A voz embargada não esconde o luto dos pais de Bettina Steinbach de Souza. A menina de dois anos morreu de pneumonia na segunda-feira (11), enquanto aguardava um leito de UTI no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis. A Secretaria de Estado da Saúde (SES) investiga o caso, enquanto a Justiça acatou um pedido do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para que o governo estadual garanta o atendimento às crianças e adolescentes em meio ao colapso do sistema público. 

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— Em pleno século 21 morrer criança por falta de espaço, falta de recurso, falta de leito, falta de equipamento, falta de um aparelho. Isso é inaceitável — diz o pai da criança, que prefere não se identificar. 

Segundo a família, os primeiros sintomas ocorreram em 30 de junho. Na ocasião, a mãe de Betina buscou atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Palhoça, na Grande Florianópolis. A criança teria reagido mas, uma semana depois, voltou a ficar doente. Foram mais três atendimentos, todos com o mesmo diagnóstico. 

— [Falaram que era] Gripe com dor de garganta, não falaram que tinha infecção, não falaram “vai para o hospital fazer o exame de sangue por causa dessa febre”. Não, essa pneumonia bacteriana foi tomando conta, uma bactéria muito rápida. Minha filha faleceu por falta de UTI e por falta de atendimento na UPA — desabafa a mãe.  

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Com a piora dos sintomas, a família procurou o Hospital Infantil Joana de Gusmão na segunda-feira (11). De acordo com o colunista do NSC Total Raphael Faraco, a criança foi levada para o centro cirúrgico pra drenar o tórax e, depois, deveria ter ido pra UTI. Ela apresentava problemas respiratórios e teve uma parada cardíaca. A morte foi confirmada às 4h50min.

— Eu sei que eles tentaram. Nunca vi tanto médico em cima da minha filha. Mas por que não tinha uma UTI para salvar minha menina? — questiona a mãe. 

Em nota, a prefeitura de Palhoça disse que lamenta a morte da criança e confirmou que ela recebeu atendimento três vezes na UPA do municípios, por médicos diferentes, e que “diante do agravamento do caso, os pais foram orientados a buscar atendimento no Hospital Infantil, indicado para casos de alta complexidade”. (veja a nota na íntegra abaixo)

Baixa vacinação e isolamento podem explicar aumento de atendimentos 

O colapso na rede pública de saúde infantil é sentido, ao menos, desde abril. De acordo com dados da SES, obtidos pela NSC TV, entre janeiro e maio desse ano há uma média mensal de 4.466 hospitalizações de crianças, mil a mais do que no mesmo período no ano passado, quando foram 3.550. 

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Além disso, a Fiocruz alega que houve um aumento de quase 20% nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) em crianças ao comparar com o mesmo período do ano passado. 

Isto tem sobrecarregado os sistemas de saúde. Nesta sexta-feira (15), por exemplo, 98,95% dos leitos neonatal estavam ocupados, com apenas duas vagas disponíveis. Também só há dois leitos de UTI pediátricos em Santa Catarina, onde a taxa de ocupação está em 98,31%. 

Para o pediatra e coordenador do Módulo de Doenças Respiratórias da Infância da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Cutolo, a baixa vacinação e o isolamento podem ter contribuído para o aumento nos casos. 

— Nunca vi essa quantidade de infecção. Nem quantidade, nem gravidade, Para mim é inédito. Coisas que sabemos e que ainda estão sendo estudadas: as crianças ficaram isoladas por conta da pandemia e não desenvolvera uma memória de defesa. Outro fator que está sendo estudado é que o vírus da Covid-19 é capaz de infectar células do nosso corpo que são responsáveis pela defesa do vírus. Mas se tinha informações que teríamos um cenário caótico no outono e inverno — diz.

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A mesma opinião é compartilhada pela epidemiologista da UFSC e membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Alexandra Boing. 

