Milhões de birmaneses compareceram em peso às urnas neste domingo para eleições legislativas históricas, que podem levar a líder opositora e vencedora do Nobel da Paz Aung San Suu Kyi ao poder.
Continua depois da publicidade
A comissão eleitoral anunciou uma taxa de participação de quase 80%. A divulgação dos resultados pode levar alguns dias em consequência da apuração nas regiões remotas do país.
Os birmaneses não esconderam a emoção, já que estas eleições são apresentadas por muitos como as primeiras democráticas em 25 anos.
A atenção da imprensa está voltada para Suu Kyi, que passou mais de 15 anos em prisão domiciliar e, aos 70 anos, votou pela segunda vez no país.
Suu Kyi, vestida de vermelho, a cor de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), votou durante a manhã em uma escola do centro de Yangun, cercada por centenas de jornalistas.
Continua depois da publicidade
Aclamada por seus partidários aos gritos de “vitória”, Aung San Suu Kyi não fez declarações à imprensa depois de votar na circunscrição de Kawhmu. Ela espera a reeleição como deputada, depois de obter o cargo nas legislativas parciais de 2012, que registraram uma grande vitória da LND.
Longe da atenção da imprensa que cerca Suu Kyi, o presidente Thein Sein votou em Naypyidaw, a capital administrativa do país. Seu partido, o USDP, integrado por ex-generais, é o principal adversário da LND.
A tensão, misturada ao entusiasmo e preocupação, aumenta com a posição de grande favorita da LND, que pode ganhar o direito de governar o país após décadas de repressão.
Durante as últimas eleições consideradas livres, em 1990, a junta militar permitiu a participação da LND, que obteve uma vitória esmagadora. Mas os resultados não foram reconhecidos e Aung San Suu Kyi, então em prisão domiciliar, não teve o direito de votar. Em 2010, seu partido convocou um boicote às eleições.
Continua depois da publicidade
A votação deste domingo é considerada um teste para o sucesso da transição democrática iniciada há quatro anos com a ‘auto dissolução’ da junta militar, que governou o país com mão de ferro desde 1962.
Muitos dos 30 milhões de birmaneses registrados pela comissão eleitoral nunca haviam votado.
Muitos eleitores manifestaram seu amor pela “mãe Suu”, como é chamada a vencedora do Nobel da Paz. Em muitas casas, a foto da líder opositora está nas paredes ao lado da foto de seu pai, o general Aung San, um herói da independência desta ex-colônia britânica assassinado em 1947.
A ausência de pesquisas, no entanto, dificulta a possibilidade de determinar seu verdadeiro nível de popularidade no país.
Suu Kyi,’acima do presidente’
Apesar de ser considerada a primeira eleição democrática em 25 anos no país, as dúvidas persistem entre os birmaneses.
Continua depois da publicidade
Em um comunicado, a LND denunciou irregularidades em localidades do delta de Irrawaddy, com uma possível compra de votos.
Além disso, as eleições foram marcadas por vários problemas: a votação antecipada no exterior foi caótica, os observadores estrangeiros não foram autorizados a entrar nos quartéis para acompanhar a votação de centenas de milhares de soldados, centenas de milhares de muçulmanos rohingyas não têm direito a voto, a eleição foi anulada nas regiões afetadas por conflitos étnicos na região norte do país e a polícia prendeu vários líderes estudantis.
Mais de 90 partidos disputam espaço no Parlamento. E uma das grandes incógnitas continua sendo a eleição de presidente, que a Assembleia Nacional deve escolher em alguns meses.
Aung San Suu Kyi, que a Constituição herdada da junta impede de assumir o cargo de presidente, anunciou durante a semana que estará “acima do presidente” em caso de vitória de seu partido.
Continua depois da publicidade
A Constituição impede que uma pessoa que tenha filhos de nacionalidade estrangeira assuma a presidência. Ela tem dois filhos britânicos.
Além disso, a tarefa de formar um eventual governo pode ser complicada para a LND, já que o exército conserva 25% das cadeiras do Parlamento para militares não escolhidos nas urnas e tradicionais aliados do USDP.
Outra grande incerteza é a reação do governo aos resultados.
O exército e o presidente, um ex-militar, prometeram respeitar os resultados das urnas, ao mesmo tempo que a televisão estatal exibiu vídeos com advertências contra qualquer tentativa de revolução inspirada na “primavera árabe”.
hla-dth/fp