Um velho conhecido da política catarinense está de volta à cadeira mais importante do Legislativo de Santa Catarina. O deputado estadual Julio Garcia (PSD) foi eleito presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) pela quarta vez na tarde deste sábado (1º). O parlamento se reuniu para decidir quem iria comandar a Casa pelos próximos dois anos, e o retorno de Julio, dado como certo desde o fim do ano passado, se confirmou em um placar expressivo. O cargo é importante porque decide o ritmo dos projetos analisados pelos deputados, além de ser o segundo na linha de sucessão do governo do Estado, logo após a vice-governadora.

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Julio Garcia é eleito presidente da Alesc pela quarta vez

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O acordo para a volta de Julio Garcia à presidência da Alesc envolveu diferentes partidos e foi visto como mais uma amostra da habilidade política do deputado. O parlamentar conseguiu unir nada menos que PT e PL na aliança de apoio. Os petistas, que preferiram Júlio a uma possível candidatura do PL, terão uma vaga na mesa diretora, com Padre Pedro Baldissera como 2º vice-presidente. Já o PL abriu mão de lançar chapa e endossou a candidatura de Garcia com aval do governador Jorginho Mello. O partido deve ter duas cadeiras — Ana Campagnolo como 1ª secretária e Oscar Gutz como 4º secretário.

— Conseguir unir PT e PL já é um sinal de sabedoria e de vitória neste contexto — avalia o deputado Rodrigo Minotto (PDT), do Sul do Estado, mesma base política de Julio Garcia.

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Quem é Julio Garcia, candidato a presidente da Alesc

Julio Cesar Garcia, hoje com 74 anos, na juventude foi goleiro de futebol de salão em equipes de Florianópolis. O desempenho nas quadras o levou ao Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), hoje extinto, mas que à época mantinha um time forte da modalidade. Como tinha formação em técnico de Contabilidade, tornou-se bancário e seguiu carreira na empresa, passando por cidades como Xanxerê e Tubarão.

A entrada na política ocorreu nos tempos de Besc, após um convite do ex-governador Jorge Bornhausen para disputar a eleição de 1986. Foi eleito deputado estadual e atuou como parlamentar constituinte, ajudando a elaborar a Constituição do Estado, assinada em novembro de 1989.

Julio Garcia está no sétimo mandato de deputado estadual e presidiu a Alesc em três ocasiões (de 2005 a 2006, de 2007 a 2008 e de 2019 a 2020). Em 2005, na primeira passagem na presidência da Assembleia, assumiu o governo do Estado por 12 dias durante viagem do então governador Luiz Henrique da Silveira e apresentou um projeto de lei que garantiu repasses mensais do Fundo Social do Estado às Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes). A medida é citada pelo deputado em entrevistas como uma de suas ações mais marcantes.

A trajetória na política teve ainda um hiato. Em 2009, Julio renunciou ao mandato de deputado para ser conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC), após indicação do então governador Luiz Henrique. Oito anos depois, aposentou-se da função e voltou à política, elegendo-se deputado estadual em 2018.

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Entre os parlamentares da Alesc, Julio tem simpatia da direita à esquerda. Os elogios vão desde o fato de ser um líder que ouve e ajuda deputados de diferentes partidos, respeitando os espaços e a pluralidade, até gestos do dia a dia, como o bom trato com funcionários, da limpeza aos chefes de gabinete. Até o salário pago alguns dias antes do que o habitual contribui para torná-lo um nome quase de consenso entre os deputados, e uma espécie de “favoritaço” na disputa pela presidência da Alesc.

— É o nosso “malvado favorito” — conta, de forma bem-humorada, um assessor parlamentar de partido de oposição.

O atual presidente Mauro de Nadal (MDB) confirma as virtudes do provável sucessor.

— Sempre mostrou qualidades que são essenciais, como saber valorizar os colegas, conhecer a gestão e ter o entendimento pleno da importância do equilíbrio entre os poderes — avalia.

Para o aliado Eron Giordani, ex-chefe de gabinete da Alesc durante a gestão de Garcia e atual presidente estadual do PSD, a postura é um traço herdado do ex-governador Jorge Bornhausen, que foi mentor político de Julio e em quem ele procura se espelhar.

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— O Julio político é professor, respeitoso, educado, de palavra, e isso você vai ouvir de muita gente que trabalha com ele. Tem uma credibilidade gigante — conta.

A fórmula de Julio Garcia fazer política “à moda antiga” é outro ponto que surpreende até aliados. Mesmo não sendo tão presente nas redes sociais e em eventos da comunidade aos fins de semana, o deputado consegue se manter alinhado com lideranças e se valer do apoio e do prestígio delas para conquistar votos, o que assegurou as reeleições.

— É um dos poucos que conseguem fazer política a esse estilo. Nos dias de hoje não é mais comum, natural. E ele ainda consegue preservar isso — avalia Eron, que define Julio como enigmático por ouvir muito e falar pouco em suas reuniões.

