Uma roda com dezenas de pessoas se formou na areia da praia da Guarda do Embaú, em Palhoça, na manhã desta segunda-feira (20). Primeiro, elas deram as mãos e, depois, seguiram para o Rio da Madre, que desagua na praia que tem um mar conhecido pelas ondas fortes e a água gelada. A maioria vestia camisetas brancas com a mensagem “#Ricardinho #MaisAmor, #paz e #justiça”, com a foto de Ricardo dos Santos, conhecido como Ricardinho, surfista assassinado há exatamente 10anos, no dia 20 de janeiro de 2015.

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As homenagens aconteceram no mesmo bairro em que Ricardinho morava e foi baleado com três tiros na frente de casa no dia 19 de janeiro de 2015. O autor dos disparos foi ex-policial militar Luis Paulo Mota Brentano, que foi julgado e condenado no dia 16 de dezembro de 2016 a 22 anos de reclusão pela morte do surfista. Em 2017, no entanto, a pena passou para 17 anos e seis meses de reclusão em regime fechado, e sete meses e 15 dias em regime semiaberto.

Ricardinho chegou a passar por quatro cirurgias, mas não resistiu e morreu por conta de uma parada cardiorrespiratória e pelas hemorragias causadas pelos tiros um dia após o crime. Brentano, na época, estava de férias na Guarda do Embaú e discutiu com o surfista após ele pedir para que o policial retirasse o carro do local. Exames mostraram, à época, que o acusado estava embriagado.

O homem tentou, ainda, junto ao advogado, apresentar uma tese sobre ter agido em legítima defesa, que não foi aceita.

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Agora, amigos, familiares e quem acompanhava de perto o primeiro surfista da Guarda do Embaú que saiu para o mundo, participando de ligas mundiais desde 2008, se apoiam para suportar a saudade deixada por Ricardinho.

“Lembranças como um furacão”

Para a mãe de Ricardinho, Luciane dos Santos, o dia 20 de janeiro é uma retrospectiva do pior dia de sua vida. Ela também estava na praia da Guarda do Embaú, encabeçando as homenagens para o filho nesta segunda-feira. Nascido no dia 23 de maio de 1990, Ricardo tinha 24 anos quando teve a vida ceifada há 10 anos.

Luciane conta que, para ela, o tempo passou rápido demais e que “as lembranças vêm como um furacão”.

— As lembranças desse dia são nítidas. São lembranças que não gostaria de ter no meu coração — diz.

A falta que Ricardinho faz ainda é latente na vida da mãe e de toda a família, mas Luciane ressalta que os assuntos relacionados ao filho são todos ditos com alegria, já que o surfista “deixou lembranças de momentos lindos, que fazem substituir a dor pela gratidão”. Carregar cada lembrança dos dias felizes vividos ao lado do rapaz é o que alivia a mulher.

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— Tenho meus filhos e agora um neto que amo muito, bons amigos que nunca me abandonaram… isso me fortaleceu para seguir em frente. Sou grata por todos estarem sempre comigo — agradece.

Filho responsável, surfista talentoso

Luciane lembra que o filho sempre foi muito focado e responsável, e sabia exatamente o que queria para a vida. Tanto ela quanto Ricardinho acreditavam no potencial dele como atleta. Ao falar do rapaz como filho, a mulher lembra dele como uma pessoa cuidadosa e sempre preocupada com a família.

A relação com os familiares e irmãos também era exemplar, segundo Luciane. Educado e carinhoso, Ricardinho sempre foi muito brincalhão e adorava assustar a mãe.

No dia do ocorrido, o avô de Ricardinho, Nicolau, estava presente ao lado do neto. Em entrevista ao repórter André Lux, da NSC TV, ele conta que ainda “consegue ver ele na sua frente” quando lembra do surfista. O que o conforta, segundo ele, é saber que o neto era muito amado por todos e “se dava bem com todo mundo”.

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Também em entrevista, o irmão do surfista, Martin Bianchi, diz que tem certeza de que Ricardinho está muito feliz com as homenagens.

— Fico muito feliz que ele não será esquecido por ninguém, sempre será lembrado por muitas coisas boas. A homenagem foi muito linda, fico feliz de saber que o pessoal está se reunindo — diz o irmão.

O tio, Mauro da Silva, também diz que Ricardo faz falta, e que mantem contato com os amigos surfistas do sobrinho, assim como Luciane. Para ele, Ricardinho foi o primeiro atleta de surfe da Guarda do Embaú que conseguiu ser profissional e viver, de fato, do esporte.

Ricardinho foi vencedor dos prêmios Wave Of The Winter e Andy Irons. Começou a surfar aos sete anos e, aos 12, disputou o primeiro campeonato estadual. Em 2013, foi para o Taiti. Com feitos importantes, o surfista também teve visibilidade ao eliminar o campeão do mundo, Kelly Slater, em uma competição.

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No Wave Of The Winter, foi o primeiro brasileiro da história a vencer ao ter uma onda premiada como a melhor da temporada no Hawaii.

Sem ódio ou revolta

Luciane diz que não procura nenhuma informação sobre a prisão do ex-policial militar que atirou no filho. Sobre ódio ou revolta do homem, a mãe de Ricardinho diz que o coração não tem espaço para esses sentimentos, já que isso não trará seu filho de volta.

— Não sou eu que tenho que perdoar, Deus está aí para isso. Não sinto nada por essa pessoa, porque a dor da saudade e da perda já é o bastante em meu coração — destaca.

Em maio de 2020, o ex-soldado da Polícia Militar teve a saída da prisão na Penitenciária Industrial de Joinville liberada para o regime semiaberto. Não há novas informações sobre o andamento do caso.

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O NSC Total entrou em contato com advogado de Brentano, mas não teve retorno até a publicação deste material. O espaço segue em aberto.

Veja fotos da homenagem

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