— Olha, não sei se vai rolar entrevista. Está um caos lá no camarim. O Geraldo Azevedo está com um problema na garganta — me alertou um dos assessores da casa de shows Hard Rock Live Florianópolis, em São José, onde Chico César e Geraldo Azevedo fizeram um show na noite dessa sexta-feira (19).
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O funcionário falava com a equipe do NSC Total no hall de entrada da arena. Além dos repórteres, ele reunia um grupo de cerca de 12 fãs que subiram ao camarim para tirar fotos com os artistas.
O clima, realmente, parecia tenso. Nervoso, o produtor, definiu regras:
— São dois por vez. Entra, tira a foto e sai — explicou.
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Ao entrar na sala em que estavam, não pude ouvir a voz de Geraldo. Ele estava silencioso, apesar de sorrir. Já eram 21h03min, um atraso de três minutos que parecia não abalar Chico. Sorridente, prometeu conversar após o show. E cumpriu.
— Que bolsa linda essa que você tem — disse Chico à fotógrafa Jéssica Michels — Tenho uma igual. Foi Elba Ramalho que me deu.
Apressada pela produção, a sessão de fotografias acabou. Os fãs se dirigiram à suas mesas.
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A dupla nordestina entrou no palco. A suposta dor de garganta que irritou Geraldo foi substituída por uma doce voz que, em uma simbiose com a de Chico e os violões, emocionou o público com a turnê “Violivoz”.
No centro do Hard Rock Live havia mesas com cadeiras. Aos poucos, o público se levantou, ocupou as laterais e, por fim, a frente do palco, em um ato que Chico chamou de subversivo. Pessoas de todas as idades pulavam entusiasmadas. Casais apaixonados dançavam abraçados. Famílias, com suas crianças, uniam-se em cirandas.
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A parceria começou em uma noite que Chico foi ver um show de carnaval de Geraldo, que após a apresentação, convidou o amigo para jantar em casa e viraram a madrugada tocando violão na cozinha.
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— Ali a gente percebeu que havia uma afinidade, uma identificação — disse Chico ao NSC Total — E não só nós. Já tocamos em diversas capitais brasileiras. Temos um repertório que o Brasil se sente identificado. É como se a gente levasse a semente, que foi plantada na minha cozinha, para o país inteiro.
Entre clássicos como “Dia Branco” e “Estado de Poesia”, o concerto foi marcado por canções e intervenções eminentemente políticas, como “Mama África”, que trata de questões sócio-raciais, e “Paula e Bebeto”, que fala de diversidade sexual. O clima panfletário foi crescendo aos poucos. Começou quando Geraldo pediu para afinar o instrumento e um fã gritou que o violão desafina por conta do frio.
— Tá frio nada! As geleiras estão derretendo — bradou Chico, o mais falador.
O clímax ideológico foi atingido quando eles cantaram a canção “Reis do Agronegócio”, que tem versos como “Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio / Ó produtores de alimentos com veneno / Vocês que aumentam todo ano sua posse / E que poluem cada palmo de terreno / E que possuem cada qual um latifúndio / E que destratam e destroem o ambiente”. Ao anunciar a música, o paraibano disse que cantava “Por Bruno [Pereira] e Dom [Phillipis]”, indigenista e jornalista ambiental assassinados em junho de 2022 no Vale do Javari. O público aplaudiu. Uma luz vermelha acendeu no palco. Chico saudou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O público aplaudiu. Chico homenageou quilombolas e ribeirinhos. O público aplaudiu. E, no meio dos versos, Chico gritou:
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— Abaixo o capitalismo!
O público, então, se levantou aplaudindo. Após, os músicos cantaram o reggae “Pedrada”, que pede “Fogo nos Fascistas / Fogo, Jah!”.
Ele também fez referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao contar que começaram a preparar o show antes da pandemia de Covid-19 e que pretendiam começar a turnê antes, mas foram impedidos pela doença.
— Convivemos com a pandemia e o pandemônio.

Após a afirmação, o público reagiu cantando “Ole, Olá, Lula”.
— A nossa música sempre tratou da ecologia, da política. Falo em “Mama África”, por exemplo, das mulheres que, mesmo tendo companheiros, criam os filhos sozinhas. Não há separação entre arte e política para nós e para essa escola de onde vem Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Edu Lobo — disse ao NSC Total.
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— A arte existe para fazer uma intervenção de pensamento. Para arejar. Para dizer de outro jeito coisas que o jornal não diz, que o parlamentar não diz, que o sindicalista não diz. Nós dizemos do nosso jeito artístico.
No palco, falaram sobre o processo de composição e sobre a importância de valorizar artistas fora do eixo Rio-São Paulo. Para isso, cantaram canções compostas pelos dois recentemente, como “Nem na Rodoviaria”. Chico argumentou que é preciso sempre compor músicas novas e cantar para o público. Utilizando versos de Belchior, disse que “Nossos ídolos ainda são os mesmos (…) / Mas o novo sempre vem”.
Ao NSC Total, Chico falou admirar a história catarinense:
— Santa Catarina é um estado libertário. É um estado que teve revoltas de negros e indígenas. Santa Catarina é Brasil. Toco aqui com a mesma alegria que toco na Paraíba, Pernambuco e Pará.

*Sob supervisão de Luiz Daudt Jr.
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