Plástico que vira calçamento, lixo orgânico que se transforma em energia elétrica. Essa é a “mágica” que acontece na usina de São Bento do Sul, cidade do Planalto Norte de Santa Catarina. Há seis anos, o município iniciou o processo de instalação da usina — que mudou não só o destino do lixo, mas o comportamento da população local.
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Foi em 2019 que o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) do município começou a “desenhar” o que hoje é a Usina de Processamento de Resíduos (UPR) da cidade. Naquele ano, foi dado início aos projetos, licitações e licenciamento para construção do imóvel. Três anos depois foi possível começar a operação parcial da UPR, que seguiu com tal funcionamento ao longo de 2023. Finalmente, em 2024, a usina entrou em operação total.
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Hoje, um grande galpão de tijolos à vista e telhado de eternit, parte da UPR, abriga toneladas de lixos recolhidos na maior cidade do Planalto Norte de SC. É lá que cada tipo de material passa por separação. Isso porque cada um deles tem seu próprio destino. Alguns continuam na usina, para serem transformados em pavers e energia elétrica. Outros são redistribuídos.
— A usina recebe o lixo domiciliar urbano, ou seja, aquele lixo oriundo das casas e que não foi separado, portanto é uma mistura de restos de alimentos, materiais recicláveis, e outros resíduos. Atualmente, cerca de 25 a 30 % do lixo domiciliar produzido no município é processado pela usina, a meta é alcançar mais de 50% em 2025 — cita o diretor-presidente do Samae, Osvalcir Peters.
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A partir da separação, os materiais recicláveis como vidros, alumínios e metais são separados e doados para as cooperativas de catadores. Já o plástico de boa qualidade é transformado em peças plásticas de paver e blocos de meio-fio. A intenção é usar o material em algumas obras públicas. Porém, como a usina entrou em operação total somente em 2024, ainda não houve produção de volume grande o suficiente para atender a demanda completa da prefeitura.
Enquanto isso, a fração orgânica, ou seja, restos de alimentos, é separada mecanicamente e acumulada em um biodigestor. Dali, o material será transformado em biogás e, então, em energia elétrica renovável.
— O biodigestor é onde armazenamos a matéria orgânica retirada do lixo. Ele já está construído, mas ainda não gerou biogás suficiente para poder gerar energia elétrica. Seria a última parte da usina a entrar em operação. Como é um processo biológico, ele é demorado mesmo — explica.
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A parte que sobra — papéis e plásticos contaminados, tecidos, lixo sanitário, entre outros — é triturada e enviada para as empresas fabricantes de cimento, para uso como combustível nos fornos.
Infográfico mostra como São Bento do Sul processa o lixo
Usina muda hábitos de moradores
O projeto ainda está caminhando para trazer os resultados esperados. Ainda assim, já promoveu transformações para a cidade. Além da produção de materiais que serão usados pela própria prefeitura e a futura geração de energia renovável, o trabalho relacionado à produção de lixo tem promovido uma mudança de comportamento nos moradores são-bentenses.
Há cerca de dez anos atrás, em 2014, São Bento do Sul reciclava 3,58% do lixo produzido. A porcentagem foi a mesma em 2019, quando a usina começou a ser projetada. Três anos depois, com o início parcial da operação, a taxa de reciclagem da cidade subiu para 4,52%, 12,62% e 10,80% nos anos seguintes, até chegar a 28,77% em 2024, ano em que a UPR passou a operar com capacidade total.
— Antes da implantação da usina, a reciclagem no município estava dentro da média nacional, a qual é em torno de 3 a 4 %. Hoje, já alcançou cerca de 37% de todo o lixo sendo reciclado (em um único mês), em virtude da Usina e de outros programas, como a Coleta Seletiva em Saco Laranja, Ecopontos nos bairros, programa São Bento Sempre Limpa e programa Câmbio Verde — destaca Osvalcir.
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Além disso, antes da usina, todo o lixo domiciliar era enterrado no aterro sanitário municipal. Agora, esse material é acumulado e, quando tiver volume suficiente, será transformado em energia elétrica.
Conforme o diretor-presidente da Samae, até o momento, a usina já processou mais de 3,1 mil toneladas de lixo, o que equivale a uma economia direta estimada em pouco mais de um milhão de reais em despesas de disposição final no aterro sanitário.
A mestre em Engenharia Ambiental, Eduarda Piaia, afirma que todas as alternativas que tirem resíduos dos aterros sanitários e de outros tipos de destinação, como um lixão, são benéficas. No caso de São Bento do Sul, em que o plástico é transformado em paver, a matéria-prima passa por aquecimento. Segundo a especialista, se o processo não for feito com precaução, pode gerar inúmeros problemas.
— É preciso um cuidado maior porque o aquecimento do plástico pode gerar poluentes tóxicos, furanos e outras partículas finas que podem ser prejudiciais. Tem que ter um controle bem rigoroso da qualidade do ar, dos filtros que têm na fábrica justamente para não emitirem para o ambiente esses eventuais gases tóxicos — comenta Eduarda.
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Apesar dos riscos, aponta Eduarda, a transformação de resíduos plásticos em materiais de construção oferece benefícios ambientais relevantes. Um exemplo é a redução do volume de materiais plásticos destinados a aterros ou incineração, o aproveitamento de materiais reciclados, evitando o uso de matérias-primas virgens e a geração de produtos duráveis e úteis para a construção civil.
— Se os processos forem bem gerenciados, com controle das emissões e segurança ocupacional, os benefícios podem superar os malefícios. O cuidado está em adotar tecnologias seguras e sustentáveis que garantam a saúde humana e a proteção ambiental — destaca.
Leia a reportagem completa
De energia elétrica a pavimentação, o que são as usinas que transformam a realidade do lixo em SC