— Era previsto que ia se agravar o sistema público, por isso era preciso estruturar as redes de saúde, realizar campanhas de vacinação, inclusive com busca ativas, e combater as fake news. Não focar apenas na gestão da consequência. Caso contrário, a situação tende a se repetir e o serviço continuar despreparado para cuidar das crianças — salienta. 

Algo que, para a família de Betina, poderia ter salvado a sua vida, como conta a mãe: 

— Que outros pais não passem pelo o que a gente tá passando, proque um pai não pode enterrar um filho. 

Governo pode ser multado se não oferecer leito 

Caso não ofereça atendimento a crianças e adolescentes que aguardam por um leito de UTI em até 12 horas, o governo estadual poderá ser multado, segundo determinação da justiça. A decisão atende a um pedido do MPSC, devido à crise de saúde pública vivida no Estado.

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Além disso, o governo estadual terá que fornecer diariamente ao MP a lista de solitações de vagas, com a identificação dos pacientes.

Outro pedido, que também foi acatado pela Justiça, é que o Estado apresente em até 48 horas a relação de leitos ativos de enfermaria e UTIs pediátricos e neonatais da rede privada estadual.

O processso também busca apurar a responsabilidade das mortes de crianças por falta de estrutura de saúde. Além de Betina, outra bebê, de dois meses, também morreu a espera de uma vaga em Florianópolis. 

Sobre isso, o MP afirmou que o caso será apurado com cautela e, se tiver uma punição, não será leviana. Porém, a investigação sobre os motivos que levaram as mortes será feita com responsabilidade, afim de identificar os fatores que levaram o óbito. 

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O Diário Catarinense entrou em contato com o governo do Estado, que respondeu na noite desta sexta (15). Em nota, a Procuradoria-Geral do Estado informou que pediu à Vara da Infância e Juventude da Comarca de Florianópolis ainda na noite desta sexta que “seja realizada imediatamente uma audiência entre as partes para tratar da disponibilização de leitos pediátricos e neonatais na rede pública estadual de saúde”.

No pedido, o Estado apresenta dados da Secretaria de Estado da Saúde sobre a ampliação de leitos de UTI pediátrica e neonatal para atender a crescente demanda. A PGE alega que essas ações ocorrem “inclusive por meio da contratação de estruturas da iniciativa privada”, mas que “há escassez de vagas inclusive nesses estabelecimentos, em um cenário preocupante de baixa cobertura vacinal de gestantes, bebês, crianças, adultos e idosos”.

O pedido de audiência, segundo o Estado, é para ajustar medidas relacionadas à liminar concedida em ação civil pública movida pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

Esta semana, a Secretaria de Estado da Saúde anunciou a abertura de 13 leitos clínicos e 10 de UTI e semi-intensivo no Hospital Joana de Gusmão. Além disso, será criado um espaço de triagem dos pacientes, na área externa do hospital, para atender casos mais brandos e não lotar a emergência.

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Já em Criciúma, serão abertos 11 leitos pediátricos e cinco leitos de UTI neonatal.

Ainda de acordo com a pasta, foi lançado um edital de contratação imediata de 20 médicos – 10 pediatras e 10 intensivistas, com contrato de 20 horas. Todos para o hospital Joana de Gusmão.

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Veja a nota da prefeitura de Palhoça

“A Prefeitura de Palhoça lamenta profundamente a morte precoce da criança e se solidariza com os pais, familiares e amigos.

Dentro do que pode ser divulgado, que não fere o sigilo de dados clínicos de prontuário médico salvaguardados pela legislação, a Secretaria de Saúde de Palhoça esclarece que a paciente foi atendida em três oportunidades na UPA, e por três médicos diferentes. Diante do agravamento do caso, os pais foram orientados a buscar atendimento no Hospital Infantil, indicado para casos de alta complexidade.

A Secretaria de Saúde está acompanhando, a upa tem aparelho para RX, o diagnóstico seguiu os protocolos de acordo com o quadro clínico”.

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Veja a nota da Procuradoria-Geral do Estado

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