Bem antes do cereal virar “traje” em festa, nome de cooperativa e estampar a logomarca de uma grande empresa, um agricultor de Santo Amaro da Imperatriz, na Grande Florianópolis, já era conhecido como o Rei do Milho. De ascendência germânica, Alvonir José Hemsing, 62 anos, é figura popular no município que mais produz milho verde para o consumo em Santa Catarina.
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Em 2023, foram cerca de 25 milhões de espigas. Nas manhãs de sextas-feiras, o pequeno produtor monta o carrinho na praça central da cidade, abastecido com gás e panelas, para atender quem chega em busca de milho e de pamonha, iguaria doce ou salgada, muito procurada.
— Eu não sou apenas um vendedor de milho. Eu procuro levar uma mensagem positiva para as pessoas através da conversa ou de um sorriso — explica.
O desejo, acredita, vem da educação familiar e da formação religiosa. Com os pais, Alvonir aprendeu a respeitar as pessoas e se tornar um homem honesto. Das leituras litúrgicas que faz na missa semanal, procura tirar proveito espiritual. Tinha 10 anos quando começou a ler na igreja católica. Não por acaso, uma das passagens que mais gosta é a parábola do semeador, Evangelho de Lucas, 8:5-15, e que se refere como cada pessoa aceita os ensinamentos de Jesus Cristo:
— O semeador joga as sementes e acontece de tudo: caem no solo ruim, os passarinhos comem, falta sol e chuvas e outras em terra fértil para dar bons frutos — explica.
De onde vem o apelido
Alvonir sabe muito sobre milho, seja verde, seco, cor de ouro, granado. Também conhece os tipos de espigas, que podem ser vermelha, roxa, quebrada, debulhada. E que precisa cuidar da produção, se não o rato e o caruncho trazem prejuízos. Menino pobre, cedo descobriu que a palha de milho serve para forro de colchão, fazer cigarro e para artesanato.
O agricultor é casado, foi pai três vezes e avô de um neto. Na propriedade onde moram, na Vila Santana, ele organiza um espaço que sonha transformar em galpão crioulo para apresentar seus conhecimentos com conforto e qualidade: mostrar desde as sementes amarelinhas, o milharal plantado, as etapas do cultivo e os alimentos produzidos.
— Eu já faço isso de modo voluntário em algumas escolas. Vez que outra, faço visitas onde mostro para as crianças esse alimento rico que nasce no quintal de casa ou entremeado na lavoura — diz.
O apelido de Rei do Milho surgiu quando, mais jovem, andava pelas estradas do interior transportando o produto no trator tobata. No começo, pela produção da família liderada pelo pai. Mas também pelo trabalho em propriedades vizinhas, nos domingos e feriados, do amanhecer ao sol se pôr.
— Não se trata de me gabar, mas eu peguei um jeito próprio de arrancar as espigas e debulhar os grãos. Como era por produtividade, eu ganhava um bom dinheiro.
A vida corria bem até que o agricultor sofreu um acidente e ficou um ano sem poder trabalhar.
— A fé em Deus não deixou eu me entregar. Mas agora consegui retomar as atividades. Amo fazer o que faço: ser agricultor. Acho que é um dom de Deus, que vem da nossa raiz, como qualquer outra profissão.
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Rei do Milho conta como é a vida de agricultor
Figueiras em memória dos pais
Na propriedade de Alvonir há duas figueiras. Por pouco uma delas não foi ao chão. O Rei do Milho conta que foi o pai, João, que aconselhou os filhos a não derrubarem a árvore. A poucos metros, uma igualmente frondosa, apesar de menor: a mãe, Maria, lavava roupas à sombra da árvore. Memórias que emocionam Alvonir e que pretende eternizar.
— Vou colocar duas plaquinhas de madeira com o nome dos meus pais, uma em cada árvore — promete.
Pelo jeito, nenhum dos três filhos vai seguir na agricultura. Uma é professora, um filho está empregado numa grande empresa de móveis da região e a mais jovem, ainda estudante, pretende seguir no ramo dos cosméticos.
Diferente de Alvonir, que mesmo apresentando bons resultados na escola, optou em ficar na agricultura, e próximo do pai. Mas o homem que gosta de transmitir boas mensagens continua a semear.
— Dei um boizinho para o neto. Não significa que esteja comprando a ideia do menino, mas quem sabe ele não se sente atraído para a vida no campo? — pergunta.
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