“Como uma boa catarinense, fui de passo em passo, com um pé atrás do outro”, diz Helena Becke Machado Fretta sobre o sucesso da galeria que dirige há 32 anos, em Florianópolis. Desde que ela fundou o comércio de artes na Capital, muitas outras galerias já apareceram e foram embora, mas só a Helena Fretta resiste. Localizada na Rua Presidente Coutinho, 532, o casario do início do século XX com porta e janelas de vidro que expõem quadros e telas desperta a curiosidade de quem passa por lá.

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A galeria de arte foi fundada em 1992, com o nome “HF escritório de arte”. Inicialmente, ela ficava em um ponto pequeno na Beira-Mar Norte, antes mesmo da fundação do Beiramar Shopping, ponto de referência no coração da cidade.

Quem é Helena Fretta

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Quando o shopping inaugurou, um ano depois, Helena se recorda de ter ficado feliz, mas o marido, comerciante há anos, a contrariou.

— Quando estava abrindo o shopping, eu disse: “mas que maravilha, um shopping aqui!”, e meu marido disse: “não te iludas. Eu não vejo nada crescer em volta de shopping” — relembra.

O marido, com quem Helena vive no bairro Agronômica desde que se mudaram para Florianópolis, estava certo. O estacionamento da galeria passou a ficar tomado por carros de pessoas que não frequentavam o comércio de arte, e após algum tempo, o casal que alugava o local para Helena o pediu de volta, porque tinham um filho que era médico e queria abrir um consultório na Beira-Mar.

Foi aí que a galeria se mudou para o Centro da cidade, e passou a levar o nome de quem a dirigia: Helena Fretta.

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— Aqui, foi muito bom, foi muito melhor. Se alguém me perguntar o porquê, eu respondo: lá, eu tinha aquela vista maravilhosa do mar. Aqui, eu tenho uma vista maravilhosa de prédios. Lá, as pessoas passavam correndo de carro, olhavam e quando me encontravam, diziam: quando eu vi, já tinha passado. Aqui, as pessoas caminham — diz ela, bem-humorada.

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Na época, Helena e o marido tiveram que vender um apartamento para custear a compra do casario, mas valeu a pena. Ela até brinca que o comprou após a insistência de uma amiga, que a deu um ultimato: “ou você compra, ou eu compro”.

— É um conselho que eu dou para quem que está querendo começar um comércio de artes: seja dono do seu imóvel, o aluguel chega muito rápido, e o mês passa muito rápido — pontuou.

A história de Helena

Helena Fretta nasceu em Criciúma. Lá, passou a juventude, onde nunca se imaginou trabalhando com arte. O pai, Waldemar Machado, foi um dos donos da empresa Auto Viação São Cristóvão, e a mãe, Gerda Beck Machado, grande referência de Helena, foi a primeira mulher de Santa Catarina a ser Coordenadora Regional de Educação.

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Graças à mãe, Helena cresceu ouvindo sobre Antonieta de Barros, quem a educadora admirava.

— As pessoas resgatam Antonieta de Barros, mas eu me lembro de quando ela morreu. Tem pessoas que nunca tinham ouvido falar dela, mas eu já tinha ouvido falar desde a infância por causa da minha mãe — diz ela.

Helena, depois de crescer em Criciúma, se mudou com o marido, com quem se casou aos 18 anos, para Tubarão. Lá, atuou como professora de História, e foi graduanda da primeira turma de Estudos Sociais da Fundação Educacional do Sul de Santa Catarina, atual Unisul. Helena teve quase todos os filhos em Tubarão, quatro no total. Um deles é administrador e, atualmente, a ajuda com a galeria.

Ela deixou a cidade por Florianópolis, com o marido e com os filhos, após a grande enchente de 1974 que atingiu o Sul catarinense, incluindo Tubarão.

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À Capital, eles chegaram junto do comércio familiar, as lojas Fretta. Após 25 anos atuando como professora, inclusive na Capital em escolas como a Professora Otilia Cruz, na Coloninha, Helena, que diz ter começado tudo muito cedo, se aposentou.