O deputado Napoleão Bernardes (PSD), líder do partido de Julio Garcia na Alesc, acrescenta outro elemento que explica a adesão do deputado perante os colegas: o desprendimento.

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— Ele permite aos colegas ter posição de protagonismo. Muitas vezes abre mão de seus próprios espaços de visibilidade para ceder a outros deputados. Não faz por estratégia, mas por algo genuíno — conta.

Disputa com Jorginho e planos para 2026

A candidatura de Julio Garcia à presidência da Alesc é encarada como um ato de despedida. Ele já anunciou que não pretende mais concorrer à Assembleia Legislativa, e avalia disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Julio lidera uma articulação do PSD que deve lançar candidato ao governo do Estado em 2026. No último fim de semana, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, reuniu aliados para anunciar candidatura ao Executivo no próximo ano.

Jorginho e Julio fizeram carreira no Besc, já tiveram rivalidades no parlamento e lideram os dois partidos com projetos de candidatura ao governo em 2026, mas sinalizam que a disputa pela mesa diretora da Alesc não deve pesar no jogo eleitoral. Em dezembro, o governador Jorginho anunciou ao colunista da NSC, Ânderson Silva, que apoiaria a candidatura de Julio Garcia na Alesc, enquanto o deputado afirmou que a Assembleia teria independência, mas iria “conviver harmonicamente com os demais poderes”.

Para parlamentares de alguns partidos como o PT, a candidatura de Julio foi endossada por poder oferecer uma postura mais independente da Alesc em relação ao governo Jorginho. Mesmo assim, no PL o entendimento foi de que apoiar Julio seria mais interessante do que lançar candidato próprio, mesmo que Julio e Jorginho possam estar em lados opostos nas urnas em 2026.

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— Não adianta querer dividir, é hora de unificar. Mesmo tendo 11 [deputados] na bancada, não seria hora de criar uma rivalidade com ele, mas de ter bom trato para que ele possa fazer uma boa gestão, em harmonia — avalia o deputado Marcius Machado (PL), líder do partido do governador na Alesc.

Veja fotos antigas de Julio Garcia

Nome à frente dos impeachments

A última passagem de Julio Garcia pela presidência da Alesc ocorreu em um momento de turbulência na política catarinense. O deputado foi responsável por aceitar e abrir os dois processos de impeachment do ex-governador Carlos Moisés e da ex-vice-governadora Daniela Reinehr, julgados entre 2020 e 2021. Por ser o segundo na linha de sucessão, Garcia poderia se tornar governador interino do Estado em caso de afastamento dos dois titulares em razão das acusações.

Após o fim do primeiro processo de impeachment e um período de um mês com governo interino da vice Daniela Reinehr, no fim de 2020, Carlos Moisés se reaproximou dos deputados estaduais, sobretudo do presidente Julio Garcia. A conversa construiu uma nova aliança. De volta ao cargo, Moisés passou a contar com o apoio da maioria no parlamento para a segunda metade da gestão. Eron conta que Julio não alimentou esperança de assumir o governo, mesmo que o cenário tenha chegado muito perto de ocorrer.

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— Ele nunca foi “picado pela mosca [azul, metáfora para atração pelo poder]”. As pessoas o procuravam, perguntavam qual equipe ele iria montar, mas ele nunca fez conversa com ninguém. Jamais quis transmitir, inclusive para a gente da equipe na época, a sensação de que aquilo poderia ser golpe para tirar alguém do poder e ele assumir — conta.

Investigado na Operação Alcatraz

Na época dos pedidos de impeachment, Julio era alvo de investigações da Operação Alcatraz, que apurava supostas irregularidades de desvio de recursos no governo do Estado entre 2009 e 2017. O deputado era apontado como um possível beneficiário de recursos obtidos em um esquema ilícito e chegou a ser alvo de prisão preventiva domiciliar.

O aliado Eron Giordani lembra do período e afirma que Julio Garcia optou por não reagir publicamente, mas fazer a defesa por meio dos advogados, no processo.

— Teve um momento que deixou ele fora do prumo: quando viu a tentativa de envolvimento dos filhos. Ali eu vi um Julio diferente, fera como qualquer pai ficaria na defesa dos filhos. Mas ainda assim tratou aquilo sempre como trata questões políticas, com muita discrição, não quis partir ao ataque — lembra.

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A defesa do deputado conseguiu anular no Superior Tribunal de Justiça (STJ) os elementos de prova da investigação contra Julio Garcia na Alcatraz. O motivo foi o fato de que o parlamentar já era alvo de apurações quando era conselheiro do TCE-SC, cargo que lhe garantia foro privilegiado, o que não teria sido respeitado. A tese foi defendida pelos advogados de Julio Garcia desde o início da investigação.

Com a provável vitória na disputa pela presidência da Alesc neste sábado, Julio Garcia terá os próximos dois anos à frente do Legislativo para escrever novos capítulos na relação entre os deputados e o governo Jorginho Mello. Em paralelo a isso, deve liderar as negociações e definições do projeto político do PSD para 2026.

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