Vem das profundezas o significado de Agualusa. Assim o angolano José Eduardo Agualusa, 63 anos, explica que o sobrenome está associado à linguagem dos marinheiros portugueses quando se referem a um mar de água clara e iluminada. Com raízes angolana, portuguesa e brasileira, o escritor, cronista e jornalista é dono de um estilo literário que mescla realidade e fantasia.
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A sua obra é um diálogo permanente com a história de Angola, mas também com a África e Brasil atuais. Nessa entrevista para o NSC Total, o escritor — filho de mãe brasileira e de pai português — fala de diferentes temas. Inclusive sobre o lugar da mulher na nossa sociedade. A conversa apresenta seu olhar humanista sobre contemporaneidades de um mundo altamente tecnológico, o qual debate o uso da inteligência artificial e, paradoxalmente, convive com uma guerra bizarra que abate pessoas famintas na fila por comida. São essas peculiaridades que nos pautaram.
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Dinâmica da estupidez
O livro “Os Vivos e os Outros” é um bom exemplo da junção de ficção e realidade que caracterizam a obra de Agualusa. Escrito antes da pandemia do coronavírus e lançado em 2020, o romance narra a história de um grupo de escritores africanos que se juntam num festival literário na Ilha de Moçambique. A turma desfrutava do momento até que a internet cai, os celulares ficam sem sinal e uma violenta tempestade atinge o lugar. Depois de sete dias completamente isolados, eles descobrem: o mundo acabou. Cabe aos escritores a tarefa de reconstruí-lo a partir da palavra que, como diz o autor, tudo cria e regenera.
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Em uma tarde no começo de março, enquanto por telefone conversava com Agualusa, que estava em Lisboa, ardia na pele dessa repórter não o sol dos 30ºC marcados nos termômetros de Florianópolis. Mas o impacto das imagens de pessoas famintas, abatidas em Gaza, dois dias antes, enquanto buscavam ajuda humanitária. Tomando como referência o livro “Os Vivos e os Outros”, propus a Agualusa o exercício de escolher palavras que restaurem um mundo em guerra, onde se negam direitos humanos básicos à vida, espalha-se mentiras e naturaliza-se a barbárie:
— É preciso entendimento, compreensão, diálogo. Entramos na dinâmica da estupidez. A única forma possível dessa reconstrução é o uso da não-violência. Preocupa-me ver uma juventude, como a de Israel, extremamente intolerante. Se pensarmos bem, acaba por ser pessoas mais velhas, aquelas que tiveram a prática do diálogo ao longo da vida, as que demonstram capacidade de buscar uma saída.
Direita conservadora, mas civilizada
Agualusa morou no Brasil antes da ascensão da extrema-direita ao poder com o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
— Naquela época, sequer era possível imaginar o Brasil na dimensão que chegou com Bolsonaro. Sabia-se que existiam intolerâncias, mas estavam guardadas, um pouco escondidas — sugere.
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Neste contexto, o angolano escreveu antes, durante e depois de Bolsonaro. Aos sábados, o escritor tem crônicas publicadas no jornal O Globo. Perguntei-lhe se é possível identificar reações diferentes dos leitores nesses três momentos:
— Recordo que, tempo atrás, as pessoas reagiam de forma mais violenta. Não sei se deixaram de ler o jornal ou se mudaram de opinião, pois uma parte das pessoas percebeu que não era nem um movimento da direita. A direita é uma expressão conservadora, mas civilizada. Bolsonaro nunca representou isso. Lembro de meu pai, um homem de ideias de direita, e que achava intolerável ouvir Jair Bolsonaro, um machista, um desagradável. Leitores que não concordam com ideias seguem escrevendo.
— Considero que podemos aprender mais com quem discorda da gente. O princípio máximo da democracia é a discordância. É saudável termos ideias diferentes e creio que um confronto de opiniões pode levar a uma ideia melhor. Mas de forma civilizada.
Conheça o autor Agualusa
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Inteligência artificial
Em “Novos Meios, Velhas Mentiras”, um de seus artigos publicados no jornal O Globo, ele diz que a inteligência artificial e todos os instrumentos gerados por ela não ameaçam a Humanidade. O que ameaça a humanidade é a própria humanidade, a estupidez humana. Perguntei ao autor em que situação estamos sendo estúpidos:
— É uma decisão estúpida usar a tecnologia para fabricar armamentos, por exemplo, e infelizmente isso acontece. A humanidade se mostra estúpida quando demonstra capacidade de gerar grandes prodígios tecnológicos, mas age como se estivesse na Idade Média.
Os primeiros escritos para jornais, revistas e livros de Agualusa foram em máquina de escrever. Hoje, esteja na Europa, na África, em qualquer lugar do mundo, usa o computador para divulgar suas ideias.
— Vejo a tecnologia como mais um instrumento. A internet é uma janela aberta para qualquer lugar do mundo e isso ajuda o trabalho de um escritor, pois antes se tinha uma trabalheira imensa, e nem se podia voltar atrás, como fazer a troca do nome de uma personagem — diz.