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— Mesmo cinco anos antes de me aposentar, eu já pensava: “O que é que eu vou fazer agora?”. Meu marido era do comércio, mas eu não era. Sempre fui assim, não me dava bem — recorda.

Ela abriu a galeria ao se inspirar em uma amiga de Minas Gerais, que tinha um comércio de tapetes. Inicialmente, no entanto, Helena não tinha pretensão de ter uma galeria.

— Eu comecei despretensiosamente, tanto que o nome era escritório de arte, porque na realidade eu não pensava em ter uma galeria. Mas comecei a achar interessante, comecei a conversar e a ver alguns artistas. Fui em Minas Gerais, comecei a visitar outras galerias e as coisas foram indo. Aí comecei a trabalhar com outros artistas, fiz uma exposição e aumentei o espaço. Agora, cá estamos — diz, sorrindo.

Como é o trabalho de galerista

Helena está sempre em movimento. Estudando, conhecendo pessoas e conversando com artistas e colecionadores de arte. É assim, inclusive, que ela mantém o negócio: por meio de conversas.

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— Florianópolis está se movimentando um pouco em termos de arte. Eu vou te dizer o seguinte: qual é o meu objetivo agora? O meu objetivo é em cima do jovem colecionador — compartilha.

O jovem colecionador, explica Helena, é aquele que está começando e que não tem muitos recursos para adquirir as obras. Na galeria, uma das obras mais baratas custa cerca de R$ 900.

Em Florianópolis e em Santa Catarina, há muito poucos colecionadores, diz Helena, porque o hábito não faz parte da cultura catarinense. Um exemplo são os pais que levam os filhos à galeria, buscando fomentar a arte desde a infância.

— Quando entra um casal com uma criança na galeria, eu digo logo: “vocês são paulistas, não é?”, e sempre são. Catarinense não tem esse costume — afirma ela.

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Helena diz que gostaria que mais escolas da região levassem as crianças à galeria, e recorda com carinho de um dia em que uma turma da educação de jovens e adultos (EJA) foi à galeria.

— Eles gostaram, ficaram curiosos e fizeram muitas perguntas — comenta ela.

Ainda que mire nos colecionadores, jovens ou mais maduros, Helena incentiva que as pessoas visitem a galeria mesmo sem a pretensão de comprar.

— Não se entra só para comprar, as pessoas tem essa ideia errada sobre galerias. Venha conhecer o que nós temos, venha se apaixonar mais ainda pelas obras — apela.

A paixão pela arte, inclusive, é o que mantém uma galeria viva, diz ela. Desde que surgiu, várias outras apareceram em Florianópolis, mas não resistiram e fecharam as portas — seja por filhos que não continuaram o negócio após a morte dos pais, seja por problemas financeiros.

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Ainda assim, Helena não se mostra pretensiosa. Reconhece que o amor faz muito, sim, mas reafirma o privilégio de ser dona do próprio espaço, com uma humildade que vem somente de quem tem uma grande experiência no ofício.

Como é feita a curadoria?

A Helena Fretta prioriza artistas catarinenses, seguindo a ideia de mudar o cenário das artes visuais em Santa Catarina que, segundo ela, poderiam ser mais valorizadas tanto por instituições públicas quanto privadas.

Atualmente, a galeria representa mais de 30 artistas. Há ocasiões em que eles negam alguns artistas que os procuram. Segundo Helena, isso acontece porque eles ou ainda não estão preparados para estar em uma galeria, ou porque não têm uma “alma de artista”.

— Eu defino aquele que é um apaixonado pela arte como aquele que realmente observa o que está em volta dele. É uma pessoa que pensa, estuda e dirige o seu trabalho de uma maneira que você enxerga que ele tem um caminho — esclarece ela.

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Para Helena, Florianópolis ainda tem um caminho longo a percorrer na valorização dar artes visuais, mas está melhorando. Na Capital, diz ela, há alguns abnegados raros que ainda insistem no ofício.

*Sob supervisão de Andréa da Luz

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