A produção das obras que abrem o calendário de exposições da Fundação Cultural Badesc este ano, em Florianópolis, é inspirada na “aquilombada”, segundo Tauan Gon, artista responsável pelas pinturas e também pela curadoria da mostra. Morador da capital catarinense, ele esclarece o significado do termo, que corresponde ao convívio em uma cena cultural negra: de cooperação, de coletivo e de diferentes linguagens em contato que se fortalecem.
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A exposição “Cruzos Opacos” abre na noite desta quinta-feira (16), e poderá ser visitada até o dia 6 de março, de segunda à sexta, das 13h às 19h. A entrada é gratuita e a vernissage (encontro prévio à inauguração de uma mostra de arte) começa a partir das 19h. Haverá apresentação do Grupo Samba da Búia no evento de abertura.
O artista, natural de Viçosa (MG) e criado no Distrito Federal, é formado em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB). Ele foi selecionado para abrir as exposições na Fundação Badesc na Chamada Pública Paulo Gaiad – 1ª exposição individual – 2024.
— A produção [inspirada na aquilombada] leva à exposição Cruzos Opacos, que busca estender, continuar a criar um lugar relacionado com a própria questão que motiva essa produção. O que inspirou essa exposição é também criar uma oportunidade de pessoas de diferentes núcleos, redes de afeto, de trabalho, entrarem em contato e estenderem esse campo de ação e de pensamento que tem se formado aqui em Florianópolis, nessa cena cultural negra — pontua Tauan.
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Composta essencialmente por pinturas, a mostra que vai ocupar o Espaço Paulo Gaiad vai contar também com cadernos do artista e projeção de vídeo. Segundo Tauan, a exposição inédita abrange um recorte da produção e pesquisa em pintura desenvolvida durante o ano de 2023 e início de 2024.
“Cruzos Opacos”
As pinturas presentes na mostra são feitas a partir da fabulação e reencenação de imagens históricas, focada em um pensamento e experiência afrocentradas. As pessoas que aparecem nas pinturas são, inclusive, íntimas de Tauan.
Conheça as obras
— As pessoas foram convidadas a reencenar imagens históricas e saberes da oralidade negra. Ao incorporar a arte à sua maneira, se fazem ressignificações. Disputa-se protagonismos. Em essência, cria-se novas imagens — explica ele.
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Para o artista, trabalhar com pessoas que ele conhece foi vivaz e entusiasmante, uma vez que o trabalho com elas é uma extensão da relação dele com essas pessoas.
— São pessoas que eu já tenho o privilégio de conviver em diferentes contextos, mas o trabalho, para além de alongar esse convívio, essa troca, essa escuta, propõe uma maneira diferente de se relacionar, de ouvir, de perceber o improviso, a crítica, o humor — conta.
O trabalho com os conhecidos, para o artista, o fez ter mais tato com o trabalho.
— Me fez ter o cuidado de ser ainda mais respeitoso, cuidadoso e responsável, por estar produzindo a partir daquela pessoa e junto com ela. Isso traz uma seriedade e uma camada de afeto muito importante para o trabalho. Estar criando dessa maneira me põe em roda — pontua.
Como as imagens históricas são escolhidas
A pesquisa imagética que ele faz para produzir as obras, sejam de imagens históricas através da pintura, fotografia, documentário ou dos jornais, é um hábito de Tauan.
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— É algo que me interessa para além da produção artística. Há muitos anos eu mantenho esse interesse, esse hábito. E essas imagens são selecionadas quase que sempre inicialmente por alguma provocação, algum interesse, algum incômodo, geralmente não muito lúcido, consciente, mas que depois se revelam estar com algum tipo de potencialidade para ser colocado em contato com a história da representação do corpo negro — conta ele.
Para compor as obras, ele passa por um processo de escrita, de relacionar a imagem escolhida à outras imagens e de buscar compreender porque ela o provocou em um primeiro momento, e como ele pode responder àquela imagem.
“Riqueza da experiência afrodiaspórica brasileira”
Apesar de saber que as vivências e atenções das pessoas são únicas, ele espera que os visitantes da mostra sejam sensibilizados, e que fiquem com o olhar atento à riqueza da experiência afrodiaspórica brasileira, o quanto ela vem de uma ancestralidade imensurável e como se atualiza num “hoje” muito complicado.
— Como essa beleza, essa luta, está em campos muito diversos, culturais, acadêmicos, ou na rua. Essa exposição é uma manifestação a mais dessa atualidade que a gente tem a honra e a responsabilidade de estar testemunhando e vivendo — finaliza.
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Essa não é a primeira vez que o artista apresenta uma exposição na Fundação, em agosto de 2024, ele participou da coletiva “Gestos e Horizontes” – Residência Artística e de Pesquisa Paulo Gaiad.
Quem é o artista?
Tauan Gon é natural de Viçosa, Minas Gerais, e foi criado no Distrito Federal, formado em Artes Visuais pela UnB. Atualmente, reside em Florianópolis. A pesquisa dele é debruçada sobre figuração de pessoas negras, memória, fabulação, reencenação e o conceito de “opacidade” em identidade.
A teoria que embasa a obra dele é procurada na literatura de autores negros e nos saberes populares e das religiões de matriz africana, epistemologias afrocentradas. Já os referenciais imagéticos são produzidos junto a pessoas de seu convívio — artistas, sambistas, amigas, irmãos de santo.
Essas cenas são desdobradas em pintura, desenho ou vídeo. Nos anos recentes, participou das exposições coletivas:
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- 51º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Casa do Olhar, Santo André, SP (2024);
- Novembro Negro, Câmara dos Vereadores, Florianópolis, SC (2023);
- X COMA: Mundos [im]possíveis, Espaço Piloto, Brasília, DF (2023);
- 20º Território da Arte de Araraquara, Centro Judith Lauand, Araraquara, SP (2023).
O artista foi premiado em 1º Lugar no Prêmio SESC de Pintura em Tela Cândido Portinari (2013). Ele atua também como professor de desenho — especializado em figura humana e hachura — em formato presencial e online. O curso digital dele, ‘Retrato – Desenho do Rosto’, foi premiado e adquirido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 2021.
*Sob supervisão de Andréa da Luz
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