Nas páginas do livro “Canto de Rainhas” (Agir, 2021), o jornalista Leonardo Bruno traça um panorama sobre a história do samba através das cantoras, mostrando as dificuldades que enfrentaram apenas por serem mulheres. Numa das passagens, Dona Ivone Lara (1947-2018) diz que desfilava como baiana no Carnaval do Império Serrano, e não entre os compositores, porque a roupa era mais bonita. Mas, na verdade, se aborreceu ao tentar cantar os sambas na quadra e ser sempre deixada para o final das apresentações. Por fim, também não aceitava ter que omitir o nome e colocar a obra como se fosse criação de um homem.
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Foi um tempo de luta, até que em 1965, entraria para a história se tornando, oficialmente, a primeira mulher a figurar na ala de compositores de uma escola de samba. O pioneirismo resultava do machismo estrutural que atrapalhou a carreira artística de Dona Ivone.
Com o Carnaval batendo à porta, a reportagem mostra a realidade das mulheres que em blocos, fanfarras, bares, coletivos e escolas de samba se tornam cada vez mais protagonistas na cena musical de Florianópolis e em outras cidades do Estado, como Blumenau e Joinville. Apesar das desigualdades de gênero que impõe obstáculos à participação mais efetiva (cuidar da casa, dos filhos, de pais idosos, cachês inferiores ao dos profissionais homens, falta de tempo para estudar e ensaiar) as mulheres reconhecem avanços.
– Comecei no choro, nos anos 1980. Era a única mulher entre seis e sete homens. Sabe aquela história de você chegar com o violão e alguém perguntar se você está segurando o instrumento para o irmão, namorado, amigo? Hoje temos a Roda de Choro Mulheril, um coletivo musical feminino formado por instrumentistas e que toca aos sábados no Centro Histórico de Florianópolis e na Trindade – diz Ana Claudia de Oliveira Segura, do Espaço Cultural Wagner Segura.
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Qual o significado do nome dos principais blocos de carnaval de Florianópolis
Para Ana Cláudia, também professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apesar de muita coisa ter mudado é preciso avançar sempre mais.
– Acredito que esses coletivos femininos, que ganham força pelas redes sociais, atuam para combater o apagamento histórico de figuras femininas. Particularmente, me incomoda um pouco o fato de Neide Maria Rosa (1936-1994), locutora, radioatriz e cantora que ajudou a projetar a música catarinense no Centro do país nos anos 1960, ainda ser pouco conhecida em Florianópolis – observa ela.
Vestida de homem para participar do cortejo
Conhecer, respeitar, reverenciar e resgatar a caminhada das que vieram antes também está no coração de Eva Figueiredo. Para a clarinetista, cantora e compositora que entre outras coisas criou o bloco Filhas e Filhes de Eva no Jardim das Delícias e uma das idealizadoras da Fanfarra da Ponte, é quase uma imposição:
– Eu mesma comecei a tocar porque vi uma mulher da minha idade na época, Maria Beraldo, tocando clarinete. Maria Beraldo, filha da Silvia Beraldo, que acho ser a única mulher soprista em Florianópolis, a qual fez parte de uma vanguarda feminista, que formou muitas mulheres. Silvia Beraldo é uma dessas mulheres que precisa ser respeitada, pois é uma figura importantíssima nessa trajetória das mulheres na música – diz ela.
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Eva tinha 17 anos quando começou a estudar clarinete. Foi na Banda Filarmônica Comercial, uma entidade centenária do Centro de Florianópolis. Era a única mulher e tinha que vestir as roupas de homem para sair nos cortejos. Hoje, aos 38 anos e mãe, vê a transformação à medida que as mulheres chegam para estudar.
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Para Eva, essa mudança tem a ver com o próprio movimento feminista e a discussão não está apenas para o samba e Carnaval:
– Estamos diante de um pensar na questão dos direitos humanos.
Sobre a presença das mulheres no Carnaval, Eva acredita que esteja conectada a um fator nacional:
– Acho que Florianópolis está inserida neste movimento nacional, que é a retomada dos chamados bloquinhos do Carnaval de rua, tal qual Belo Horizonte e São Paulo. Nessa retomada, a fanfarra despontou, então fazendo esse diferencial e trazendo uma mudança: a mulherada veio tocar junto – conta ela.
