Quem leu pelo menos um livro sobre a Guerra do Contestado (1912-1916) deparou-se com o nome de Adeodato Manoel Ramos, o líder dos insurgentes descrito como “facínora”, “sanguinário chefe dos fanáticos” e “flagelo de Deus”. Mais de cem anos depois de ser abatido com tiros pelas costas, numa suposta tentativa de fuga da Cadeia Pública de Florianópolis, um dos personagens principais da mais sangrenta revolta do século 20 no Brasil ganha outra face: Adeodato Manoel Ramos: Tropeiro e trovador, um comandante negro na Guerra do Contestado.
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O livro escrito por Ana Lice Brancher (Editora Cruz e Sousa) será lançado dia 1º de outubro, às 18h, no Hall do Museu da Escola Catarinense, na Rua Saldanha Marinho, 196, no Centro de Florianópolis.
— Eu falo da questão da terra e do messianismo, mas considero que a novidade está nos cinco poemas de Adeodato, num cenário de pós-abolição em Santa Catarina. Apresentamos Adeodato como o negro que ele era inserido, num movimento de resistência e de luta para manter a cultura e as conquistas dos direitos que lhes eram devidos. É Adeodato no cenário afro-catarinense do pós- abolição, tropeiro e trovador — conta Ana Lice.
Cem anos depois do acordo de paz, região do Contestado ainda vive reflexos da Guerra
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Ensaio propõe nova versão do comandante
Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Literatura também pela UFSC e doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Lice foi professora por 30 anos no Colégio Aplicação da UFSC. Aposentada, ela aproveita o conhecimento e se empenha na interlocução dos temas história e literatura.
Leitora atenta da Guerra do Contestado, foi a partir de um livro do professor Paulo Pinheiro Machado, um dos maiores especialistas em pesquisas sobre colonização, terras, fronteira agrícola, fronteiras internacionais, Revolução Federalista e movimentos sociais rurais, que se sentiu interessada em saber mais sobre o que encontrou numa das páginas: uma trova de Adeodato.
— Em 2023, completou-se um século da morte de Adeodato Manoel Ramos, uma data que não serve para comemorar, mas para rememorar essas pessoas. Passei a intensificar a leitura dos poemas dele, que originalmente estão no livro “O último Jagunço”, do topógrafo Euclides Felippe. Fui atrás de outras fontes e coloquei-me a pesquisar — conta.
A escritora observa que a história oficial coloca Adeodato sempre como um bandido, um assassino cruel que matou companheiros, a própria mulher e o amante dela. Por outro lado, diz, é possível uma leitura de um comandante justo e correto, que desempenhou seu papel numa guerra sangrenta para proteger seus comandados, como também faziam os soldados do Exército e os homens da própria Polícia Militar da época.
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— O ensaio não endeusa Adeodato, mas o apresenta no cenário da guerra, da miséria e da profunda exploração — pontua.
Para autora, ainda há quem vê caboclos como bandidos
Sobre o fato de trazer Adeodato para um lugar de poeta, um trovador da época, a autora argumenta:
— Eu trabalho com as interlocuções, as aproximações e os distanciamentos entre história e literatura. Eu não endosso os crimes de Adeodato, mas até os anos 1980 a história oficial tratava os sertanejos como bandidos. Até hoje, inclusive, tem gente que continua a vê-los dessa forma.
Sobre o que hoje seria considerado feminicídio, Ana Lice esclarece:
— De forma alguma concordo com o assassinato da companheira, mas é importante contextualizar que naquela época não havia legislação acerca do assassinato de mulheres. Ao contrário, tinha algo que por muito tempo inocentou os matadores, a chamada legítima defesa da honra. Quando preso, Adeodato é condenado por outros crimes. Mas não por ter matado a mulher e seu amante. Só mais recentemente, em março de 2021, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, que a tese da “legítima defesa da honra” contraria os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da proteção à vida e à igualdade de gênero.
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Historiografia oficial embranqueceu, ignorou e invisibilizou as personalidades negras do passado
Adeodato não foi o único negro a combater no Contestado. Para Ana Lice, a historiografia oficial tratou de embranquecer, ignorar e invisibilizar as personalidades negras do passado.
— Essas histórias estão começando a vir à tona, principalmente, pelo trabalho de pesquisadores e pesquisadoras negras, reflexo das políticas governamentais dos últimos 30 anos do governo federal. A importância desse livro está em ajudar a mostrar que o estado catarinense, assim como o brasileiro, é resultado da multiplicidade étnica — pontua.
