O desafio da saúde mental entre os povos originários também é um debatido pelos órgãos de saúde. Conforme o Ministério da Saúde, modelos foram reestruturados, assim como serviços, para garantir o atendimento adequado a população em casos como ansiedade, depressão e alcoolismo.

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Desde 2010 existe o Programa de Atenção Psicossocial e Promoção do Bem Viver Indígenas, implantado na Secretaria de Saúde Indígena, a Sesai, e com abrangência no Estado. No entanto, nos últimos anos, pouco ou quase nada avançou. Um dos objetivos é ampliar e fortalecer as ações “de forma transversal às políticas sobre as demais áreas técnicas, departamentos e ministérios ligados ao tema”, pontua o Ministério da Saúde.

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Ciente das carências em território nacional, em 2023 o governo federal autorizou a contratação de consultores técnicos. Atualmente seriam 117 profissionais, a maioria de psicologia, trabalhando diretamente com o tema em terras e territórios indígenas do país. No governo anterior, o quadro tinha 32 profissionais.

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O NSC Total questionou quantos seriam os profissionais de psicologia atuando junto aos indígenas de Santa Catarina, mas a assessoria do órgão federal não respondeu.

Nos distritos existem as chamadas equipes sentinelas, inclusive com a participação de indígenas, para identificar e manejar casos ou grupos de risco de suicídios nas comunidades. Por regra, o tratamento na maioria dos casos deve ser feito em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), localizados em áreas urbanas próximas das aldeias.

“Tema exige muito delicadeza, principalmente nas ações”, diz coordenadora

A complexidade do enfrentamento à saúde mental indígena no Sul do Brasil pode ser vista na configuração do Distrito Interior Sul, ligado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). A coordenação é da liderança Kerexu Yxapyry e envolve cerca de 40 mil indígenas de 210 aldeias em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A sede da coordenação é São José, na Grande Florianópolis.

— Estamos procurando trabalhar as demandas envolvendo a Atenção Psicossocial de maneira coletiva, compartilhando o cuidado em rede e buscando o envolvimento dos especialistas da medicina tradicional indígena. Com isso, respeitando e aderindo à especificidade de cada povo — explica.

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O objetivo é executar um plano que intensifique o que as equipes de saúde indígena já realizam, como o monitoramento dos dados da atenção psicossocial, como o monitoramento de pacientes que fazem uso de medicação psicotrópica, uso abusivo e prejudicial de álcool, pacientes com ideação e tentativa de suicídio, pessoas que sofreram algum tipo de violência. Com isso, identificar fatores de risco e determinantes sociais, fomentando o aumento de realização de ações de prevenção e promoção da saúde nas aldeias.

O foco também inclui o ambiente escolar e o territorial para elaboração de materiais educativos, realizando processos contínuos de formação aos profissionais de saúde indígena para que possam estar qualificados para oferta do cuidado.

Parcerias com Estado e Assembleia Legislativa

Além disso, realizar articulações com instituições parceiras, como os estados, municípios e universidades.

— Precisamos dialogar com os especialistas da medicina tradicional indígena para o acompanhamento desses pacientes e trabalhar com a prevenção através da troca de conhecimento geracionais e de gênero entre os anciãos, jovens, psicólogos e líderes espirituais — diz Kerexu.

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Para a liderança Guarani, que ficou um ano atuando em Brasília, no Ministério dos Povos Indígenas, e retornou para Santa Catarina, onde assumiu o Distrito Interior Sul, é um desafio muito grande:

— É um tema que exige muita delicadeza, principalmente nas ações. Estamos contemplando ações, diálogos e parcerias entre o Fórum Parlamentar Indígena da Justiça do Bem viver, Teko Porã na Alesc e com o Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepin) de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

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Projeto da psicologia acolhe indígenas

Há um consenso entre profissionais da saúde mental que intervenções precisam considerar os modos singulares e a estruturação simbólica das organizações sociais. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) existe o projeto Escuta Bem Viver, que oferece espaço de acolhimento, escuta dos sentimentos e acompanhamento psicológico para estudantes e os Guarani de aldeias da Grande Florianópolis.

Estruturado como campo de estágio e extensão universitária, o projeto faz atendimento no Serviço de Atenção Psicológica (SAPSI), no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH). Extensionistas e psicólogos que atuam como voluntários. Também existe o grupo de saúde sentimental indígena, com pessoal da antropologia, política, educação e assistência social.

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— É um projeto voltado para a escuta dos sofrimentos das pessoas indígenas que conta com apoio da universidade e da Sesai, que dá suporte levando as pessoas para as consultas — explica o professor e psicólogo Iacã Machado Macerata.

Preferência pelo uso do termo saúde sentimental

Iacã prefere usar a expressão saúde sentimental indígena, em vez de saúde mental, assim como no âmbito do coletivo que possui vários participantes. Explica que foi sugestão de um colega, uma vez que o povo Guarani fala em sentimentos e não apenas em questões da mente e do corpo:

— A gente está lidando com cognição, com emoção, com afetos. Por isso, achamos mais adequado. As ações de promoção de saúde devem se inspirar na cosmologia Guarani, para quem não faz sentido a saúde mental ser separada da saúde do corpo e do espírito.

Na psicologia, observa o professor, um método pronto e universal pode funcionar no modelo europeu, mas não para os indígenas.

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— Hoje, o que adoece o indígena, é o capitalismo. O modo de vida dos não indígena impacta a vida deles, que possuem uma outra visão sobre a Terra, enquanto sentem suas águas e alimentos contaminados pela nossa ação. Nas aldeias, as lideranças políticas estão com dificuldades em lidar com as gerações mais jovens, que estão vendo nas redes sociais o modelo padrão do branco, heterossexual, economicamente ativo, global e isso deixa eles perdidos. As práticas espirituais ficaram mais rarefeitas e isso reflete no sentido existencial — diz.

Para o professor Iacã, a “saída” do território físico para o espaço virtual tem aumentado o número de casos depressivos e levado alguns ao suicídio. Fato que, conforme o pesquisador, impacta a todos, assim como os jovens não indígenas.

— No entanto, isso é mais intenso no mundo indígena, por haver uma cosmologia mais distante da ocidental — pontua.

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