Você já ouviu falar em livros congelados? Apesar de parecer estranho, essa é uma técnica utilizada para ajudar a preservar documentos e acervos que foram atingidos pelas águas de enchentes no Rio Grande do Sul. Além da perda de vidas e do imenso prejuízo material, as enchentes no estado vizinho também afetaram a área de documentação e, numa tentativa de recuperar esses acervos, se formaram redes de apoio e ações institucionais.
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Uma dessas ações é liderada pelo Laboratório de Conservação e Restauração de Documentos (Labcon) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que colocou em prática um projeto de extensão voltado ao Museu de Igrejinha e à Biblioteca Pública de Camaquã, duas cidades severamente atingidas pelas águas que devastaram o estado gaúcho em abril e maio deste ano.
Sob orientação do Labcon, as duas instituições congelaram a documentação em freezers. O congelamento impede o crescimento de fungos, permitindo que os documentos sejam posteriormente tratados de forma mais segura.
Na próxima quarta-feira (25), um caminhão frigorífico deve estacionar no pátio da UFSC trazendo a carga congelada das duas cidades gaúchas para, em Florianópolis, receber o tratamento técnico que inclui descongelamento, secagem, higienização, restauração, acondicionamento e devolução de documentos considerados históricos.
Documentos molhados na enchente foram congelados
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Partituras musicais do século 19 estão entre os documentos
— Chegamos a uma fase importante do processo, que é o recebimento do material. Sob nossa orientação, ainda impactados pelas enchentes, eles congelaram os documentos e agora precisam de nosso apoio. Não sabemos ao certo como está o acervo, mas é um trabalho interessante do ponto de vista social, cultural e da solidariedade — explica o professor Cezar Karpinski, coordenador do Labcon, laboratório do Departamento de Ciência da Informação.
Do Museu de Igrejinha, serão recuperadas 150 encadernações com partituras do século 19. Estima-se que cada volume tenha 100 páginas. Da Biblioteca Pública de Camaquã chegam livros históricos da cidade escritos nas décadas de 1960 e 1970. São obras referências, todas encadernadas e que precisarão ser novamente encadernadas.
Trabalho já foi feito na grande enchente de Florença
O acordo com o Labcon foi articulado pelo Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, que trabalhou junto às instituições de custódia, instruindo no resgate dos acervos e orientando na continuidade dos projetos para sua recuperação.
montagem da rede de apoio para salvaguardar o patrimônio documental do Rio Grande do Sul exigiu vídeo conferências com orientações da equipe do Labcon e dos especialistas sobre como as duas instituições deveriam fazer o processo de congelamento, uma técnica utilizada na grande enchente de Florença, na Itália, em 1966.
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As comunidades de Igrejinha e de Camaquã se mobilizaram e conseguiram vencer uma dificuldade comum naquele momento no interior gaúcho: encontrar freezers — além da falta de energia nos municípios — ou mesmo contêiner refrigerado. Outras adversidades se impuseram, como a falta de material adequado.
— Foi necessário improvisar, pois o método exige envelopamento a vácuo: como não existia envelopes adequados (espécie de cápsulas), foram usados sacos de lixo preto, sendo necessário retirar todo o ar existente. Além disso, não se poderia colocar num mesmo invólucro um documento que pudesse comprometer o outro — explica o professor Karpinski.
Trabalho cuidadoso pode levar até dois anos
O trabalho a ser desenvolvido no Labcon será minucioso. Atuarão profissionais, bolsistas e voluntários. Depois do descongelamento, seguem-se a secagem e a higienização mecânica. Grande parte dos documentos vai ter que passar por um banho para retirar a sujeira deixada pela água, o que exige nova secagem e procedimentos de restauração.
— Normalmente, esse tipo de trabalho é feito por empresas privadas, as quais têm um bom número de funcionários e mais tempo disponível. Nós precisamos considerar as atividades acadêmicas da UFSC, além de lidar com a questão de recursos que são todos da própria universidade e abrir uma chamada para ampliar o número de voluntários. Hoje, a gente acredita em dois anos para devolução total do acervo — calcula o coordenador do Labcon.
UFSC capacitou profissionais sobre recuperação do acervo
A UFSC foi a primeira universidade a ofertar, uma semana após o começo das inundações em Porto Alegre, uma capacitação online durante três dias consecutivos com profissionais renomados e experientes que haviam acompanhado resgates de acervos em enchentes. A iniciativa, que teve um número significativo de participantes, foi fundamental no sentido de orientar sobre como o sistema gaúcho deveria proceder.
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Em setembro do ano passado, quando uma enchente atingiu o Vale do Taquari, grande parte do acervo do Museu de Muçum foi perdido porque as primeiras pessoas a tentar resgatar o acervo eram leigos e não sabiam sobre a técnica do congelamento. Muita coisa foi jogada no lixo. Por isso, o trabalho do Labcon é reconhecido e elogiado pela coordenadora do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, por Doris Couto.
— Até então, a gente não tinha no âmbito dos museus e dos arquivos adotado a técnica do congelamento de papel. O que foi direcionado aos municípios de Igrejinha e de Camaquã foi por orientação do Labcon, com o alerta de que se é possível lavar o papel — explica Doris Couto.
Além da UFSC, foi formada parceria com 25 universidades cadastradas e dispostas a ajudar de algum modo. De acordo com Doris Couto, instituições mais próximas, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Federal de Pelotas, colocaram o corpo técnico à disposição para trabalhar no resgate dos acervos que conservam a identidade e a memória coletiva.
Veja como os documentos são restaurados
Necessidade de políticas públicas preventivas
Rita Cunha é conservadora-restauradora de bens culturais. Mestranda em Ciências da Informação (PGCIN/UFSC), a pesquisadora do LABCON/UFSC destaca a importância dos acervos para guardar a memória daqueles que nos antecederam e, por sua vez, da história da sociedade.
— O acervo em questão, um patrimônio documental em suporte de papel, oriundo de Igrejinha e de Camaquã, faz parte da memória coletiva das pequenas cidades, mas, também, da memória coletiva do Rio Grande do Sul e do Brasil. São documentos que registram os acontecimentos de vidas passadas e que nos permitem conhecer e integrar o ontem ao contexto do tempo presente para melhor organizar nosso futuro — observa.
Para a pesquisadora, o caso desse acervo e de tantos outros que se perderam com as enchentes no Rio Grande do Sul reforça as necessidades de políticas públicas focadas em medidas preventivas que protejam os acervos documentais que estejam sob a salvaguarda dos arquivos e demais unidades de informação onde se encontrem custodiados. —
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