Santa Catarina dará mais um passo para ter o primeiro santo nascido em seu território, na próxima quarta-feira (20), quando Marcelo Henrique Câmara ganhará um memorial na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Praia dos Ingleses, Norte da Ilha, onde morava com a família. Nascido em Florianópolis em 1979, Marcelo Câmara foi um jovem leigo, estudante de Direito, professor e membro do Ministério Público que morreu numa quinta-feira santa, em 20 de março de 2008, já com fama de santidade entre os que convivam com ele.

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Marcelo já é considerado Servo de Deus, o primeiro passo para o processo de canonização dentro das tradições da Igreja Católica. A inauguração do Memorial Marcelo Henrique Câmara marca os 16 anos do falecimento. A sala, um anexo da igreja, abriga objetos levados do próprio quarto: cama, estante, livros. Além disso, os restos mortais foram transferidos do cemitério São Francisco, no Itacorubi, para os Ingleses. O objetivo foi possibilitar maior circulação de pessoas, conforme ocorre com outros postulantes em processos de canonização.

No entorno do túmulo existem placas por graças alcançadas, como emprego, aprovação em concurso público, cura de doenças, pagamento de dívidas, conversão religiosa. Mas para a Santa Sé existe diferença entre graça e milagre. O Vaticano possui quatro exigências quanto à veracidade de uma graça, até ser considerada milagre: ser preternatural (a ciência não consegue explicar), instantâneo (acontecer imediatamente após a oração), duradouro e perfeito.

Em 6 de abril será realizada a solenidade de conclusão da fase Arquidiocesana da Causa de Beatificação. Na sequência, o processo será encaminhado para o Vaticano onde seguirá na fase romana.

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Espaço para oração e peregrinação de fiéis

Conforme o padre Vitor Feller, postulador da fase arquidiocesana, o objetivo é tornar o memorial um local de oração e peregrinação para que os fiéis busquem a intercessão do servo em suas vidas, seja por necessidades materiais ou espirituais. A obra é realizada com a ajuda dos devotos.

— Estamos muito ansiosos, pois este é um momento importante para a causa que depois terá o processo enviado para o Vaticano para o início da fase romana — explica Marizete Polli, presidente da Associação Marcelo Henrique Câmara (MHC), a qual é também dirigida pelos pais de Marcelo, Leatrice e Júlio Carlos.

Os dois eventos acontecem no Santuário Sagrado Coração de Jesus, na praia de Ingleses, em Florianópolis, onde repousa Marcelinho, como popularmente é chamado, e que costumava saudar as pessoas com um “Paz e Bem”. Paz e alegria eram sentimentos que emanava. 

Veja fotos de Marcelo

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Um apóstolo contemporâneo: professor e promotor de justiça

Relatos acerca da vida de Marcelo Câmara dão conta que em 28 anos de existência ele deu testemunho exemplar de vida cristã. Após a conversão num retiro promovido pelo Movimento de Emaús, buscou santificar-se na vida ordinária, em meio às realidades temporais, celebrando as alegrias e carregando as cruzes da sua existência, “tornando-se um verdadeiro apóstolo em meio aos grupos de jovens”.

Participava ativamente da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro dos Ingleses, onde era catequista de adultos e ministro extraordinário da Sagrada Comunhão. Dedicou-se aos estudos e pesquisas no curso de Direito. Foi professor titular no IES e professor substituto na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Mesmo doente com leucemia, entregou-se aos estudos para se tornar promotor de justiça, cargo que exerceu por um ano com muitos desafios. Foram quatro anos em que se identificou com o sofrimento de Jesus Cristo no oferecimento da enfermidade.

— No começo deste terceiro milênio, em meio aos desafios de um mundo altamente secularizado, Marcelo nos confirma que a santidade é possível, e um chamado para todos os estados de vida. É possível ser jovem, e ser santo — sugere o padre Vitor Feller, postulador da causa.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o Servo de Deus Marcelo, pode acessar a biografia “No Caminho da Santidade: a vida de Marcelo Câmara, um Promotor de Justiça”, pelo site  www.marcelocamara.org.br. A versão impressa está disponível nas livrarias da Catedral Metropolitana, em Florianópolis.

Um longo caminho a ser percorrido

Dom Wilson Tadeu, arcebispo de Florianópolis, recebeu o pedido sobre Marcelo Câmara em 2018. Em 2019 foi feita a consulta à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Regional Sul 4 sobre a relevância da causa para a Igreja. O edital da causa na Arquidiocese foi publicado e recebido o Nihil obstat (nada obsta) da Santa Sé.

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Em 8 de março de 2020, realizada a Convocação da Primeira Sessão do Tribunal Eclesiástico com a abertura do processo de beatificação do Servo de Deus. Entre 2020 e 2023 ocorreu a instrução do inquérito diocesano pelo Tribunal Eclesiástico, que inclui a oitiva de testemunhas e a coleta da prova documental.

