Julho foi o mês mais frio do ano. Depois de junho com temperaturas acima da média e uma frente fria que provocou chuva em muitas cidades de Santa Catarina, a sequência foi com termômetros despencando. Houve temperaturas abaixo de zero em vários municípios, e uma sucessão de dias que não se via há muito tempo, com geada e vento, trazendo sensação maior de frio. Se esse clima castiga moradores já acostumados às agruras do inverno no sul do país, mais ainda quem se mudou há pouco tempo para o Estado, vindo de regiões muito quentes e de lugares onde só existem duas estações do ano.

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Essa é a realidade dos migrantes do Norte do país, gente que desembarca em busca de emprego e melhor qualidade de vida para suas famílias. Brasileiros que encontram no rigor do inverno uma das primeiras – e desafiadoras – dificuldades a serem enfrentadas.

“Um sol para cada um”

Este é o terceiro inverno de Lubna Rodrigues em Santa Catarina. Desde 2022, quando se transferiu de Belém, a capital do Pará, a acadêmica de Recursos Humanos experimentava a mudança acentuada entre o inverno amazônico, marcado por chuva, e o do sul do país, com geada e flocos de neve. Mas nada tão radical como em 2024.

— Nunca senti tanto frio como neste mês de julho. No Pará é tão quente que a gente diz: “tem um sol para cada um” — conta a técnica em RH que trabalha na Associação paraense em Florianópolis e região (Assompa), entidade sem fins lucrativos, com sede em Palhoça, na Grande Florianópolis.

Lubna chegou em 2022 sabendo sobre o rigor do inverno no Sul do Brasil. Ainda assim, conta que se surpreendeu com as baixas temperaturas.

— A gente, acostumada com pouca roupa, teve que se render: precisa por casaco, luva, touca. Aqui, é um frio seco. Lá, a umidade é 94%, 95%, e muito abafado.

Na associação, Lubna trabalha com os migrantes paraenses. Ela dá suporte na organização de vagas nas empresas parceiras e ajuda a elaborar currículos. Nos últimos dias, tem escutado muitas queixas sobre o frio. Sendo assim, procura lembrar aos conterrâneos que o frio é passageiro e possível de ser enfrentado. Costuma usar da própria experiência para acalmar aqueles que parecem oscilar entre a permanência em Santa Catarina e o desejo de retornar para o Norte.

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— Aqui, o mercado remunera melhor, não é tão exigente e opta mais em dar oportunidade do que em exigir experiência. No Pará, a remuneração é baixa e pede tempo de trabalho.

Veja como é a rotina de quem chega do Norte do país a SC

Frio dificulta adaptação

Regiane Pimentel, presidente da Assompa, observa que o clima é o primeiro impacto da mudança. À frente da entidade, conta que acompanhou migrantes dispostos a voltar por não conseguirem se adaptar.

— O frio assusta muito, pois é uma coisa muito diferente do que a pessoa vivia. Além disso, muitos chegam à própria sorte, com uma mochila nas costas. Os migrantes são pessoas humildes que vêm em busca de emprego, e não estão agasalhados, preparados, como se viessem fazer turismo, conhecer a paisagem no Sul — diz.

Foi por causa da necessidade dos conterrâneos que surgiu a ideia de receber doações. As roupas são expostas num varal ao lado da sede, no ginásio da AERPI (Associação Esportiva Recreativa Ponte Imaruim), de segunda às sextas-feiras, das 8h às 18h.

Os paraenses precisam principalmente de cobertores e de lençóis, pois na terra natal os hábitos são diferentes, e muitos dormem em redes, não tendo cobertas de cama. Apesar das dificuldades, Regiane acredita que a associação tem ajudado também a dar mais esperança aos migrantes.

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— Retornar é carregar um sentimento de derrota, de frustração. Sempre que posso, eu oriento a tentar todas as oportunidades antes de pegar o ônibus de volta. Mas concordo num ponto: esse inverno tem sido crítico.

