“Acidente de percurso”. É isso que Fernando Machado responde, bem-humorado, quando questionado sobre o que levou um ex-engenheiro à carreira de escritor aos 75 anos de idade, há seis anos. Agora, o morador do Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, se dedica à escrita durante seis horas por dia e trabalha no quarto livro. Tudo isso aos 81 anos.
Continua depois da publicidade
Clique aqui para receber as notícias do NSC Total pelo Canal do WhatsApp
Fernando faz terapia desde que era um jovem adulto. Apesar da infância e adolescência felizes na capital paulista, ele sempre conviveu com uma “gastura” emocional e psicológica. Foi o tratamento e esse sentimento que motivaram a escrita do primeiro livro, “Gastura”, lançado em 2023.
Na época, antes de sequer cogitar a carreira de escritor, Fernando começou a escrever suas memórias para elaborar melhor os próprios traumas a fim de superá-los, uma sugestão do terapeuta. Foi quando ele teve uma epifania.
— Se eu escrevesse a história de minha vida desde quando a minha memória alcançasse, poderia terminar de abrir ou fechar portas imaginárias que estivessem apenas entreabertas — diz o aposentado.
Continua depois da publicidade
O livro é uma espécie de autobiografia que mistura a vida pessoal de Fernando com grandes eventos culturais, sociais e políticos que marcaram o Brasil e o mundo ao longo de cinco décadas — a chegada da TV no país, a corrida espacial durante a Guerra Fria, finais de Copa do Mundo inesquecíveis, a redemocratização do Brasil, o pânico de um “bug do milênio” na virada para os anos 2000 e a música de Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Jobim e muitos outros.
Ele diz, inclusive, que o livro não é só uma biografia dele mesmo, mas também de todas as pessoas que viveram a época.
Fernando já tem outras duas obras publicadas: Phenix (2023), uma espécie de Romeu e Julieta onde os protagonistas “ressurgem das cinzas” após a morte, e Spoiler (2024), que se passa nos anos 1970, mas aborda temas da atualidade como gênero, raça e preconceito.
— Até os 75 anos, nunca pensei em escrever absolutamente nada. Aliás, eu tinha uma dificuldade terrível de fazer qualquer qualquer memorando, qualquer carta — conta Fernando, em meio a risadas.
Continua depois da publicidade
O quarto livro se chama “O Cão e o Velho”. A obra para a qual Fernando dedica cerca de seis horas do seu dia — às vezes até esquecendo de comer quando engata na escrita, é uma espécie de homenagem ao cachorro de estimação, que Fernando adotou há sete anos em Florianópolis, o Brow.
Conheça Fernando, as obras e Brow
A nova história que Fernando escreve é pouco convencional: se passa pelo ponto de vista do cão.
— O velho é só um personagem extra. É o cão que vai contando toda a história do começo até o fim. Eu já escrevi umas 120 páginas, passei da metade do livro e estou empolgadíssimo — compartilha.
Quando questionado se a obra reflete a relação dele com Brow, ele diz, contente: “é uma história sobre um cão e um velho. Nós somos um cão e um velho. Mas também há muitos cães e velhos por aí”.
Continua depois da publicidade
Engenharia literária
Mesmo que tenha trocado de profissão “radicalmente”, Fernando pode dizer que aplica certas práticas da engenharia, formação que concluiu na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, à literatura. É o que ele chama de “engenharia literária”.
— Aqui, na minha mesa de trabalho, eu vou fazer um projeto [literário] como se fosse um projeto de engenharia. Eu escrevo em qualquer ordem, não consigo escrever do começo até o fim. Eu tenho uma ideia central, começo no meio, depois vou para o fim, depois volto para o começo. Vou interligando as coisas. É uma vantagem, como se eu estivesse fazendo um prédio, uma obra — conta.
Antes da literatura: conheça a história de Fernando Machado
A infância de Fernando foi no bairro da Vila Mariana, capital paulista, repleta de brincadeiras. A adolescência, embora marcada por um certo descuido com os estudos, rendeu a ele o ingresso em Engenharia Civil, na Mackenzie.
— Eu, como aluno, fui muito mal. Muito mal. Tanto é que eu eu entrei nos últimos lugares de vaga que tinha, e escolhi Engenharia Civil porque só tinha ela. Mas eu sempre fui muito criativo — relata.
Continua depois da publicidade
O período da universidade foi muito bom na vida do escritor, porque rendeu uma paixão e muitas amizades, que o motivaram a abrir um bar chamado “Toca do Popeye”, onde estudantes se reuniam para beber e discutir política.
Essa criatividade que já estava dentro de Fernando e hoje em dia se reflete nas obras ficcionais também estava presente na engenharia. Na vida adulta, trilhou uma carreira bem-sucedida como engenheiro especialista na construção de pequenos túneis, que o levou a juntar patrimônio suficiente para aposentar-se precocemente.
Fernando se casou com o amor da faculdade, teve três filhos e aventurou-se na área cultural, abrindo um centro dedicado à música e ao cinema. Ele se apaixonou novamente após terminar o casamento que, embora rico em companheirismo e respeito mútuo, não tinha mais amor. Após isso, viajou bastante pelo mundo e mudou-se, na velhice, para Florianópolis, onde se dedica a escrever romances.
Após o falecimento da segunda esposa, companheira de viagens, o cachorrinho Brow o ajudou com o luto.
Continua depois da publicidade
Jornada com o alcoolismo foi semente para ofício de escritor
Ao ter problemas com o alcoolismo, Fernando contou com o suporte e orientação dos Alcoólicos Anônimos (AA). O trabalho desenvolvido com eles para combater o vício pode ser considerado a semente para o ofício de escritor que viria a adotar anos depois.
— Um dos passos sugeridos pela comunidade voluntária no caminho para a sobriedade é fazer um inventário moral minucioso e destemido de si mesmo — conta.
Fernando tentou fazê-lo, em vão, durante muito tempo, e quando incitado pelo psicoterapeuta, desbloqueou algo que já estava presente nele.
Atualmente, além da escrita, Fernando mantém intacto seu genuíno interesse pela vida através da prática de atividade física diária, sobretudo pilates, caminhadas pelo Ribeirão da Ilha ao lado do pet, e visitas periódicas aos três filhos, em São Paulo.
Continua depois da publicidade
*Sob supervisão de Andréa da Luz
Leia também
Conheça a história e as polêmicas da “Sereia da Lagoa”, de Florianópolis
FOTOS: Conheça a história de Ivete, dona do sebo mais antigo do Centro de Florianópolis