Vinte e um anos depois do fim do apartheid, a cor da pele segue sendo um tema de polêmica na África do Sul, onde os ‘Springboks’, seleção de rúgbi do país, composta em sua grande maioria por jogadores brancos, ainda não acompanhou a transformação do país.
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Antes da Copa do Mundo de rúgbi, que começa nesta sexta-feira, os últimos duelos dos Springboks no torneio Quatro Nações (três derrotas em três partidas) colocaram o treinador Heyneke Meyer no olho do furacão.
Além das decepções esportivas, o técnico provocou a ira de parte da opinião pública ao renovar a equipe com 13 jogadores brancos.
Meyer é acusado de dar preferência a jogadores brancos, mesmo estes não atuando em suas posições de origem, deixando de lado jogadores negros que poderiam assumir as posições de maneira mais natural.
“Não vejo a cor da pele, só vejo os melhores jogadores. Tenho ótima relação com meus jogadores”, se defendeu recentemente o técnico.
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Estas questões raciais sempre provocam reações muito emotivas na África do Sul, que saiu do regime racista do apartheid há apenas 21 anos, num país onde os brancos representam apenas 10% da população.
– “Vivendo no passado” –
Para acelerar a transformação por maior diversidade, a Federação se comprometeu, sob pressão do governo, a incluir pelo menos sete jogadores “não brancos” entre os 31 convocados para a Copa do Mundo-2015 e pelo menos cinco jogadores negros em campo durante as partidas.
Meyer, que convocou nove atletas negros para a Copa do Mundo -um recorde-, não parece muito preocupado em seguir essas orientações e, nas últimas partidas dos Springboks, raramente colocou em campo mais de quatro jogadores não brancos.
“Esta discriminação não vai parar tão cedo. O que acontece é deprimente e injusto para os jogadores negros, os Springboks estão vivendo no passado”, lamentou o ex-jogador John Mametsa ao jornal sul-africano The New Age.
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“Os jogadores negros que jogam bem não têm oportunidades. Não acredito que Meyer seja 100% honesto em suas justificativas”, acusou Mametsa. “Por que é preciso um ano para descartar um jogador branco que joga partidas ruis, enquanto que um jogo ruim é suficiente para tirar um jogador negro da seleção?”.
A lista de convocados de Meyer colocou o treinador nas últimas semanas na mira do Cosatu, o poderoso sindicato sul-africano, que afirmou que cinco jogadores de cor da equipe sul-africana se queixaram anonimamente da discriminação racial sofrida.
A polêmica ganhou força na semana passada, quando um partido político quase desconhecido, a Agência por uma nova Agenda (ANA), tentou levar a cabo uma ação judicial que impedisse os jogadores sul-africanos de viajar à Inglaterra, baseando-se em problemas raciais.
A denúncia finalmente não foi aceita pelo justiça, que abriu uma investigação em relação à lentidão nas reformas raciais no país, principalmente no mundo esportivo.
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– 1995, reconciliação esquecida –
O colunista e ex-jogador da seleção, Mark Keohane, reconheceu que há um problema na cultura dos Springboks, mas não colocou a culpa no treinador da seleção.
“Em caso de dúvida, como muitos outros técnicos, ele confia nos jogadores que conhece melhor, que são brancos. Não é justo ou injusto, mas no contexto do rúgbi sul-africano, isso é inaceitável”, explicou ao jornal Business Day.
Durante os anos do apartheid, de 1948 a 1994, o rúgbi era um esporte reservado para os jogadores brancos e só em raras exceções, como no caso do mestiço Errol Tobias (6 partidas entre 1981 e 1984), um jogador podia vestir a camisa dos ‘Boks’ antes do fim da ditadura racial.
O rúgbi, contudo, se tornou um símbolo da reconciliação nacional. Em 1995, o capitão François Pienaar recebeu o troféu de campeão do mundo das mãos do então presidente sul-africano e herói da luta contra o apartheid, Nelson Mandela, que vestiu a camisa dos Springboks para a ocasião. Hoje, esse gesto parece perdido no tempo.
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Apesar do regime na África do Sul ter mudado, muitos torcedores brancos estimam que os jogadores negros enfraquecem a equipe africana, bicampeã mundial.
Na Copa do Mundo-2015, a África do Sul faz parte do Grupo B com Japão, Escócia, Estados Unidos e Samoa, e faz sua estreia no sábado, contra os japoneses.
* AFP