Nesses dias quentes, quando onda de calor escalda Santa Catarina com termômetros beirando os
40 °C, pensar numa temperatura de -20 °C refresca qualquer conversa. Foi esse clima hostil que, no começo do mês, acolheu o executivo Bruno Watté na montanha mais alta das Américas e da Cordilheira dos Andes, o Monte Aconcágua.

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Mas o que leva um doutor em conhecimento, com experiência em planejamento estratégico, liderança de pessoas e times, gestão comercial, de marketing e gestão de inovação se aventurar num lugar onde poucos conseguem chegar e que exige preparo e intensa superação física e emocional?

– Não sei explicar muito bem, embora desde criança eu goste de praticar caminhadas, andar por trilhas, acampar em barracas. No fim do doutorado, dois anos atrás, me perguntei: “Qual meu próximo desafio?”. Na ocasião, lembrei da conversa com um colega sobre o Aconcágua e achei que seria uma experiência de autoconhecimento – responde.

A preparação exigiu fôlego. Nos últimos quatro meses, Watté procurou melhorar a condição cardiovascular e muscular. Para isso, fez 120 quilômetros de pedaladas semanais pela região da Ilha de Santa Catarina, além de escaladas, como no Morro do Cambirela, em Palhoça, na Grande Florianópolis, onde experimentou num caminho em declive a partir do nível do mar:

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– O desafio foi compatível. Andamos, em média, um Cambirela por dia, que tem cerca de mil metros de altura, e seis Cambirela ao todo para atingir o cume do Aconcágua, com seus quase 7 mil metros – compara.

A expedição se iniciou por Mendoza, em meados de janeiro, e atingiu o ponto alto em 1º de fevereiro. A altitude exige do corpo e por isso a aclimatação é feita aos poucos. O ar rarefeito pode ocasionar sintomas desagradáveis, como dor de cabeça, diarreia, perda da consciência.

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Para Watté, uma atividade com tantos desafios exige um coletivo, um conjunto de pessoas onde cada um tenha o papel definido. A realidade se impõe, explica, e deixa de ser “eu chegar, mas juntos chegarmos”. O executivo escolheu a empresa Soul Outdoor, dos montanhistas Pedro Hauck e Maria Tereza Ulbrihc, com sede em Curitiba (PR). Eram 14 pessoas ao todo, sendo cinco guias, três brasileiros e dois locais.

– É pouco provável que se consiga fazer um roteiro desses sozinho, pois é uma situação extrema, e se não for bem planejada pode fracassar com um custo muito grande – conta.

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Nos dias em que o grupo de Watté esteve na montanha, três pessoas morreram.

Veja fotos do desafio

Quando o sol não se esconde, mas se apaga na rotação da Terra

Um dos lugares interessantes, conta Bruno, é o chamado Plaza de Mulas, caminho mais procurado e onde o tráfego de cargas, como alimentos e mochilas, é feito no lombo das mulas.

– Lembra um aeroporto, pois todo o material é despachado e etiquetado. No destino, um acampamento adiante, cada pessoa retira o que lhe pertence. A partir dali cada pessoa é responsável pelo seu material. Em média, cada montanhista carrega 20 quilos. Não existe água, exceto do gelo. Banho um por semana, e isso impacta se levado em conta o modo confortável como vivemos atualmente.

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Watté, que é diretor-geral da Nexpon, gestora de investimentos em novos negócios da NSC, diz que ficou deslumbrado com a paisagem:

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– Sou capricorniano e como brinca minha esposa, um cabritinho que adora montanhas. Fiquei deslumbrado com a paisagem, como o Nido de Condores (5,5 mil metros) onde apreciei um pôr de sol que jamais vi. No lugar, o sol não se esconde atrás de nenhuma outra montanha, ele simplesmente se apaga na rotação da Terra. Uma beleza impressionante que nos coloca numa conexão muito forte com Deus. Imagine que num desses dias estava nevando no acampamento, que é na montanha mais alta, e o sol abaixo se pondo. O cenário era esse: neve e o sol vermelho, numa combinação indescritível.

Veja mais fotos do desafio

No dia do ataque (acesso ao cume), recorda Watté, parecia que estavam como num avião: acima das nuvens. Mesmo assim, para ele caminhar ter sido mais importante do que chegar ao destino:

– A gente começou essa jornada no dia 18 de janeiro sem ter ideia se iria conseguir atingir o cume. Tudo o que vi e vivi ao longo da jornada é de uma riqueza construída no dia a dia da caminhada. Acredito que a escalada tenha sido mais importante – comenta.

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Mudanças climáticas: estações de esqui fechadas por falta de neve

Sem papel, caneta ou internet, Watté gravou áudios para o próprio diário de bordo. São mensagens com reflexões, meditações e as vivências de cada dia. Um dos aprendizados dessas duas semanas se refere às mudanças climáticas. O executivo lembra que numa das etapas preparatórias esteve na Bolívia, país onde encontrou estações de esqui fechadas na Montanha Chacaltaya, na capital La Paz. A cena se repetiu na expedição ao Aconcágua.

– Nós praticamente não tivemos neve. A gente conversa com as pessoas e elas dizem que com a temperatura do planeta aumentando, não tem mais neve. A intensidade da transformação é impressionante. A gente enxerga essas ondas de calor, como aqui em Florianópolis e pensa nas estações de esqui fechadas por falta de neve. Precisamos refletir sobre os glaciares milenares que estão diminuindo. É muito sério.

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O Parque Provincial do Aconcágua localiza-se na cordilheira dos Andes, próximo à fronteira entre Chile e Argentina, província de Mendoza, o chamado coração vinícola do país vizinho. Em quéchua, linguagem indígena de antes da formação do Império Inca e ainda falada em alguns dialetos, Aconcágua significa Sentinela da Pedra.

A montanha mais alta das Américas e da Cordilheira dos Andes, com 6.961 metros de altitude, é um local que desperta o interesse dos visitantes mais aventureiros. O acesso é feito pelo parque de mesmo nome, cerca de 180 km a oeste da cidade de Mendoza. Desde 1983, os 71 mil hectares são considerados Área Natural Protegida da província de Mendoza. Inclui importante setor dos Andes Centrais, e têm como ponto culminante o Monte Aconcágua, com 6.962 metros de altitude acima do nível do mar.

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Conforme guias internacionais que já escalaram a cadeia do Himalaia, na Ásia, os quase 7 mil metros do Aconcágua equivalem, em esforço físico e psicológico, a 8 mil. A hipótese deve-se ao fato de que as condições climáticas nos Andes Centrais são muito mais severas do que no Himalaia. A vegetação serve de exemplo: a que chega a 5 mil metros no Himalaia, dificilmente alcança os 3,5 mil metros no Aconcágua.

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A umidade relativa do ar também é muito escassa e a quantidade de oxigênio diminui com o aumento da altitude. Os ventos produzem zonas de baixa pressão que intensificam os efeitos. Para o passeio, é necessário retirar uma permissão de escalada, pessoalmente, no escritório em Mendoza, assim como pagar a taxa, proporcional ao tempo de permanência.

A cada ano (temporada de novembro a março) cerca de 3 mil pessoas buscam permissão para visitar o Aconcágua. A estimativa é de que só 20 %, em torno de 600, alcancem o cume. No interior do parque existe acampamento-base e serviço médico gratuito para avaliar os escaladores.

Veja fotos do trecho final do desafio

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