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O escritor conta ter ficado curioso com a chegada do Chat GPT, uma ferramenta de processamento de linguagem natural orientada por inteligência artificial e que possibilita conversas semelhantes às humanas com um chatbot:
— Tratei de me registrar para ver como era. Hoje, se trata de uma fábrica de mentiras. Eu diria que o GPT é um mentiroso compulsivo e chega a ser até divertido quando se imagina um livro que não existe e fazemos alguma pergunta acerca. A máquina é incapaz de dizer que não sabe. E faz na cara de pau. Minha preocupação é se um médico, um advogado, um profissional qualquer faz uma pesquisa e acredita na resposta obtida.
Chivukuvuku, sinônimo bravura
Em dezembro do ano passado, Agualusa lançou novo livro. “Vidas e mortes de Abel Chivukuvuku” é o título da sua primeira biografia e retrata a história de um dos políticos mais influentes de Angola. Chivukuvuku (nome que significa bravura) foi ex-militante da UNITA (Exército para Libertação de Angola), sobreviveu a duas quedas de avião durante a guerra civil (1975-2002), um atentado, uma tentativa de linchamento, além de conspirações e ameaças. Mas sem perder a alegria pela vida e a capacidade de perdoar, de escutar o outro e de dialogar.
— Trata-se de um personagem extraordinário e, ao contar a história dele, conto também a história de Angola. Estamos habituados a que essa história seja contada a partir de Luanda, a capital, e eu conto a história de Angola a partir de uma cidade do interior de Angola. Como se contasse a história do Brasil a partir do olhar de Manaus, e não de São Paulo ou Rio de Janeiro — explica.
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Lançado em Angola e Portugal, o livro aguarda pelo interesse de uma editora brasileira para ser publicado no país.
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Excesso de informação e pouca reflexão
Em “As histórias que os corvos contam”, o autor chama a atenção para algo que estamos perdendo: a capacidade de ouvir o outro. A inspiração veio de uma conversa com a filha de cinco anos, a qual no caminho da escola conta-lhe sobre o que os pássaros têm dito a ela. Para Agualusa, ouvir uma história é tão importante quanto saber contá-la. Como ele também é jornalista, quis saber se não acha que a pressa, o uso excessivo de tecnologia e absurda concorrência com as redes sociais não estão fazendo a gente deixar de lado essa premissa. Para ele, se isso está ocorrendo, é preciso repensar: “o jornalismo é treinado para ouvir, prática do cotidiano que deve ser seguida”. Habituado desde jovem a ler e escrever para jornais tradicionais, Agualusa defende a necessidade da reflexão, especialmente para o público mais jovem:
— Convivemos com excesso de informação e pouca reflexão. Os jornais de antigamente não divulgavam apenas notícias, mas artigos de reflexão. A juventude sabe das notícias a partir das redes sociais, e muitas vezes de forma equivocada. Isso distorce a realidade e beneficia determinadas forças políticas.
8M: “Homens com medo de perder privilégios”
A proximidade do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, me fez querer ouvir Agualusa sobre como ele vê a questão mundo afora. Contou-me que ao longo da vida assistiu a avanços muito significativos na luta das mulheres pela igualdade. Infelizmente nos últimos anos percebeu, no sentido contrário, a um movimento de resistência contra esses avanços:
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— Acho que, no mundo inteiro, tem muito a ver com o medo de alguns setores mais machistas das sociedades perderem privilégios. Portanto, esse medo do homem vem ajudando a criar e alargar este movimento contra o feminismo.
O escritor lembra que, no caso da África, por ser um continente imenso e com países muito diversos, não é possível estabelecer comparações entre Argélia, ou com o Marrocos, no Norte da África; assim como a África do Sul, Zimbábue ou Botswana, pois são completamente diferentes.
Mas ele fala sobre países que conhece melhor, como Angola e Moçambique. Em Angola, por exemplo, o dia 2 é considerado o dia da mulher angolana e feriado nacional.
— Desde a independência as mulheres ganharam poder, sobretudo lugares de poder. Creio que há bem mais mulheres em lugares de poder em Angola do que no Brasil, por exemplo — pontua.
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Para o escritor, no governo angolano a presença de mulheres sempre foi muito forte e é com certeza mais forte do que no governo brasileiro. Isso reflete na sociedade angolana em geral:
— Em Angola existe uma certa tradição de um poder feminino desde sempre, desde a famosa Rainha Nzinga Mbandi, no século 17. Nossas cidades foram abertas, pelo menos, à possibilidade de as mulheres terem e ocuparem lugares de poder, ainda que as nossas sociedades sejam na verdade extremamente machistas. Mas existe essa contradição. São sociedades machistas, nas quais as mulheres ocupam frequentemente lugares de poder.
