Um casal negro registrou um boletim de ocorrência de injúria racial nesta quinta-feira (26) após ambos terem sido comparados a macacos enquanto comiam em uma lanchonete de Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina, no dia anterior. Na ocasião, os funcionários ainda teriam feito pouco caso da situação e pedido às vítimas que “relevassem” as ofensas proferidas por outros clientes do local.

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O proprietário do restaurante Sabor Tropical comunicou, em nota enviada por um advogado, que os colaboradores não presenciaram o fato e que teria sido informado na ocasião a possibilidade de serem acionadas as devidas autoridades para lidar com o ocorrido (leia íntegra do posicionamento abaixo).

Danielly Machado Sousa da Silva, de 26 anos, uma das vítimas do caso, relatou ao g1 SC que ela e o companheiro foram comparados por um grupo de turistas argentinos à imagem de um macaco comendo hambúrguer, desenho que integra o layout do estabelecimento, no centro de Balneário Camboriú.

— Estavam rindo da gente e, por algumas vezes, chegamos a achar que tivesse algo estranho conosco. Até que um dos adolescentes apontou para nós e para um macaco que estava desenhado na parede — relatou. O restaurante disse à reportagem que seriam crianças, e não adolescentes.

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Ao entender o que havia ocorrido, o casal chamou um dos atendentes para que o estabelecimento tomasse uma atitude em relação ao constrangimento que estavam passando dentro do restaurante, ainda segundo relatou Danielly. Os funcionários, no entanto, minimizaram a situação.

— O garçom, ao dirigir a palavra para nós, fez movimentos com as mãos pedindo calma e fazendo o som de “xiuuu” [silêncio] com a boca, falando que não era motivo para [o casal] se comportar daquela forma — contou.

Danielly relatou que o garçom que pediu silêncio ao casal justificou que a injúria racial era praticada por adolescentes do grupo e que, por isso, deveria ser relevada.

— Ele, homem branco, disse que sabia o que estávamos passando e diminuiu o acontecimento falando para relevar. Ficamos muito constrangidos e incomodados com a situação — contou.

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Nas redes sociais, o marido de Danielly, Ricardo Oliveira dos Santos, de 28 anos, relatou que o casal chegou a falar que chamaria a polícia, momento em que uma das mulheres foi até a mesa e pediu desculpas pela atitude dos adolescentes.

— Em nenhum momento os representantes do local se dirigiram aos responsáveis dos adolescentes. Nenhum pedido de desculpa havia sido proferido por parte da família ou da empresa, até que o meu esposo disse, em tom mais alto, que chamaria a polícia — lamentou Danielly.

O casal não chegou a acionar a Polícia Militar. Segundo a vítima, ela não conseguiu pegar o celular para gravar o que estava acontecendo, porque ficou “sem senso”.

— Eu não estava acreditando que estava passando por aquilo — contou.

Além disso, conforme as vítimas, eles insistiram em conversar com o responsável pelo estabelecimento, do qual eram clientes, mas foram ignorados por uma pessoa que se apresentou como supervisora.

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— Só fez som de concordância e mudou de assunto, e mais uma vez fomos surpreendidos com o posicionamento da equipe que agiu com completo descaso — disse.

A Polícia Civil comunicou, em nota ao g1 SC, que “o boletim de ocorrência será analisado e homologado por um policial dentro de um prazo de 24 horas. Após análise, o BO é encaminhado para uma unidade da Polícia Civil. Se não for homologado, o cidadão receberá a justificativa”.

Veja a íntegra do que diz o restaurante:

“De início cumpre esclarecer que a lanchonete Sabor Tropical está aberta no mesmo local desde 2005, ou seja, completou 18 anos de atividade. Neste período jamais houve qualquer episódio envolvendo a lanchonete e ou seus colaboradores e clientes com relação em questão étnica, opção sexual, nacionalidade, etc. O estabelecimento atende diariamente centenas de pessoas, sempre com atenção especial ao lado humano. Atende no seguimento de lanches e refeições rápidas, abrindo as 9h da manhã e fechando as 2h da madrugada. O que foi apurado diz respeito a um fato isolado em que um cliente se sentiu ofendido pois na mesa ao lado da sua estava um casal e duas crianças que se supõe de cidadania Paraguaia/Argentina/Uruguaia/Chilena, onde uma dessas crianças teria apontado para o mascote da lanchonete (um macaquinho que é o xodó de várias crianças) e também apontado para o cliente que, por ser da raça negra, se sentiu ofendido. Nenhum dos nossos colaboradores presenciou o fato e, por se tratar de uma criança a suposta autora da ofensa foi esclarecido que se o mesmo quisesse tomar alguma providência que o fizesse diretamente com seus familiares. Destaca-se que foi informado a possibilidade de acionar as autoridades (polícia, etc). O cliente ofendido aparentemente não buscou as autoridades, contudo, imputou ao nosso colaborador (que nada presenciou) a obrigação de tomar uma providência. Este esclareceu que poderia apenas acionar as autoridades, pois qualquer outra atitude certamente geraria implicações pois o fato geraria a abordagem de criança de outra nacionalidade. O cliente deixou o estabelecimento de forma normal mas aparentemente chateado com a situação. Somos sensíveis e solidários com todos aqueles que, por suas características pessoais, são vítimas de preconceitos diversos. Por fim, nossa empresa está inteiramente à disposição para maiores esclarecimentos. Atte. Equipe Sabor Tropical”

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