fato o que significaria me tornar mãe —, ela confessa.

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O nascimento de Arthur, o mais velho, foi um grande baque. Precisou de tempo, conta, para se encontrar dentro do novo papel de mãe e assimilar a responsabilidade que estava assumindo.

— Foi após o acidente que nosso primeiro filho sofreu, e que o levou à condição de PCD, que aconteceu concomitantemente com a chegada da nossa segunda filha, que passei a entender e exercer melhor a maternidade — relata.

Com as duas crianças pequenas, e uma delas demandando cuidados especiais, a participação ativa do marido foi imprescindível para o maternar de Emanuelle. E continua sendo.

— Sempre nos organizamos conjuntamente com as funções que temos dentro de casa e na rotina dos pequenos, de forma a fazer funcionar da melhor maneira tanto para nós quanto para eles — explica.

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O marido, segundo ela, também trabalha. Ele, no entanto, faz home office, enquanto as meninas de 7 e 3 anos vão para a escola e o mais velho recebe atendimento médico domiciliar.

— É impossível imaginar a rotina com quatro filhos sem que o pai ou mãe tenha a ajuda do outro. É necessário que ambos participem e colaborem para que não haja sobrecarga de ninguém — salienta.

A divisão de tarefas e a responsabilização igualitária entre mãe e pai existe, mas ainda está longe de ser ideal. Dados do Portal da Transparência de Registro Civil mostram que 2023 foi o ano com maior número de registros civis sem o nome do pai desde 2016. Por outro lado, segundo a educadora parental, o número de perfis de homens em redes sociais falando sobre a paternidade ativa, presente, positiva, também aumentou.

— Estes dois dados me levam a crer que ao homem ainda é dado o direito de não ser paI, mesmo que tenha filhos, mas que os homens que escolhem exercer este papel estão dispostos a abrir o diálogo com outros homens e trazer uma perspectiva diferente sobre a paternidade e o papel da mulher no contexto parental. O caminho, apesar de lento e longo, é bastante possível — pondera Fussiger.

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Essa colaboração entre ambos permite à Emanuelle, por exemplo, manter atividades que considera essenciais para ela, como ir à academia e aulas de dança, encontrar amigas eventualmente e participar de encontros para seu crescimento pessoal e espiritual.

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