Nova rotina em SC

Em 19 de abril, quando desceu do avião no Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis, Cristina Moraes teve a sensação de que estava entrando dentro do ar-condicionado. Para quem tinha deixado a úmida e abafada Manaus com 30°C, os termômetros marcando cerca de 20°C e a brisa na Ilha de Santa Catarina provocaram um frio na espinha.

Três meses depois, ao enfrentar a massa polar que em julho fez despencar os termômetros por dias a fio para 5°C a 6°C, Cristina não teve mais dúvidas: na chegada fazia até um certo calorzinho.

Nascida na beira do rio Amazonas, Cristina mora com o marido e os filhos em Forquilhas, bairro de São José, na Grande Florianópolis. A rotina é pesada: levanta-se às 5h, trabalha das 6h às 15h, percorre uma hora de ônibus até retornar para casa e organizar a vida das crianças com cinco, sete e nove anos.

Aos poucos, as diferenças do vocabulário que chama macaxeira de aipim se tornam mais compreensíveis, assim como vai esfriando a saudade dos peixes de água doce. O que segue difícil é acostumar-se com o frio.

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— Em Manaus, dificilmente faz menos de 40 graus. Lá, ar-condicionado não é artigo de luxo. Tem que ter, se não a pessoa não consegue dormir à noite — conta.

Cristina revela que a família teve ajuda das pessoas: ganharam um aquecedor elétrico e roupas.

— Eu cheguei apenas com uma blusa, pois lá nem vende roupas pesadas, nem mesmo para as crianças.

A pele da família mudou com o frio catarinense: precisou de hidratante. Cristina entendeu que ela e os filhos não suam como antes, mas que apesar disso precisam tomar água.

— Parece que a gente nunca tem sede.

Violência força migração

Nos últimos anos, além do clima ter ficado mais quente em Manaus, a falta de segurança também forçou a movimentos migratórios. Cristina conta que a partir de 2018 a violência se intensificou na capital amazonense. Ao ponto que, para ir ao colégio, as crianças do bairro tinham escolta da polícia, já que as facções se transferiram para o Norte do país.

Para a comerciária, que trabalha numa padaria e mercearia, é mais fácil enfrentar o clima severo do que o crime organizado:

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— Aqui, a gente protege as crianças como pode, com cobertor e casaco. Lá, é difícil criar filhos, pois muitos são cooptados para o mundo das drogas.

Todas as estações do ano

Nascida em Macapá, capital do Amapá, Yane Sandim é professora da Educação Especial em Florianópolis. Para enfrentar o atual inverno catarinense, a família comprou um aquecedor e casacos para as crianças.

— Neste ano, até o nosso cachorro sentiu mais frio do que no ano passado: ele tremia todo — explica.

A imunidade das crianças também baixou e elas adoeceram. Com asma, Mariana, nove anos, foi quem mais sofreu. Kim, de sete anos, ficou gripado.

Em Macapá, cidade conhecida pelo Marco Zero, linha imaginária que divide a cidade nos hemisférios Norte e Sul, a realidade do clima é outra. Yane ainda se surpreende:

— Aqui, vocês têm todas as estações do ano. Lá, o frio para nós é 25 graus. É colocar uma jaqueta jeans e se está protegido — conta.

Os amapaenses convivem com a chamada estação quente, entre agosto e dezembro, quando a temperatura média é de 33°C. Já na estação fresca, de janeiro a abril, a máxima diária é de 31 graus Celsius. Para se ter uma ideia do extremo, fevereiro é considerado o mês mais frio do ano, com mínima de 24 graus e máxima de 30 graus.

As crianças lembram do dia em que chegaram a Joinville: fazia sete graus e chovia. Mas foi o granizo que impressionou. Foi a primeira vez em que elas tocaram nas “pedrinhas que cabiam na palma da mão”. Foi uma grande novidade.

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— A gente nunca tinha visto granizo, fazia um frio intenso e as crianças não estavam com roupa adequada: saímos de Macapá com 40°C e na primeira noite em Santa Catarina enfrentamos 7°C — diz Yane.

