O segundo ano do governo Lula 3 termina com uma disparada na cotação do dólar e o temor dos reflexos desse aumento nos preços e na economia. A moeda norte-americana atingiu o recorde histórico de R$ 6,27 ao final da quarta-feira, 18 de dezembro. O movimento começou a ser revertido nos dias seguintes com leilões do Banco Central e a aprovação do plano de corte de despesas que ajudaram a conter a escalada.

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O aumento expressivo dos últimos dias ocorreu muito em função da frustração com o pacote de corte de gastos do governo federal. As medidas de diminuição das despesas públicas vinham sendo esperadas há meses, mas não abrangeram todas as áreas esperadas por investidores e ainda tiveram pontos rejeitados nas votações do plano na Câmara dos Deputados, na reta final do ano.

Mas o terceiro mandato do presidente Lula enfrentou outros momentos de turbulência com alta do dólar. Levantamento feito pelo NSC Total mostra a oscilação da moeda norte-americana ao longo do atual governo.

Em 2023, o gráfico mostra que a moeda apresentou até uma diminuição entre janeiro e dezembro. A aprovação do arcabouço fiscal, com novas regras que sinalizavam compromisso com economia de recursos públicos para diminuição da dívida pública, contribuíram para a estabilidade nos meses iniciais. No entanto, ao longo do ano houve momentos de tensão com os mercados e picos de alta na moeda.

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Veja a variação do dólar no governo Lula 3

O caminho do dólar nos últimos dois anos

O economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Pablo Bittencourt, lembra que a dificuldade de cumprir as regras estabelecidas no arcabouço, pela alta redução necessária no orçamento de áreas como segurança, assistência social, somada a críticas do governo federal ao Banco Central, geraram incerteza — o que no mercado é sinônimo de risco.

— A consequência é que muitos investidores ficam com dúvidas se o país conseguiria cumprir as regras para voltar a alcançar o superávit, e vão investir no exterior — explica.

Para conter esse movimento, o governo federal passou a anunciar na metade de 2024 um pacote de corte de gastos, que sinalizaria redução de despesas públicas que poderia permitir voltar a arrecadar mais do que os gastos do governo.

Nesse período, no entanto, segundo o economista, o mundo entrou em um circuito de desvalorização das moedas de países emergentes. Entre os motivos estava o favoritismo de Donald Trump nas eleições norte-americanas e a tendência de valorização do dólar pelas políticas econômicas do republicano, que favorecem a produção industrial dos EUA e dificultam a entrada e a competitividade de produtos estrangeiros.

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Após sucessivos adiamentos, o pacote de corte de gastos foi enfim anunciado no fim de novembro, mas na visão do mercado ficou aquém do esperado. Além disso, veio associado a uma medida de renúncia fiscal — a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil —, o que sinalizou ainda mais riscos para as contas públicas.

O resultado foi um mês de dezembro com uma disparada do dólar. O especialista explica que o mês já coincide com um período que empresas remetem lucros ao exterior, o que pode ter incentivado ainda mais a corrida em direção ao dólar.

Mesmo assim, o cenário geral causa no momento apreensão sobre possíveis efeitos nos preços. Se o dólar se mantiver no patamar acima de R$ 6, os produtos importados devem ser os primeiros a sentir os efeitos do câmbio, mas os aumentos não devem demorar a impactar também produtos nacionais feitos com matéria-prima importada — e portanto paga em dólar.

No início de 2025, a expectativa é de que o governo acompanhe se as intervenções do Banco Central e a aprovação do pacote de corte de gastos no Congresso serão suficientes para provocar uma redução no patamar do dólar. Caso o dólar se estabilize no patamar atual ou suba ainda mais, a perspectiva é de inflação mais alta e possíveis dificuldades econômicas.

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— Se o dólar se estabilizar em R$ 6, dá para levar durante algum tempo, mas será necessário um fato novo no âmbito fiscal, um novo pacote de gastos, um apontamento para uma mudança como reforma orçamentária, administrativa, de eficiência em programas sociais… Alguma coisa nova vai ter que surgir para trazer esse câmbio a um patamar mais sustentável para o crescimento do Brasil — avalia.

Os aumentos do dólar no governo Lula

Críticas ao BC e primeira escalada do dólar

O primeiro episódio desses ocorreu ainda em março de 2023. Na época, as primeiras críticas do presidente Lula ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e fatores como um conflito entre os presidentes da Câmara, Arhur Lira (PP-AL), e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que disputavam espaço em comissões do Congresso, elevaram a preocupação de investidores e fizeram o dólar chegar a R$ 5,29.

Economia dos EUA

Em outubro do mesmo ano, a moeda norte-americana voltou a registrar uma disparada. Desta vez, no entanto, a principal justificativa estava no cenário internacional. O receio de uma elevação nos juros nos Estados Unidos em função do alto nível de emprego no país provocou reações em mercados de todo o mundo, incluindo o Brasil. No dia 5 de outubro, o dólar chegou a R$ 5,17

Novas críticas ao BC

O ano de 2024 já foi mais turbulento para o governo Lula na questão cambial. O dólar registrou aumentos constantes ao longo do primeiro semestre. A maior disparada, no entanto, ocorreu entre abril e junho. Na ocasião, novamente as duras críticas do presidente Lula ao chefe do Banco Central por não manter a curva de redução da taxa Selic elevaram o clima nos mercados e fizeram a moeda chegar a R$ 5,67. A alta na ocasião levou o câmbio à maior cotação registrada desde julho de 2022, ainda no governo Bolsonaro.

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Novos olhares aos EUA

Dois meses depois, após um leve fôlego com a queda da cotação, a equipe econômica voltou a enfrentar período de alta do dólar. No início de agosto, fatores como o temor de desaceleração da economia norte-americana e a preocupação com a situação fiscal brasileira levou a moeda ao valor de R$ 5,74. O dia foi chamado de “Black Monday” pela agitação causada no mercado financeiro.

Eleição de Trump

A tensão eleitoral nos Estados Unidos com a possibilidade de vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas combinada à demora no lançamento do pacote de corte de gastos fizeram o dólar novamente aumentar no início de novembro. Na ocasião, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, admitiu em entrevista que as medidas de redução de despesas não estavam definidas e nem havia prazo para o anúncio. O reflexo foi a elevação da moeda a R$ 5,87, maior valor desde março de 2021.

Pacote de corte de gastos

O momento de maior alta do dólar nos dois primeiros anos do governo Lula ocorreu em meados de dezembro. Com o presidente Lula internado para uma cirurgia na cabeça, o governo encaminhou ao Congresso o esperado pacote de corte de gastos, mas que gerou frustração em parte do mercado. Durante as votações na Câmara, parte das medidas foi rejeitada pelos parlamentares, o que “desidratou” as propostas na avaliação de algumas lideranças. O temor com o agravamento da questão fiscal do país sem medidas claras de corte de despesas públicas levou a uma nova disparada da moeda, que desta vez chegou ao recorde histórico de R$ 6,27, ao final do dia 18 de dezembro. O Banco Central entrou em cena com leilões que forçaram uma diminuição da moeda nos dias seguintes, chegando a menos de R$ 6,10. A situação, no entanto, aumentou as expectativas do mercado sobre o comportamento do dólar ao longo de 2025.

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