Sutil e difícil de ser notado, o gaslighting é um tipo de violência psicológica em que a vítima sofre com a manipulação da mente realidade.
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Para abordar como ele acontece, mostramos a seguir qual a origem do termo, como é possível identificá-lo, além de comentar a presença do gaslighting na série brasileira “Bom dia, Verônica”, produção original da Netflix.
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“Seja lá o que tenha acontecido, a culpa não é sua.” A frase é dita pela protagonista da série. Sentir-se culpada por algo que não fez é um dos sinais do abuso psicológico de gênero chamado gaslighting. Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, 78.052 casos envolvendo violência psicológica foram registrados no Brasil em 2017. As mulheres representam 81% do total de vítimas.
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Embora não seja uma série baseada em fatos reais, o roteiro retrata a realidade de muitas brasileiras a partir de histórias de mulheres que vivenciam o machismo no dia a dia. Assim, a série consegue deixar vida real e ficção lado a lado. Além disso, também mostra a sensação de impotência sentida pelas mulheres quando os casos não são solucionados, ou quando nesses casos sequer são investigados.

Interpretada por Tainá Müller, a personagem que dá nome à trama é uma escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo que sempre toma para si a dor das vítimas de violência de gênero. Outra mulher que ganha destaque em cena é a Janete, esposa do tenente e serial killer Cláudio Brandão, interpretado por Eduardo Moscovis. Na pele de Camila Morgado, a personagem é quem traz a vivência do gaslighting para a série.
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Gaslighting presente em “Bom dia, Verônica”
Dirigida por Rog de Souza, José Henrique Fonseca e Izabel Jaguaribe, a adaptação do streaming, que estreou em outubro de 2020, é inspirada no livro homônimo de Ilana Casoy e Raphael Montes, assinado pelo pseudônimo Andrea Killmore. O tema da violência contra a mulher é tão presente que, ao fim de cada episódio, “Bom dia, Verônica” traz alertas sobre o abuso e divulga uma campanha com um link para realizar a denúncia.
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Na véspera da estreia, a protagonista Tainá Müller escreveu em uma rede social: “sou grata pela oportunidade de trazer um assunto tão urgente, tão afinado com um dos meus propósitos de vida que é a luta das mulheres. Que ‘Bom dia, Verônica’ traga entretenimento, mas também debate. Que sua crítica nos faça pensar. Que sua denúncia possa, de alguma forma, salvar”.
A série de suspense começa quando Verônica Torres presencia, ao lado de sua mesa no trabalho, o suicídio de uma mulher, vítima de um golpe que um homem aplicava a partir de encontros marcados on-line. Durante a investigação do caso, a escrivã se depara com a denúncia de Janete, uma dona de casa que sofre violência doméstica.
A cada episódio, é possível identificar os sinais de violência e abuso psicológicos na vida da personagem. Janete tem medo até mesmo de sair na rua. Não tem celular e é vigiada e controlada pelo marido, como se estivesse em um cárcere. Brandão ressalta que ela não faz nada bem o suficiente, sempre deixando a desejar. Em diversos momentos da trama, fica claro que a dona de casa se apropria das mentiras do abusador e se convence de que é a culpada por tudo de ruim que acontece em sua vida.
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De acordo com a psicóloga Andréa Gonçalves, esse comportamento é comum em quem sofre de gaslighting.
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– A vítima passa a acreditar que o abusador é a única pessoa que atua corretamente, e começa a pensar que realmente há algo errado com ela, aumentando sua insegurança e dependência da opinião dos outros. Ela demonstra isolamento, ansiedade, crise de nervos, tendências obsessivas e medo – analisa.
Para esclarecer a prática desse tipo de abuso, a psicóloga fala sobre a origem do termo e dá orientações de como identificar esse abuso.
Origem do termo gaslighting
O termo popularizou-se com a peça teatral Gas Light de 1938 e suas adaptações para o cinema, lançadas em 1940 e 1944. Isso porque, no roteiro, o marido manipula a esposa psicologicamente, distorcendo fatos e mudando elementos do ambiente, para que ela se convença de que enlouqueceu.
Hoje, a palavra é usada para definir um padrão de abuso emocional, no qual a vítima é manipulada para que passe a duvidar da sua própria percepção, juízo ou memória. Segundo a psicóloga, é uma forma de escravidão presente em muitos tipos de relações, sejam elas sentimentais ou familiares, e também é considerada violência de gênero.
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Dessa forma, o abusador vai implantando uma semente de insegurança para fazer a vítima duvidar da realidade. Frases como “você é exagerada”, “isso é uma tempestade em um copo de água” ou “você está delirando” são comuns nesse relacionamento abusivo.
– O abusador sabe muito bem o que está fazendo, normalmente são psicopatas e narcisistas, mas apresentam um comportamento encantador e convincente. Buscam causar na vítima, dúvidas sobre si mesma, sobre sua identidade e sobre a realidade, com o principal objetivo de dominar e anular o outro – afirma.
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Como identificar o gaslighting
A psicóloga Andréa Gonçalves destaca o artigo “11 sinais para ficar atento ao gaslighting”, publicado pela psicoterapeuta Stephanie Sarkis, que alerta sobre algumas técnicas que o abusador normalmente utiliza.
Mente sobre coisas óbvias
Ele nega coisas que disse, mesmo que a vítima tenha alguma prova. Nesses casos, a ação é feita para que a vítima duvide cada vez mais das coisas que percebe e comece a acreditar somente nele.
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Ataca pessoas ou coisas que a vítima aprecia
O abusador faz com que a vítima questione a própria essência e origem. Faz com que a vítima possa imaginar coisar ou situações que jamais existiram.
Faz comentários positivos
Da mesma forma que diminui a vítima, também pode enaltecê-la. É uma ação totalmente premeditada para que a vítima acredite que o abusador é bom.
Diz que todo mundo é mentiroso
Essa é mais uma técnica de manipulação. Ao criar desconfiança em relação às outras pessoas, a vítima passa a acreditar somente no abusador.
Como superar o gaslighting
Este tipo de abuso psicológico muito grave que pode resultar em estresse pós-traumático, perda da auto estima, transtornos de ansiedade, emoções constantes de culpa e insegurança. Em níveis avançados, converte-se de forma rápida em um ciclo do qual é quase impossível escapar, lembra a psicóloga.
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A primeira medida a se tomar é reconhecer que existe um problema de abuso psicológico. É importante também criar uma rede de apoio, com familiares e amigos próximos para que a vítima possa deixar a relação abusiva.
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– A vítima deve buscar ajuda nos profissionais psicólogos para dar início a psicoterapia individual e, assim, trabalhar a autoestima, o resgate pessoal, superação ao trauma vivido, entre outros fatores relacionados a cada caso – ressalta.
*com supervisão de Carolina Marasco