Quatro municípios de Santa Catarina decretaram situação de emergência por conta da estiagem em janeiro: Herval d’Oeste, Monte Carlo, Celso Ramos e Vargem. O fenômeno, apesar de ainda ser classificado como fraco pela Defesa Civil, já vem causando perdas na produção agrícola e gerando um alerta de prevenção para os próximos meses. Isto porque, com a possível influência do La Niña e diminuição no volume de chuva, a seca pode se intensificar.

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Atualmente, a estiagem está concentrada nas regiões do Meio-Oeste e da Serra catarinense. De acordo com a classificação da Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), seca fraca indica áreas com condições de umidade “anormalmente baixa” que podem, possivelmente, evoluir para locais com secas moderadas.

Conforme a Defesa Civil, os municípios decretaram situação de emergência nível 1, ou seja, quando ainda conseguem administrar a situação localmente. Caso a condição se agrave, as prefeituras podem avançar para nível 2, que demanda apoio estadual e federal.

Em Herval d’Oeste, o decreto de emergência prevê a flexibilização de medidas para apoio aos produtores rurais, como abertura de valas, escavação de poços e limpeza de açudes. Segundo o município, ocorreram chuvas pontuais na cidade nos últimos dias. O fenômeno, porém, não foi suficiente para amenizar a situação.

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De acordo com Guilherme Xavier de Miranda Junior, pesquisador em Hidrologia da Epagri/Ciram, a estiagem no Estado ocorre em função das chuvas em volumes irregulares e mal distribuídos, típicos da estação de verão.

— No momento, a região do Meio-Oeste está com mais de 50% de capacidade de armazenamento de água no solo. Então não podemos dizer que a situação é grave. É uma questão de atenção para que esse fenômeno não se agrave ainda mais — explica.

Perdas na agricultura

Em Vargem, na Serra de SC, choveu apenas 64 mm em janeiro, cerca de um terço do esperado para a região no período, que é de 180 mm, conforme a Epagri. A prefeitura estima uma queda de cerca de 50% na produção de milho. Em algumas lavouras, onde a estimativa era de 180 sacas por hectare, a colheita deve ser de apenas 70 sacas. Já a produção de soja deve registrar uma redução de aproximadamente 20%.

Conforme a Epagri, a soja pode ser a cultura mais afetada em todo o Estado devido a estiagem.

— A soja está em fase de floração, uma fase bastante crítica. Se houver uma restrição hídrica, as plantas podem abortar. Isso quer dizer que a plantação não vai ter uma produtividade como a esperada — diz o especialista Guilherme Xavier.

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O NSC Total entrou em contato com as prefeituras de Celso Ramos e Monte Carlo para verificar a situação da estiagem nos municípios, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Veja fotos da situação em Herval d’Oeste e Vargem

Menos perdas do que em 2021

A seca pode se intensificar nos próximos meses. Em março, a previsão é de chuvas abaixo da média no Oeste do Estado, conforme a Epagri. Com a chegada das estações de outono e inverno, no próximo trimestre, o tempo deve ser ainda mais seco.

Além disso, Santa Catarina pode ser afetada pelo La Niña. O fenômeno pode causar estiagem, principalmente na região Oeste, até maio de 2025.

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— Até o momento, o La Niña é de baixa intensidade. Ele é um dos motivos da estiagem, mas tem uma pequena influência, diferentemente do que a gente vivenciou lá em 2021 — diz o especialista Guilherme Xavier, recordando a seca que causou R$ 3,7 bilhões de prejuízos à agricultura catarinense.

Na última quarta-feira (4), a Defesa Civil e o Grupo de Ações Coordenadas (GRAC) do Estado se reuniu para traçar estratégias preventivas em resposta à estiagem. As medidas incluem a implementação de planos de contingência, monitoramento contínuo das condições climáticas e reforço no abastecimento de água.

— A estiagem é um evento gradual, e seus danos são cumulativos. Não podemos esperar que a situação piore ainda mais, por isso, estamos preparando a resposta com bastante antecedência — garantiu o gerente de operações da Proteção e Defesa Civil, Aldrin de Souza, que coordenou a reunião.

O alerta ganha força diante da grave situação da estiagem no Rio Grande do Sul, onde 47 municípios decretaram situação de emergência até a última segunda-feira (3). Os níveis de alguns rios nas regiões de Missões, Centro e Fronteira Oeste estão em nível crítico, enquanto algumas localidades já registram desabastecimento de água potável. Agricultores gaúchos perderam cerca de 40% na lavoura de soja, segundo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS).

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Chuva no Leste, seca no Oeste

A falta de chuvas na região contrasta com a alta precipitação observada no Litoral de Santa Catarina em janeiro. Em Florianópolis, por exemplo, choveu 547 mm ao longo do mês, mais do que o dobro do esperado para a região, que é de no máximo 230 mm no período, segundo a Epagri.

Entre 16 e 17 de janeiro, o Litoral também enfrentou uma chuva histórica, que causou alagamentos em cidades como Florianópolis e Balneário Camboriú. Mais de 880 pessoas ficaram fora de casa, entre desabrigados e desalojados

No restante do Estado, porém, houve pouca chuva. Na Serra e no Meio-Oeste, parte dos muncípios registrou menos de 100 mm de chuva em janeiro, conforme dados da Epagri. A cidade mais afetada foi Zortéa, na divisa com o Rio Grande do Sul, que teve apenas 18 mm ao longo de todo o mês. Depois, vêm Ouro (42 mm) e Campo Belo do Sul (59 mm).

— Os volumes de chuvas vem sendo bastante irregulares, não homogêneos na distribuição espacial. Então às vezes chove em um município, e no outro não chove. Essa irregularidade é típica da estação de verão, quando ocorrem chuvas mais pontuais e mal distribuídas — explica Guilherme Xavier, da Epagri/Ciram.

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