Em 23 de julho de 2013, o fotógrafo Alvarélio Kurossu fez um dos registros mais encantadores da vida profissional: o topo do Morro do Cambirela coberto de neve. Fazia décadas que não nevava tanto no maior morro da região da Grande Florianópolis.
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Alvarélio Kurossu é jornalista por formação e trabalhou durante 10 anos como repórter fotográfico no Diário Catarinense. Iniciou em Lages, na Serra catarinense, onde se especializou em coberturas de neve. Como brinca o povo serrano, aprendeu que dor no osso do pé anuncia frio de rachar. Preparava-se para o quinto ano de cenário branquinho pela geada, quando foi transferido para a sede do jornal, em Florianópolis.
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Em 2013, Alvarélio faria algo que deixou muitos fotógrafos loucos para estar no lugar: fotografou neve no Morro do Cambirela. Há pelo menos 30 anos não havia ocorrência do fenômeno no local. Era uma terça-feira quando a temperatura despencou em Santa Catarina: 0°C, 1°C e 2ºC em muitos municípios. Não demorou para o morro mais famoso da Grande Florianópolis ser chamado de “Alpes Catarinenses”.
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A fotografia monotemática na capa e contracapa do DC está em muitas paredes. Os bastidores muitos saberão agora pela boca de Alvarélio.
— Eu tinha brigado com meu chefe. Naqueles dias, foi anunciada previsão de neve na Serra catarinense. Por “castigo” ele não me escalou e decidiu por um colega. Mas o improvável aconteceu: nevou no Cambirela, eu fotografei e a imagem foi parar nos principais jornais, revistas e sites nacionais e internacionais — recorda.

Alvarélio conta que trabalhava pela manhã. Um pouquinho antes das 8h, mal chegando, um colega de redação disse que tinha nevado no Cambirela. No primeiro momento ele não levou muito a sério, pois sabia que seria difícil nevar por causa da proximidade com o mar. Imaginou ser uma pegadinha, já que não tinha ido viajar por causa do chefe. Ainda assim, pegou o equipamento e decidiu olhar pela janela.
— Na época, a redação do jornal ficava na SC-401. Busquei a parte mais alta do prédio, que fica de frente para o Cambirela, e vi o topo todo branquinho. Foi incrível: fiz apenas quatro fotos, pois a NSC (ex-RBS) tinha uma agência e precisava soltar as imagens para a imprensa de todo o país — relembra.
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Agora, com as páginas do DC na mão, Alvarélio recorda detalhes: o sol estava saindo e pegando só na parte de cima do Morro. Era uma cena rara.
— Foi uma coisa fantástica. Eu poder registrar aquilo, ali, diante dos meus olhos. Eu brinco assim: a neve me perseguiu, pois veio até mim — diz.

“Vou contar aos meus netinhos: vovô fez a foto”
Atualmente, a fotografia para Alvarélio é apenas para registros em família. Em 2015, ele decidiu trocar as lentes por panelas e pratos. Optou em empreender no ramo da gastronomia. No entanto, o registro fotográfico daquele inverno no litoral catarinense não sai dele:
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— Eu até cuido para não ser chato, pois sempre que olho, passo ou estou conversando com alguém sobre o Cambirela, digo: você sabia que já fotografei neve lá? Eu garanto que daqui a 30, 40 anos, vou falar para os netinhos que, outros fotógrafos fizeram, mas a foto do vovô do Cambirela coberto de neve foi a que teve maior repercussão.
Alvarélio explica que apesar da singularidade da foto, também houve polêmica. Algumas pessoas, inclusive do ramo da fotografia, não acreditaram que ele teria feito a imagem, mas uma montagem.
— Eu cheguei a gravar um vídeo explicando aos leitores como a lente 300 e o duplicador possibilitaram a imagem. Ainda assim, tem uma pessoa que todo o ano do aniversário da foto (23 de julho) me escreve falando se eu vou contar ou não sobre a montagem — brinca ele, atual dono do Tonho Boteco, bar e restaurante em Santo Antônio de Lisboa.
Vídeo conta a história do Morro do Cambirela
A conexão do Cambirela com as pessoas
Quem pesquisa pela palavra Cambirela no Google encontra muitas referências. São imóveis, hotéis, casas comerciais, academias, centro esportivo, aldeia indígena, grupo de escoteiros e veículos de comunicação. O nome inspira até marcas de canivete e de cervejaria.
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Essa popularização reflete a proximidade dos moradores da Grande Florianópolis com o pico extremo a Leste do Maciço Cristalino da Serra do Tabuleiro. No passado, ainda quando eram escassos os sensores, radares e satélites que fazem a previsão do tempo, era comum se olhar para o Cambirela para saber se teríamos sol ou chuva. Hábitos que alguns ainda mantêm.
— A gente olha para o Cambirela: se ele estiver com touca (nuvens), pode apostar que vai chover — brinca o advogado George Daux.
Para os que decidem subir para perto da touca, citada pelo manezinho Daux, a chegada ao cume do Cambirela é recompensada por uma beleza ímpar. Olhando para o lado Oeste, a vasta paisagem do conjunto de morros da Serra do Tabuleiro. Virando-se para o norte, a vista das baías Sul e Norte e de toda a Ilha de Santa Catarina. Parece que a amplitude torna a área urbana menos insólita. Para o lado leste, a imensidão do Oceano Atlântico. Abaixo dos pés, um gigante de basalto com sua veste verde-mata a observar a região.
Confira imagens do Morro do Cambirela
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