A volta do deputado estadual Julio Garcia (PSD) à presidência da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) pode marcar um momento de mudanças nas negociações entre o governo Jorginho Mello e os parlamentares.

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Bem avaliado entre os deputados, Julio Garcia foi eleito presidente da Alesc com os votos de 37 dos 40 deputados. Ele ficará à frente da Alesc pelos próximos dois anos, até o fim de 2026. O período coincide com a definição das alianças que vão disputar o governo do Estado em outubro do próximo ano.

Provável candidato à reeleição, Jorginho Mello (PL) pode estar do lado oposto ao de Julio Garcia, que lidera uma articulação do PSD com planos de lançar o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, como adversário de Jorginho na corrida pelo governo.

Esse cenário faz parte dos deputados estaduais acreditar que o governo Jorginho pode enfrentar maior resistência da Alesc nos projetos em que precisar de aprovação do Legislativo. O ex-presidente Mauro de Nadal, do MDB, pertence a um partido que faz parte da gestão Jorginho, tendo feito a indicação do secretário de Infraestutura Jerry Comper (MDB) como membro da equipe de governo. Em contrapartida, o PSD de Julio Garcia não tem cargos e não participa da administração estadual.

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Um parlamentar de oposição ao governo Jorginho avalia que a gestão de Julio Garcia na Alesc pode oferecer olhar mais crítico a pautas do governo à medida que se aproximar o processo eleitoral de 2026. Nesta leitura, aumentaria a importância de o governo manter o apoio de partidos como MDB e PP, para evitar que essas siglas possam ser atraídas pelo PSD de Julio ao longo do tempo.

O governo Jorginho já ofereceu ao MDB mais duas secretarias, de Agricultura e Meio Ambiente e Economia Verde, de olho em um compromisso que possa envolver 2026. O MDB, no entanto, ainda está dividido sobre o convite de aumentar o espaço que ocupa na gestão. Neste sábado, o ex-presidente Mauro de Nadal sinalizou que o partido pode indicar um recuo dessa proposta de ter novos secretários.

Veja fotos da eleição à presidência da Alesc

PL teve duas vagas em chapa

Embora possa liderar um projeto político adversário a Jorginho, Julio montou a aliança que o levou à vitória na presidência da Alesc com duas indicações do PL, partido do governador e dono da maior bancada, com 11 parlamentares. A deputada Ana Campagnolo, mais votada na eleição de 2022, ficou com a 1ª secretaria, cargo considerado estratégico por definir quais propostas devem avançar e qual o ritmo de andamento das propostas. Julio afirmou ter com Jorginho uma relação pessoal “muito boa e muito estreita”.

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Novo vice-presidente da Alesc na gestão de Julio e membro do partido do ex-presidente Mauro de Nadal, o deputado Fernando Krelling (MDB) acredita em uma continuação da postura exercida na gestão anterior, quando deputados puderam fazer sugestões e alterações em propostas importantes para o governo.

— Logicamente tem que ter uma boa relação com o governo, mas essa boa relação não quer dizer aceitar tudo que o governo manda e não fiscalizar o governo. Acho que o papel da Alesc de fiscalização ao Executivo, de propor matérias importantes, vai continuar. Será uma continuidade da autonomia do Legislativo — avalia.

Novo secretário da Casa Civil é conhecido da Alesc

Mais ou menos afinado com a nova mesa diretora da Alesc, as negociações que o governo precisará fazer com a Alesc de Julio Garcia agora terão um responsável direto: o novo secretário de Estado da Casa Civil e ex-deputado estadual Kennedy Nunes, empossado na semana passada. O novo titular da articulação do governo esteve presente na sessão deste sábado e foi um dos primeiros a abraçar Julio Garcia após a vitória. Por conhecer de perto a dinâmica do parlamento e os próprios deputados, é citado por lideranças como um possível trunfo para o governo nas negociações.

Questionado pela reportagem sobre o tema, Kennedy defendeu ser muito cedo para falar de 2026.

— Nós não estamos falando absolutamente nada sobre eleição porque temos muita entrega para fazer. Tem muita água para passar debaixo dessa ponte, não é momento de antecipar qualquer quadro. O foco agora é em entregas do governo — afirma.

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O novo secretário da Casa Civil disse que terá a missão de conversar com os deputados sobre os problemas na relação com o governo. Ele citou como um dos projetos prioritários neste início do ano para o governo a regionalização do saneamento de SC, que causou polêmica no fim do ano passado e teve a discussão adiada para este ano.

— Queremos conversar com os prefeitos e deputados, esta é uma mancha que SC tem e que precisamos melhorar — afirmou.

Julio prega relação com “independência e harmonia”

Questionado sobre como será a relação com o governo Jorginho, Julio Garcia repetiu as palavras “independência e harmonia”. As falas foram dadas no discurso e em entrevista coletiva após a vitória.

— O relacionamento estabelecido entre a Assembleia e o governo é exatamente da forma como preconiza a Constituição. Independente, mas harmônico. Aqui se corrige projetos, aqui se aperfeiçoa, o governo respeita e vai ser assim. Vai continuar sendo assim — afirmou.

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Julio ainda lembrou das palavras do ex-governador Luiz Henrique da Silveira para defender que a relação entre Alesc e governo pode se manter em harmonia mesmo em meio a disputas eleitorais.

— O ex-governador Luiz Henrique dizia: “Eleição na terra é tempo de guerra”. Mas a guerra é eleitoral, é guerra política, disputa. Se ela for feita com respeito, tudo acontece com normalidade. Eu diria que a palavra-chave é essa: respeito.

Manutenção de projetos da Casa

Na parte administrativa da Alesc, Julio Garcia já antecipou que pretende dar continuidade a projetos iniciados na gestão de Mauro de Nadal, como o Alesc Itinerante, que levou sessões plenárias do Legislativo para grandes cidades catarinenses, e também as bancadas regionais, divisão de parlamentares por regiões do Estado com indicações de emendas parlamentares para investimentos localizados nas bases políticas.

Protagonismo em temas como infraestrutura

Outro traço que a presença de Julio Garcia na presidência da Alesc pode dar à instituição segundo aliados de Julio é uma visibilidade maior da instituição e do trabalho parlamentar. Na entrevista deste sábado, Julio já avaliou que a Assembleia pode estar mais presente em problemas do dia a dia dos catarinenses, citando os gargalos de mobilidade como exemplo.

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— Acho que tem que protagonizar um pouco mais as lutas pelas grandes bandeiras de Santa Catarina. Nós temos problemas sérios de infraestrutura. Eu acho que a Assembleia tem que agir muito nisso com as bancadas regionais. Nós precisamos identificar através das bancadas quais são os maiores desejos e através disso fazer realmente campanhas fortes interna e externamente para que essas bandeiras possam ser alcançadas — afirmou.

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