Para quem vem do Leste, a cidade atravessa a barra da emoção logo depois de Tamarana. Vencida uma sucessão de elevações que ficam para trás e após uma longa curva à esquerda, surge a imagem amada à boca da noite. Feito a coluna mais avante de uma grande armada, as primeiras edificações marcham sobre um campo de trigo para trazer o abraço demorado dos reencontros na terra que o Sol agonizante torna ainda mais vermelha.
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Vim para buscar esta crônica escrita na janela debruçada sobre o verão. Lá fora, o rangido surdo do calor elabora o açúcar das jabuticabas e faz crescer uma necessidade insana por tudo que o rio do tempo há de nos devolver. O verão, é principalmente, esse tremeluzir sobre as águas do lago Igapó, onde a luz que não se afoga desce mansamente para tocar a água com os lábios e beber saudades dessedentadas. Um bronzeado de muitas origens se mistura na pele da paisagem, onde o mineiro e o nissei compõem um terceiro tom que se revela mais aos ouvidos que aos olhos, pela candura de vozes amistosas e prestativas num estado de quase música.
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A manhã nasce para repor tudo que foi deixado em antigos verões, ruas e rostos com o mesmo frescor de meio século atrás. A tarde se dilata e nos olhos úmidos de espanto e calor que esperam pela primeira chuva que tange nos arredores da Warta, mas toma outro sentido sem se derramar sobre o clamor do domingo. Duas belas na tarde que cai passeiam sobre a grama no quintal do tempo, e no céu uma nuvem vai sendo esculpida em espirais até tomar a forma de um rosto, em que os últimos raios do Sol pincelam um tom púrpura que confrange quase até o desespero sobre o ocaso.
A noite promove um encontro embaixo das estrelas. Ando a pé pela cidade em companhia de minha própria sombra, que se despega do chão projetada pela luz dos postes da via pública. A sombra recortada na mancha clara da iluminação caminha comigo num silêncio reminiscente. Conforme o poste se afasta e sua luz se abranda, outro se aproxima com uma projeção na direção contrária. E, por um instante, somos três solidões que a Lua, em outro lugar, desfoca levemente, como a lembrar que nada é nítido passado, nem futuro certo e o presente se desmancha nessa leve oscilação entre duas luminosidades no cenho do verão em Londrina.
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