Nessas férias escolares, a família viajou para São Paulo. O sonho de conhecer a neve na Serra catarinense segue guardado. Mas diferente do que ocorreu cinco anos atrás quando desembarcaram, os Sandim estão com o vestuário pronto: as gavetas guardam toucas, luvas, meias, botas e casacos impermeáveis.

Emprego formal compensa o clima

A presença de migrantes paraenses em Santa Catarina faz parte das estatísticas do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados mostram que filhos de mães paraenses representam 2,2% dos nascimentos no Estado catarinense, colocando o estado do Norte do país como o quarto com o maior número de mães, atrás apenas dos nascidos com mães de origem dos vizinhos Paraná (9,4%), Rio Grande do Sul (7,9%) e São Paulo (3,1%).

Outro trabalho que referencia esse movimento migratório é o da professora Andréa Bittencourt Pires Chaves, titular da Universidade Federal do Pará (UFPA). Em 2022, Andréa, que atua na Faculdade de Ciências Sociais e no Programa de Pós-graduação de Sociologia e Antropologia, publicou a pesquisa “População em deslocamento: a força de trabalho paraense em Santa Catarina”. O movimento, explica, tem como motivo principal o emprego formal com carteira assinada.

Conforme a pesquisadora, a imensa maioria de migrantes já chega com vaga garantida em Santa Catarina, o que quase sempre passa pela indicação de um familiar ou amigo que já está no Estado.

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— No Pará, o nosso inverno é extremamente quente e úmido. Nos relatos, os migrantes dizem que mesmo se deparando com o clima muito frio, compensa o fato de ter emprego com estabilidade.

A professora, que reconhece a mudança dos hábitos culturais dos paraenses no Sul do país, brinca sobre o costume de tomar açaí.

— Eu diria que buscando qualidade de vida por meio de um emprego e garantir um salário, os paranaenses se protegem do frio e abrem mão de tomar açaí todo dia.

A pesquisadora também ouviu dos migrantes elogios sobre os serviços públicos em Santa Catarina, como transporte, saúde e segurança.

— Mesmo se deparando com um inverno mais rigoroso, as famílias consideram que a eficiência desses serviços é positiva — diz.

Impactos do frio na saúde

Renata Zomer de Albernaz Muniz é médica infectologista e diretora-geral do Hospital Nereu Ramos, referência estadual em Infectologia em Santa Catarina. Ela explica que quanto mais rigoroso o inverno, maior a chance de as pessoas enfrentarem doenças respiratórias, como gripes, e o agravamento de outras, como rinites, asma e alergias.

A exposição prolongada ao frio costuma afetar a saúde de todos nós, mas pode impactar mais ainda quem não está acostumado ao clima.

— O corpo humano se adapta a diferentes situações, porém, quem não está acostumado pode demonstrar maior sensibilidade às mudanças e correr maior risco de doença, pois o sistema imunológico pode dar uma resposta diferente e tornar pessoas vindas do Norte e do Nordeste, por exemplo, um pouquinho mais suscetíveis às infecções.

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Para a médica, a dica para os migrantes é buscar uma boa alimentação, hidratar-se e evitar exposição prolongada ao frio. Além disso, em dias de frio, vestir-se “em camadas”, com casacos mais pesados, que podem ser retirados à medida que fica mais quente. Extremidades como cabeça, mãos e pés devem ser protegidas com touca, cachecol, luvas, meias.

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— Aquecer o ambiente também é importante, mas é preciso lembrar sobre a necessidade de manter uma boa ventilação para evitar infecções transmitidas por gotículas via espirro e tosse. Além disso, é bom evitar choque térmico, quando se está num lugar muito quente e vai para um gelado.

A médica orienta ainda sobre uma arma importante acerca de doenças infecciosas causadas por vírus, como gripes e Covid: a vacina.

— É superimportante a gente falar sobre a necessidade de se vacinar. Os postos de saúde estão aí e conseguindo atualizar a carteirinha de quem procura e isso vale para todos os brasileiros, o que é feito com ajuda do CPF, independente do lugar de onde a pessoa chegou — observa a infectologista.

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