Não era uma sexta-feira, dia em que pessoas de religiões de matriz africana, costumam usar branco para saudar Oxalá, divindade considerada o criador do universo. Mesmo sendo uma quinta-feira, 4 de abril, a estudante Cynthia Luiza Ribeiro do Amaral, que se formou em Serviço Social, vestiu branco inovando na formatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cynthia tornou-se a primeira pessoa a colar grau na instituição com uma beca branca, desenvolvida para ela em respeito à diversidade religiosa e ao seu processo de formação espiritual no candomblé.

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O ato contou com permissão da Reitoria, que considerou a garantia de direitos. Cynthia levou a questão à universidade, que, por meio da Secretaria de Cultura, Arte e Esportes (SeCArtE), responsável pelas formaturas, admitiu ser um caso inédito. A estudante se disse surpresa em saber do pioneirismo.

— Fui procurar fundamentos que justificassem esse meu querer. Eu não gostaria que num momento tão especial desses eu tivesse que renunciar a alguma coisa que também é tão especial para mim — diz.

“Só a luta muda a vida”

Havia uma coincidência de datas: em 21 de novembro ela apresentou o TCC, data que também começou o ritual religioso, o qual durante um ano exige o uso só de roupas brancas. Inclusive, com a cabeça coberta:

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— Seria problemático ter que vestir roupa de outra cor, no caso, o preto, ou que fosse de outra cor qualquer — explica.

Naquela data, ela “entrou em preceito”, termo utilizado para definir uma fase no desenvolvimento espiritual dos candomblecistas que se preparam para receber o seu orixá.

— Às vezes, não é só quebra de preceito, a gente tem uma questão ancestral, que faz parte dos mistérios da nossa religião. E isso deve ser considerado também por ser um processo religioso de resistência.

Chyntia, uma das escolhidas para o discurso da turma, destacou que os últimos anos da graduação foram marcados por muita resistência.

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— Só a luta muda a vida — afirma.

No Centro de Florianópolis, ameaças e preconceito

Ao chamarem seu nome, Cynthia subiu ao palco aplaudida por seus familiares e amigos, que também utilizavam vestimentas brancas. 

Fora do campus, entretanto, a situação é diferente. As vestes e indumentárias brancas, usadas por Cynthia em seu cotidiano, costumam provocar olhares e ser motivo de preconceito. Recentemente, enquanto andava no Centro de Florianópolis, ela foi vítima de intolerância de forma pública e verbalmente, sendo ameaçada e precisando recorrer à Polícia Militar.

Por isso, a estudante destaca a importância de a universidade ter se posicionado de uma forma respeitosa.

— É importante que a UFSC possa trazer para a comunidade e para a sociedade civil essa perspectiva de respeito e de união em prol de todas as religiões. Nós estamos tentando dialogar com a população para trazer uma nova percepção — e não é doutrinação — acerca da religião africana que não irá destruir nada ou fazer mal algum — explica.

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Veja as fotos da cerimônia

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