Literatura e música para aproximar Brasil e África
Agualusa defende a ligação entre Brasil e Angola como muito estreita. De Angola foram traficadas 3 milhões de pessoas negras durante a escravatura. Para o escritor, o Brasil cresceu juntamente com Angola, onde um foi alimentando o outro, como irmãos, até o final do século 19:
— A literatura é um dos caminhos para que o Brasil faça essa redescoberta sobre Angola, sobre a África. A música é estrada. É curioso que a música africana contemporânea, que tem uma presença enorme no mundo inteiro, e em particular na Europa, seja menos conhecida no Brasil. Com a literatura isso já não acontece, pois existem muitos autores africanos com bastante leitores no Brasil. Mas, curiosamente, na música isso não acontece.
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Da amizade com Mia Couto: “Trocamos páginas que estão sendo escritas”
Inspirada na relação Brasil-África, Brasil-Angola, encerramos a entrevista com uma pergunta sobre amizade. Quis saber de Zé (àquela altura da conversa a pobre mortal já se sentia íntima de José Eduardo Agualusa) como era ser amigo de outro escritor africano muito querido no Brasil, o moçambicano Mia Couto:
— A amizade implica uma aceitação do outro, com suas qualidades e erros. Eu e Mia nos conhecemos há muito tempo e ele tem me ajudado ao longo da vida. O amigo existe para chamar a atenção da gente quando estamos errados, e não só elogiar nas coisas boas.
O escritor angolano gosta mesmo de provocar a imaginação dos leitores:
— Mia e eu trocamos páginas do que estamos escrevendo. Fazemos olhares cruzados sobre um romance. Isso é importante, pois quando se está imerso num livro, mergulhado num assunto, a escrita fica cega. Uma outra opinião ajuda a melhorar, a deixar mais claro um personagem, trabalhar melhor uma ideia.
Eu, cá com meus botões, fiquei a pensar (como dizem os portugueses) a cena ímpar de ver Agualusa e Mia Couto trocando páginas rabiscadas.
Em seguida, ao relatar a entrevista para o meu diretor de redação Cesar Seabra, que foi quem sugeriu a pauta, comparei:
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— Como a gente fazia nos tempos dos jornais impressos.
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Escritor nunca esteve em Florianópolis
Florianópolis é a única capital do sul do Brasil que Agualusa não conhece.
— Tenho as melhores referências, mas por uma série de circunstâncias ainda não consegui visitar Florianópolis — diz.
Aproveitei para contar-lhe que José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura em 1998, com a obra “Ensaio sobre a Cegueira”) foi recebido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 1999, para receber o título de Doutor Honoris Causa.
Agualusa diz que ter estudado Agronomia e Silvicultura foi uma completa perda de tempo:
— Aproveitei muito mais fazendo fotografia ou namorando.
Acredita que, se tivesse terminado o curso, seria um agrônomo triste. Seus leitores e leitoras devem igualmente acreditar que a literatura africana seria menos fértil.
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Confira algumas obras do autor
- A Conjura (1989)
- Coração dos Bosques (1991)
- Estação das Chuvas (1996)
- Nação Crioula (1997)
- Um Estranho em Goa (2000)
- O Vendedor de Passados (2004)
- As Mulheres do Meu Pai (2007)
- Barroco Tropical (2009)
- Teoria Geral do Esquecimento (2012)
- A Rainha Ginga (2014)
- O Livro dos Camaleões (coletânea de contos de 2015)
- O Mais Belo Fim do Mundo (2021)
- Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku. Uma Biografia de Angola (biografia, 2023)
O autor
José Eduardo Agualusa, 63 anos, nasceu na cidade de Huambo, em Angola. Por causa da guerra civil (1975-2002), mudou-se para Lisboa e estudou Agronomia e Silvicultura. Mas foi no Jornalismo que encontrou seu ofício: tornou-se um dos mais celebrados escritores contemporâneos da Língua Portuguesa. É autor de romances, contos, novelas, livros infantis e peças de teatro. Atualmente mora entre Portugal, Angola e Moçambique. Mas também já residiu em Olinda e no Rio de Janeiro. E em Berlim, na Alemanha.
Sua obra foi traduzida para 30 idiomas. A estreia ocorreu em 1988 com “A Conjura”, romance que lhe valeu o Prêmio Sonangol Revelação de Literatura de Angola. Um dos livros mais famosos é “O Vendedor de Passados”. O protagonista, Félix Ventura, oferece a seus clientes da emergente burguesia angolana árvores genealógicas inventadas, que lhes garante status. A trama rendeu ao escritor o Independent Foreign Fiction Prize em 2007, e virou filme, em 2015, pelas mãos do diretor Lula Buarque, com Lázaro Ramos no papel principal.
A obra mais recente, lançada em dezembro passado em Angola e Portugal, é uma biografia: “As vidas e as Mortes de Abel Chivukuvuku”, história de um guerrilheiro angolano que sobreviveu a muitos desafios, como a dois desastres de avião. Para Agualusa, o livro não é só a biografia de uma pessoa, mas da própria Angola. Aos sábados, ele escreve crônicas no jornal O Globo.
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