Após a prisão de um professor de Itapoá, na última semana, suspeito de importunação sexual em uma escola da cidade, pais de alunos que teriam sido vítimas dos crimes desabafaram:
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— Sentimento horrível, o pior de todos. Saber que uma pessoa que era para ser de confiança estuprou seu filho – disse o pai de uma aluna.
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O suspeito, um homem de 33 anos, foi preso preventivamente em Curitiba (PR) na última quinta-feira (11). Ele havia deixado a cidade e o emprego mas, segundo a polícia, não era considerado foragido.
As situações começaram a ser percebidas pelos pais em 2019, quando um aluno relatou à mãe que o professor praticava “bullying” contra ele. Segundo a mãe, o menino começou a mudar o comportamento desde que iniciou as aulas com o professor, em 2017. À época, ele tinha apenas nove anos de idade. A mãe conta que o menino passou a chegar mais agressivo em casa.
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— Meu filho chegava dizendo que o professor não gostava dele. Que excluía ele das atividades escolares — lembra.
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O menino havia recebido diagnóstico de dislexia e Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD), portanto, precisava de um acompanhamento na escola, como um professor auxiliar. Incomodada com a falta de contrapartida da unidade, a mãe passou a ir mais vezes ao local.
As reclamações do filho começaram a ser mais constantes e não mais somente a respeito do assédio moral que sofria, com humilhações na frente dos outros alunos. Ele começou a relatar que via o professor tocando as alunas, dando presentes a elas, dentre outras situações.
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Foi quando a mulher percebeu atitudes suspeitas do professor, como passar mais tempo do que o normal na escola, ficar trancado sozinho com alunas por horas dentro de salas de aula e até mesmo levar crianças da escola para a casa dele.
A mãe deu início a campanhas para pedir o desligamento e investigação ao professor, inclusive com abaixo-assinado enviado a outros pais. Em dezembro de 2019, ela registrou um boletim de ocorrência e denunciou a situação para o Ministério Público depois de inúmeras tentativas, conforme a mãe, de diálogo com a escola.
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— Como ele era muito bonzinho, ninguém acreditava. Ele fazia várias ações na escola, ninguém suspeitava. Uma vez, falei com uma mãe sobre o abaixo-assinado e a filhinha dela estava ao lado. Quando a menina me ouviu, disse: “viu, mãe? Falei que ele fazia essas coisas” — recorda.
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A mãe precisou trocar o filho de escola e ainda hoje ele faz acompanhamento com psicólogo e psiquiatra.
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— Ele já tinha boletins de ocorrência feitos em outros anos contra ele. Como que uma pessoa que já tem antecedentes assim é contratado e vira professor? — questiona a mulher.
Promoção a diretor em meio a denúncias
Mesmo com a campanha de alguns pais, no ano seguinte o professor foi promovido a diretor da escola. Neste mesmo ano, em 2020, o pai de uma aluna descobriu que ela teria sido vítima de estupro pelo suspeito em 2019.
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Imediatamente o pai fez a denúncia na Polícia Civil. Segundo ele, exames feitos no Instituto Médico Legal (IML) de Joinville comprovaram que a menina havia sido violentada.
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— Ele era meu amigo pessoal. Frequentava a minha casa. Eu fazia parte da Associação dos Pais e Professores (APP) — acrescenta o pai.
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O pai diz, ainda, que o homem morava sozinho, tinha apenas alguns cachorros e convencia as crianças a irem até a sua casa. Além disso, utilizava o pretexto de aulas adicionais de teatro feitas no contraturno para mantê-las por mais tempo na escola. Quando questionado pelo pai da menina sobre os abusos, ele conta que o professor negou as acusações.
A menina, hoje, também precisa de acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. O pai enfatiza que a mudança de comportamento foi evidente.
— Minha filha é maravilhosa. Hoje ela está com um comportamento muito diferente. Só sai do quarto para comer. Ela andava a cavalo, andava comigo de moto, brincava. Até o jeito de se vestir dela está mudando — lembra o pai, emocionado e indignado.
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O caso é investigado e segue em segredo de Justiça. Mas, conforme os pais, mais crianças foram abusadas.
Os nomes dos envolvidos não foram informados em proteção à identidade das vítimas, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
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O que diz o município
Em nota, o município disse que a Secretaria da Educação abriu um Processo de Sindicância Investigatória em 2019 para apurar a situação. De acordo com o município, o caso foi remetido à Procuradoria Geral da cidade e, posteriormente, ao Ministério Público.
Questionada sobre a contratação do professor mesmo com registros anteriores de boletim de ocorrência, a prefeitura informou que a certidão negativa de antecedentes criminais foi apresentada por ele, o que não impediu de ocupar o cargo.
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Leia na íntegra:
“Em 2019, quando a Secretaria de Educação tomou conhecimento das acusações contra o professor, imediatamente adotou as medidas cabíveis e abriu um Processo de Sindicância Investigatória para averiguar os fatos. Durante o processo foram ouvidas todas as testemunhas arroladas. Mesmo sem qualquer indício contra o profissional, diante da gravidade da acusação, a Comissão do Processo de Sindicância Investigatória decidiu que o caso não fosse arquivado, remetendo-o a Procuradoria-geral do Município que, por sua vez, encaminhou o processo ao Ministério Público para que este desse prosseguimento à investigação.
A Prefeitura de Itapoá reitera que tomou todas as medidas que lhe cabiam e, esgotada a sua possibilidade de atuação no caso, entregou o processo às autoridades competentes para que as investigações fossem prosseguidas.
Todos os servidores da Prefeitura quando tomam posse em seus cargos são obrigados a apresentar certidão negativa de antecedentes criminais, e com ele não foi diferente. A certidão foi apresentada, então não havia o que impedisse ele de ocupar o cargo.”
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