A história da Orchestra Philarmônica Destherrense, uma das manifestações mais originais do Carnaval de Florianópolis, está disponível na Wikipedia, a enciclopédia digital colaborativa. Acessível a todos, a página resgata os irreverentes desfiles sob a batuta do maestro Tullo Cavallazzi (1937-2008).

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A compilação dos dados foi feita pelo advogado Tullo Cavallazzi Filho. O filho do maestro e membro fundador se baseou em documentos, fotografias, vídeos e reportagens, além do livro de autoria do pai – A verdadeira história da Philarmônica Destherrense (Plus Saber Editora) onde o autor conta a trajetória da instituição, que surgiu em 1959, como um ato de rebeldia à força policial.

— As gerações estão mudando e nossa família considerou importante ter esse registro histórico. Para isso, contratamos uma bibliotecária como forma de tornar o trabalho profissional. A orquestra é considerada como a única manifestação carnavalesca genuinamente brasileira, de acordo com a Academia Brasileira de Belas Artes do Rio de Janeiro, já que o entrudo e outras manifestações são ligadas à cultura trazida de fora do país.

Vestido de pele foi cortado para confecção de bigodes postiços

Tudo começou com a proibição da polícia em impedir que o bloco As Desapercebidas do Amor, com marmanjos vestidos de mulher, desfilasse. Ao que seria considerado um ato de subversão à ordem pública, Tullo e amigos responderam com criatividade: formaram uma orquestra, vestida a rigor, com fraques, gravata borboleta e bigode à moda Charles Chaplin.

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Foi preciso desprendimento no primeiro desfile: uma tia cortou o vestido de pele para confeccionar bigodes postiços, enquanto a bateria musical do “tio Barreto” foi desmontada para improvisar novos instrumentos.

— Desde então, ficou estabelecido que o fraque seria a roupa padrão. Outra coisa engraçada é que, como faltou instrumento, o pai sugeriu um fotógrafo lambe-lambe para que um amigo não fosse deixado de lado. O curioso é que esqueceram do básico: ninguém sabia tocar nada, o que acabou por virar a marca da Orchestra Philarmônica Destherrense — recorda.

Entidade funcionou como elemento agregador entre as famílias

A organização nunca foi o forte da orquestra, que carregou para ruas, clubes, praças e passarela uma mistura de bloco, banda, teatro carnavalesco, escola de samba. O destaque era o improviso. Cada músico tocava por si e para si. Ainda é possível lembrar: enquanto uns entoavam Cidade Maravilhosa, outros experimentavam Amigo, de Roberto Carlos.

A residência da família Cavallazzi, no Centro de Florianópolis, foi sede permanente da Destherrense. Mas era forte o sentimento coletivo.

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Para Tullo, a orquestra era um elemento agregador: as mulheres confeccionavam os bigodes, enquanto as crianças ajudavam os pais a carregarem os instrumentos. Um grupo de homens se responsabilizava pelo churrasco, enquanto a vizinhança cuidava dos horários – nunca cumpridos – de saída da concentração.

Num tempo sem rede social, a imprensa dava ampla cobertura, seguindo os músicos pelos becos e esquinas do Centro histórico.

“Os músicos da Philarmônica procuram preencher os espaços vazios da cidade, aqueles locais onde não há palcos armados para a folia”, publicava em 19 de janeiro de 1997, o jornal Diário Catarinense.

Bagunças à parte, a banda – como carinhosamente era chamada – tinha regulamento sobre conselheiros, assembleia, sócios, categoria musical. O radialista Roberto Alves, o Bob Alves, orgulha-se até hoje de ter permanecido como “Músico Ameaçante”: aquele indivíduo que vendo a Philarmônica passar exclamava: ‘ainda vou sair nessa banda”!

— Não tive coragem. Fiquei só na ameaça, como dizia o maestro Tullo — brinca.

A última vez que a orquestra saiu foi em 2008. Na época, as mudanças no Carnaval do Centro da cidade já dificultaram a performance devido à multidão e gêneros musicais muito diversos. Como o grupo musical precisava de espaço para se movimentar, foi necessário fugir um pouquinho da Praça 15 por causa da concentração excessiva de foliões.

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O maestro Tullo Cavallazzi, que morreu em 2008 em consequência de um AVC, foi homenageado pelo Berbigão do Boca, entidade que eterniza figuras marcantes do Carnaval de Florianópolis, com um dos bonecos.

Teria sido o último ato da Orchestra Philarmônica Destherrense?

Mesmo com mais de 15 anos da ausência da Orchestra Philarmônica Destherrense, os laços de pertencimento persistem. Uma pergunta é feita com frequência aos Cavallazzi: a Philarmônica não voltará para o Carnaval de Florianópolis?

— A gente conversa muito sobre isso. Nosso sentimento é que o maestro Tullo era o centro dessa história. Talvez a gente não soubesse lidar muito com críticas que poderiam vir, como a performance dos desfiles, a composição do quadro (apenas homens) ou um certo saudosismo de que no passado era melhor — explica.

Ao mesmo tempo, observa o advogado, seria possível retomar a Orchestra Philarmônica já que existe uma geração de homens que nos anos 70 e 80 eram meninos que conviveram com os malabarismos, as evoluções malucas, a execução totalmente fora do tom. Mas seguindo o pensamento unânime da família, a graça estava no maestro, e esse não existe mais.

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— Entendemos que a Orchestra Philarmônica Destherrense entrou para a posteridade.

Veja fotos com os registros da Orchestra

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