Englobando o Morro do Cambirela, nos anos 1970, foi criado o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, através da lei 1.260 de 1º de novembro de 1975. É a maior unidade de conservação de proteção integral de Santa Catarina com 84.130 hectares. No local, a fauna e a flora se destacam com espécies raras, que se tornaram símbolo da região.

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Formado em Ciências Biológicas e mestre em Ecologia, o biólogo Marcos Eugênio Maes coordena o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, administrado pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA). Ao lembrar que o Cambirela faz parte do maciço do tabuleiro, destaca o potencial paisagístico do Morro, um oásis da Mata Atlântica.  

— É impressionante, pois a gente está quase no nível do mar. Subindo 900 metros, se tem um visual único de partes do litoral, do interior e da Serra. É incrível isso tudo estar diante dos nossos olhos — observa.

Veja a reportagem especial “Kamby-reya: memórias e personagens do Morro do Cambirela” 

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O fato do Morro começar baixo e terminar alto ajuda na variedade de espécies de animais e de plantas. O chamado gradiente de ambiente — temperatura, altura e altitude — leva à diversidade de árvores, como imbuia, peroba e canela-preta, ameaçadas de extinção. Tem ainda palmito, igualmente em risco de desaparecer da Mata Atlântica.

Por se tratar de uma região úmida, há variedade de bromélias e orquídeas. O vento e os passarinhos se encarregam de espalhar sementes e, por isso, são comuns árvores frutíferas, como goiaba, araçá e pitanga. Também chama a atenção a quantidade de xaxim. Para quem deseja desafiar-se morro acima, o biólogo faz alertas:  

— É preciso preparo, planejar uma trilha, conhecer o trajeto e estar consciente das dificuldades para não ser surpreendido durante a caminhada. Tem coisas básicas: usar protetor solar, roupas leves, calçados fechados e estar bem alimentado.

Vídeo conta a história do Morro do Cambirela

Anta, a queridinha do parque 

Com um pouco de sorte, quem for ao Centro de Visitantes, no interior do Parque da Serra do Tabuleiro, em Palhoça, na região da Grande Florianópolis, pode ter o privilégio de conhecer uma anta, animal símbolo do lugar. No começo das manhãs e final de tarde, alguns desses mamíferos gordinhos costumam se aproximar. Animais herbívoros, alimentam-se de frutas, plantas, folhas, cascas e galhos. 

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Em geral, nasce um único filhote de uma gestação que dura entre 13 e 14 meses. Quando pequenos, os animaizinhos possuem manchas brancas que servem de camuflagem contra predadores, mas as marcas vão desaparecendo e até os seis meses já perderam a coloração.

Confira os animais que fazem parte da Serra do Tabuleiro

Na sede, os passeios agendados são guiados por profissionais e ocorrem por trilhas educacionais. Além de antas, é possível encontrar pelo caminho outros animais, como lagartos e jacarés. Se por acaso nenhum animal “de verdade” aparecer, como dizem as crianças, no local há um rico acervo com fotografias, vídeos, esqueletos, cobras em vidros e aves empalhadas.

A estrutura comporta auditório, escritórios, sala de exposições osteológicas, cozinha e banheiros. No local são realizadas trilhas educativas (nível fácil) para observação da flora da Restinga da Baixada do Maciambu, monumento geológico dos cordões arenosos, avistamento da fauna que habita a região e seus vestígios, além de aspectos ecológicos e culturais do local.

Além das trilhas, o espaço conta com mirante, área de lazer para realização de piqueniques e a Casa Açoriana, onde são desenvolvidas oficinas, atividades educativas e eventos. O local não possui restaurantes ou lanchonetes. Mas não esqueça: é recomendado o uso de repelente de insetos, protetor solar e calçados fechados.

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A Serra do Tabuleiro também tem uma biodiversidade geológica e cultural, como os povos tradicionais indígenas, pescadores e extrativistas.

— Eu diria que o Tabuleiro, onde está inserido o Cambirela, tem diversidade ambiental, geológica, social, de flora e de fauna. Então é o paraíso, não? — brinca o biólogo Marcos Eugênio Maes.

O sapinho descoberto por meio do canto 

Uma das espécies endêmicas, aquelas que habitam áreas restritas da Serra do Tabuleiro, é o sapinho pingo-de-ouro-do-tabuleiro (Brachycephalus tabuleiro) que vive em montanhas acima de 800 metros de altitude. 

O animal, de cor verde e do tamanho de uma unha, foi descoberto em 2015. A descrição da nova espécie foi feita em 2023, pois foram necessários anos de pesquisa para “batizar” formalmente a espécie. O achado resultou do trabalho de sete cientistas de diferentes instituições de pesquisa do país.