Mas o caminho é longo. Feita a Sessão Solene de Encerramento da etapa arquidiocesana, em 6 de abril, o processo será enviado para o início da chamada Fase Romana. Nesta fase, os especialistas no Dicastério para as Causas dos Santos examinam os documentos, o Vaticano reconhece as virtudes heroicas do Servo, que recebe o título de Venerável, a intercessão por um milagre é comprovada, o parecer é encaminhado ao Papa que beatifica o Venerável, o qual recebe o título de Beato.

Em seguida, a intercessão por um segundo milagre é comprovada e, então, o Papa canoniza o Beato, que recebe o título de Santo da Igreja Católica.

Passos para a santidade

Servo de Deus

O bispo diocesano e o postulador da Causa pedem para iniciar o Processo de Canonização e apresentam à Santa Sé um relatório sobre a vida e as virtudes da pessoa. A Congregação para as Causas dos Santos examina o relatório e emite um decreto declarando que não há nada a impedir (decreto Nihil obstat). A resposta da Santa Sé é levada às autoridades diocesanas através do Nihil obstat. O bispo promulga o decreto de introdução da Causa do chamado Servo de Deus.

Venerável

Um tribunal, nomeado pelo bispo, recebe os testemunhos das pessoas que conheceram o Servo de Deus. O relator da Causa, nomeado pela Congregação para as Causas dos Santos, prepara o documento chamado Positio. Se a Congregação para as Causas dos Santos aprovar o relatório, o Papa emite o decreto de heroicidade das virtudes. A partir de então, o Servo de Deus passa a ser considerado Venerável.

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Beato

A primeira etapa é mostrar o Venerável para a comunidade como um modelo de vida e intercessor diante de Deus. Na sequência, a Congregação para as Causas dos Santos examina o milagre apresentado. Em seguida, com os antecedentes anteriores, o Santo Padre aprova o decreto de beatificação. Cabe ao Papa determinar a data da cerimônia litúrgica da beatificação.

Santo

A primeira etapa consiste na aprovação de um segundo milagre. Em seguida, a Congregação para as Causas dos Santos examina o ocorrido. É necessário que este segundo evento tenha acontecido posterior à beatificação. Na sequência, o Papa aprova o decreto de canonização. Outra fase é quando o Consistório Ordinário Público, convocado pelo Santo Padre, informa a todos os cardeais da Igreja e depois determina a data da canonização. Por fim: a cerimônia de canonização.

Lista de postulantes catarinenses tem mais cinco candidatos

Nos últimos anos, a Igreja Católica tem sido mais ágil nos processos de santificação. O pontificado de Francisco trouxe maior proximidade com o conceito de santidade. De acordo com trechos da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai), santidade não é coisa para super-homem ou super-heroína, mas resultado de um processo a partir das vivências no cotidiano. No documento, lançado em 2018, ele descreve que todas as pessoas podem experimentar a santidade.

Na lista de postulantes catarinenses, estão mais cinco nomes. O processo mais antigo de canonização é o de Albertina Berkenbrock, beatificada pelo Vaticano em outubro de 2007. A beatificação é o último passo antes da canonização, ou seja, o momento em que a Igreja reconhece e declara uma pessoa como santa.

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O caso mais recente tem a ver com os mares catarinenses. Em 17 dezembro de 2022, o Vaticano reconheceu um milagre do bispo Jacinto Vera, o qual viveu e desempenhou a vida religiosa no Uruguai, mas batizado na então paróquia Nossa Senhora do Desterro, em Florianópolis. Jacinto Vera foi o primeiro bispo da diocese de Montevidéu, a capital uruguaia.

Já o pedido para beatificação de Padre Léo foi aberto em março de 2020. O processo foi marcado por uma missa presidida pelo arcebispo da arquidiocese de Florianópolis, dom Wilson Tadeu, na comunidade Bethânia, em São João Batista, e na presença de 5 mil fiéis.

No Meio-Oeste do Estado, a expectativa é sobre o processo do franciscano frei Bruno. Os fiéis dizem que ele foi um seguidor do exemplo de São Francisco na doação, no amor e no serviço ao próximo. O frei nascido no ano de 1876 em Duesseldorf, na Alemanha, morreu em Joaçaba, em 1960, e já era considerado pelos seguidores um santo em vida. Frei Clarêncio Neotti, que trabalha na redação do chamado Positio, é o responsável pelo resumo que deve ser apresentado, após o reconhecimento de Roma, aos cardeais para que eles possam conhecer melhor a vida de frei Bruno.

Em Jaraguá do Sul, a expectativa é pela canonização do padre Aloísio Sebastião Boeing. O processo foi aberto em 2013 na diocese de Joinville e já reconhecido como Venerável. Boeing religioso trabalhou por mais de 40 anos em Jaraguá do Sul. O corpo dele está sepultado no pátio da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, no bairro Nereu Ramos, e recebe visitação que aumenta com o passar dos anos. 

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