Única foto de Adeodato inspirou ilustração
O ensaio sobre Adeodato faz parte da Coleção Ensaios Afro-biográficos, uma espécie de coleção de bolso, onde o primeiro livro foi sobre o jornalista Gustavo de Lacerda, natural da antiga Desterro, e que viveu como repórter no Rio de Janeiro, onde fundou a Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, em 7 de abril de 1908.
— Assim como ocorreu com a proposta de Ana Lice Brancher, estamos com o espaço aberto para quem quiser apresentar sugestões. A historiadora trouxe a proposta, fomos conversando e alinhando principalmente com relação à genealogia, até que chegamos a esse ensaio a ser lançado dia 1º de outubro — conta Fábio Garcia, editor, historiador, educador, militante do movimento negro e autor de diversos títulos.
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A imagem que ilustra o livro tem por base uma fotografia, talvez a única, de Adeodato, do ano de 1916, quando estava preso. Está ladeado por policiais e é reproduzida em muitos livros sobre a Guerra do Contestado. A editora apresenta uma ilustração mais próxima da realidade em que vivia o personagem.
Por ter sido um tropeiro, como o próprio relata em seus poemas, presume-se que se vestia como um homem do campo. Na capa do livro, Adeodato tem a expressão facial preservada, mas vestido com chapéu, camisa, paletó e um lenço no pescoço. Para a criação, a Cruz e Sousa procurou o artista gráfico e ativista da causa negra Bruno Barbie.
— A intenção é mostrar o Adeodato cafuzo, o típico caboclo da região do Planalto Norte, meio indígena, com traços do homem sertanejo daquela época. Adeodato não é apresentado despossuído ou destituído das suas vestimentas tradicionais, o que muitas vezes ocorre quando se resgata a história de um personagem negro de época, não mais presente e que durante sua existência não um registro fotográfico — explica Fábio Garcia.
Editora tem novos projetos sobre negros que marcam a história catarinense
A editora Cruz e Sousa prepara outros projetos, que serão lançados em breve. Está em andamento um livro sobre Leonor de Barros, irmã da deputada Antonieta de Barros, e acerca de Abdon Batista, um dos governadores negros de Santa Catarina. Também é mapeada a história de Doutor Pedrinho, que igualmente dá nome a um município catarinense.
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— Acredito que a editora está cumprindo a sua missão, que tem como objetivo divulgar histórias e trajetórias negras em Santa Catarina — diz Fábio Garcia.
Desde a criação, em 2018, a empresa mantém o compromisso com a preservação, divulgação e promoção da temática étnico-racial no Sul do Brasil. A linha editorial abrange poesia, trabalhos acadêmicos, contos, coletâneas, ficção, material didático e paradidático.
— A gente tenta furar certas bolhas e com êxito. A tiragem média de um livro no Brasil é de 500 unidades. Temos livros que já superaram a casa dos 2 mil, 3 mil livros. Mas isso é uma consequência do esforço individual da editora e dos autores, pois carecemos de uma política pública de educação que se comprometa com o debate racial no ensino da história africana e afro-brasileira — complementa.
Guerra do Contestado é considerada a mais sangrenta revolta do século 20
Entre 1912 e 1916, o Planalto Norte de Santa Catarina foi sacudido pela Guerra do Contestado, considerada como a mais sangrenta revolta do século 20 no Brasil. A região era contestada — por isso o nome da guerra — pelos dois estados, pois era rica em madeira e erva-mate e nela seria construída uma estrada de ferro, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul.
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Os insurgentes eram movidos por motivos que iam do messianismo à luta pela terra. Reagiam ao impacto da construção da estrada de ferro, que os expulsou de onde viviam, assim como eram contra o poder público e os coronéis locais. Estima-se que pelo menos 10 mil pessoas morreram na região do Contestado, fosse pelos combates quanto de fome e de doenças como o tifo, que se alastrou pelas “cidades santas” erguidas pelos revoltosos.
Entre os mortos, milhares de mulheres e crianças. O governo federal enviou tropas para dispersar as comunidades, os chamados redutos. Após várias derrotas, as tropas federais, que chegaram a contar com 7 mil militares, conseguiram vencer os sertanejos, em 1916.
Adeodato Ramos foi um importante líder dos sertanejos. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais da época, entregou-se. Mais tarde seria morto numa suposta tentativa de fuga na Cadeia Pública de Florianópolis.
Confira imagens do livro
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