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— Ouvimos um canto de anúncio de um anfíbio que chamou a atenção da equipe. Desconfiávamos que poderia pertencer ao sapinho-pingo-de-ouro do gênero Brachycephalus — explica Sarah Mângia, bióloga especialista em sapos, que liderou o estudo, e pesquisadora na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Os anfíbios, observa a pós-doutoranda da UFMS, utilizam a vocalização para se comunicar em diferentes contextos. O canto mais comum é o chamado “canto de anúncio”, emitido apenas pelo macho para atrair as fêmeas. Ou seja, as fêmeas são atraídas apenas pelo canto do macho da mesma espécie.

Sobre o momento da descoberta do sapinho, a professora relata que foi necessário contar com o conhecimento:

— Com anos de experiência em campo, nós, os biólogos, acabamos “decorando” o canto de cada espécie. E espécies aparentadas (da mesma família ou gênero podem ter o canto parecido). Por isso, quando escutamos o canto do sapinho-pingo-de-ouro, sabíamos que aquela vocalização poderia pertencer a uma nova espécie de anfíbio porque ainda não havia registro do gênero Brachycephalus naquela região.

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Do sapinho raro ao xaxim, Morro do Cambirela é berço de espécies raras e exóticas
Sapinho pingo-de-ouro-do-tabuleiro encontrado na região da Serra do Tabuleiro (Foto: Leandro Oliveira Drummond)

Conforme Sarah, estudos mostram que cada topo de montanha abriga uma espécie diferente do gênero.

— Por isso, partimos para a busca seguindo a vocalização (que é bem baixinha e tímida), empolgados com o que poderíamos encontrar. Tivemos certeza de que se tratava de uma nova espécie após analisar a gravação do canto em programas específicos, estudar a morfologia óssea e o DNA dos sapinhos — diz.

A descoberta reforça a importância em se preservar áreas como a Serra do Tabuleiro. Ocorre que, como é comum com muitas espécies do gênero Brachycephalus, os sapinhos-pingo-de-ouro tendem a ser endêmicos de áreas montanhosas (altitudes acima de 800 metros) e possuem uma pequena área de vida, sendo pequenos e com baixa vagilidade (baixa capacidade de locomoção).

As montanhas funcionam como um cenário de ilhas de altitude (áreas elevadas que apresentam condições ambientais distintas das áreas mais baixas), sendo que mesmo em áreas próximas geograficamente, cada topo pode abrigar uma espécie diferente de Brachycephalus. Mas, exatamente onde eles estavam, ainda não havia nenhum registro do sapinho-pingo-de-ouro.

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A bióloga, no entanto, faz um alerta:

— Ainda que não existam muros entre as montanhas do Tabuleiro, para esses pequenos seres existem “muros climáticos e de altitude”.

Sendo assim, se considerarmos que a região e o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro enfrentam conflitos fundiários e atividades antropogênicas, como apicultura, pecuária e plantio de eucalipto, é possível que essa espécie esteja ameaçada.

Expedições futuras poderão revelar novas espécies

Para a pesquisadora, por ser a Serra do Tabuleiro uma das maiores áreas de Mata Atlântica do Sul do Brasil com grande potencial para abrigar espécies já conhecidas e ainda não descobertas, futuras expedições podem trazer significativos resultados:

— Certamente, a região abriga espécies de anfíbios e outros grupos de animais que ainda não foram formalmente descritos.

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Desde 2015, não houve mais estudos sobre o Brachycephalus tabuleiro. Neste ano, foi descoberta uma outra espécie do gênero, o Brachycephalus herculeus, endêmico da Serra do Desengano, no norte do Rio de Janeiro. Sendo assim, o sapinho pingo-de-ouro-do-tabuleiro segue se impondo com seu canto no território catarinense.  

O perigo dos incêndios rodeia o Cambirela 

Ocorrências de incêndios têm sido comuns no Cambirela, principalmente no calor, quando a vegetação se encontra seca. A baixa umidade relativa do ar contribui em locais com vegetação seca e rasteira e às margens de rodovias. Focos surgem a partir de materiais como caco de vidro exposto à radiação solar ou um toco de cigarro. O terreno íngreme e a velocidade do tempo sempre dificultam as operações de combate.

Em abril de 2020, o topo foi atingido e os bombeiros precisaram usar uma bolsa de captação de água, a chamada bambi bucket, para apagar as chamas.

— Quem sobe o Cambirela é chamado a seguir regras essenciais para a preservação e continuidade do maciço: é proibido acampar, fazer fogueiras (churrasco) e andar com grupos numerosos. Existem ações individuais importantes, como cada um cuidar do seu lixo. Também não se deve alimentar os animais e não ter contato direto com a fauna — lembra o biólogo Marcos Eugênio Maes.

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No interior do parque, a preocupação também é grande:

— Não temos equipes para manter em todas as trilhas. Temos feito fiscalizações, mas nossa aposta maior é na educação das pessoas e na parceria com os condutores, sempre nas trilhas, e nos apoiando nesse trabalho de informação.

De acordo com o coordenador, são feitas publicações frequentes nas redes sociais — e sempre que possível em outras mídias — reforçando as regras, para que o próprio usuário as conheça e se responsabilize.

Confira imagens do Morro do Cambirela

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