Eliazar Branger saiu de casa, em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, quando a água batia no peito dele. Janaína Perla, em Blumenau, perdeu o pouco que tinha durante a cheia que invadiu a residência onde morava com os filhos. Em comum, as duas famílias têm o fato de fazerem parte de um grupo de um milhão de pessoas que ficaram desabrigadas ou desalojadas durante desastres em Santa Catarina ao longo dos últimos 20 anos.

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Conforme dados do governo federal, o Estado é o primeiro entre as regiões Sul e Sudeste neste quesito, à frente de Minas Gerais (857 mil) e do Rio Grande do Sul (847 mil).

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As informações são do Atlas Digital, plataforma que reúne as notificações das Defesas Civis estaduais ano a ano. Entre 2004 e 2023, 1,05 milhão de catarinenses ficaram desalojados ou desabrigados em desastres hidrológicos (54% dos casos), meteorológicos (24%) e climatológicos (20%). Na primeira categoria estão as enchentes, alagamentos, enxurradas, deslizamentos e chuvas intensas. Na segunda, granizo, vendavais, tornados e ondas de frio.

Já entre os eventos climatológicos estão as estiagens e incêndios florestais.

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Mais da metade das tragédias que tiram os catarinenses de casa às pressas estão relacionadas às chuvas por conta de uma série de fatores, como a posição geográfica do Estado onde se chocam as massas de ar quente e frio. Só isso é o suficiente para a formação de eventos meteorológicos extremos, lembra a professora de Oceanografia Física e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues. Na receita, a soma das mudanças climáticas que potencializa os fenômenos e o aumento populacional formam a combinação perfeita para o triste cenário.

— Quanto maior a população, mais exposta ela fica e mais pessoas moram em áreas de risco — analisa a pesquisadora.

Um estudo comandado pelo Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC) divulgado neste ano mostrou como o uso indevido do solo deixa municípios suscetíveis aos desastres naturais no Estado. Dos 100 municípios avaliados, o TCE identificou que pelo menos 74 não têm cadastro das famílias residentes em áreas de risco; 36 municípios não tem fiscalização regular dessas áreas e pelo menos 13 não possuem estruturas formais de Defesa Civil.

Veja fotos de uma das enchentes de Rio do Sul em 2023

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Para Regina, quando o assunto são os desastres, é preciso pensar nas cidades como pessoas: em vez de agir somente quando a “doença” já ocorreu e é grave, investir em prevenção e planejamento, que no fim se torna mais barato.

— É evitar porque lá na frente vai ser mais caro e só vai existir o “tratamento paliativo” — afirma.

Não existe fórmula mágica para amenizar o impacto dos desastres, mas há caminhos já exaustivamente repetidos pelos cientistas: controle de ocupação em áreas sensíveis, investimento em tecnologias para gerar desenvolvimento sustentável, recuperação de áreas degradadas e preservação.

— Não dá para usar todos os recursos que são preciosos para nós e para as gerações futuras — alerta Regina.

Nas últimas duas décadas, 261 catarinenses morreram em desastres (veja os anos mais fatais no gráfico acima) e quase 20 mil ficaram feridos.

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