A clarinetista é a única mulher entre a equipe de músicos profissionais responsáveis pelo projeto, o qual inclui um núcleo de estudos para formação de sopros e percussão.
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Ala de tamborins e de cuíca nas mãos delas
Sabe aquela história de ter uma escola para chamar de sua? Pois Mirella Calixto tem: a estudante de Administração de Empresas é a diretora da ala de tamborim da Dascuia, escola do Maciço do Morro da Cruz, e que neste ano tem enredo importante sobre a inclusão de pessoas com espectro autista.
– Estava na barriga da minha mãe e já era envolvida com o samba, uma tradição da família. Começamos na Os Protegidos da Princesa, pois somente depois nossa família fundou o Dascuia (2004). Se tenho um sonho? Estou realizando neste ano, ser diretora de ala. Sei que não é fácil, pois nós mulheres temos muitos desafios no mundo do samba, mas sonho um dia ser mestre de bateria – conta Mirella.
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Giovana Silva Dutra se dedica ao estudo da percussão. Foi pelas mãos do professor Fabrício Gonçalves que ela chegou ao Projeto Samba de Terreiro de Florianópolis, que faz rodas em espaços públicos, como a escadaria do Rosário, no Centro da cidade. Responsável pela ala de cuíca da escola de samba Dascuia, a moça está otimista com os reconhecimentos:
– Sinto-me feliz por integrar projetos desse porte. É uma alegria imensa saber que, apesar de não estar perfeito, as pessoas estão aceitando e respeitando mais a nossa participação. Quando comecei, 10 anos atrás, a situação era diferente – recorda Giovana.
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Canto terapêutico e o clarinete como leveza
Nascida no interior gaúcho, Bianca Backes cresceu vendo a mãe ouvir bons sambas. Mas foi ao sair para estudar e trabalhar em cidades maiores que a hoje jornalista entrou em contato com o gênero mais amado do país. Em 2009, quando chegou a Florianópolis, ela percebeu que além de gostar de ouvir, também apreciava dançar e cantar. De bar em bar, de show em show e de conversa em conversa, Bianca foi entendendo o quanto de revolucionário estava a viver.
– Foi desafiador ir para as aulas, fazer oficinas, perder a timidez com o palco e com o microfone sem me sentir-me obrigada a nada. Foi terapêutico – conta Bianca.
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Mãe solo e com dedicação quase que exclusiva ao filho, aos poucos a jornalista está voltando a frequentar os espaços do samba:
– Esse sentir-me à vontade está conectado com o grande número de mulheres presentes, o que me dá segurança. Nesses lugares conheci pessoas com histórias muito diversas da minha, mas acabei feliz com esses encontros porque também sei que para tantas outras não é fácil bancar um hobby em algo que sempre foi visto como algo do universo masculino.
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Quando criança, em Blumenau, Maiara Santos tinha uma tristeza: a escola onde estudava não tinha fanfarra. Hoje, ela que foi designer gráfico em jornal e atualmente trabalha com desenvolvimento de software, tratou de resolver o “trauma”: toca clarinete na irreverente Fanfara da Ponte, onde participa do núcleo de estudos. Boa aluna, ela está com agenda cheia para os dias de folia:
– Uma coisa chama a outra e estarei em seis blocos. Até abril do ano passado, eu não tinha tocado nenhum instrumento. Descobri que gosto demais do som do clarinete, principalmente no chorinho, que dá leveza. Também vou tocar com as Filhas de Eva – avisa.
Protagonismo é igual a flecha lançada
Da sabotada Dona Ivone Lara aos dias atuais, a presença das mulheres na cultura musical é como flecha lançada que não volta atrás. Mas é sempre bom lembrar de outra grande da nossa música, Tereza Cristina, a primeira mulher a interpretar o tema do Carnaval Globeleza, de Jorge Aragão e José Franco Lattari, famoso na voz de Neguinho da Beija-Flor:
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– O samba nasceu das mãos de uma mulher e foi tirado da nossa mão. Acho muito importante que a mulher volte a atuar no samba, em todos os setores, em todos os lugares. A reparação histórica empurra a gente para a frente. É muito bom fazer parte disso. A mulher é protagonista porque o samba, no Rio de Janeiro, chegou pelas mãos de uma mulher. Esse protagonismo era dela.
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E segue Tereza Cristina:
– É pegar de volta o que já foi nosso.
As mulheres catarinenses concordam.
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