Na Escola Indígena Itaty, na Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Palhoça, cerca de 120 alunos viram a rotina mudar completamente no dia 19 de março de 2020. Na data, as aulas nas redes públicas e privadas de Santa Catarina foram suspensas dias após os primeiros casos confirmados de Covid-19 no Estado. A suspensão foi seguida de uma transição do presencial para o digital, com uma sequência de desafios a serem enfrentados.
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— Nos primeiros meses, a gente até tentou fazer algumas aulas online, mas era muito difícil. A gente percebia que a qualidade de ensino também era muito pior, por ser online — conta Eliziane Antunes, coordenadora da escola indígena.
Na escola indígena, a solução foi substituir as atividades em sala de aula pelas práticas culturais ao ar livre, como mutirões de plantio e outras atividades que permitissem o resgate da educação indígena com o devido distanciamento que o momento pedia. Porém, o retorno à sala de aula foi de ainda mais desafios.
— Quando a gente começou a voltar às aulas dentro das salas de aula, a gente percebeu que os alunos vinham com essa falta de atenção mesmo, que a tecnologia, o celular, era mais frequente. E também essa falta na questão do português, da leitura, da escrita — destaca a coordenadora.
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Novos modelos e formatos de aula
Segundo a pesquisa “Resposta Educacional à Pandemia de Covid-19”, promovida pelo Inep, praticamente todas as escolas do país suspenderam as atividades presenciais (99,3%) em 2020 e somente 9,9% retornaram à sala de aula durante o ano letivo. No ano seguinte, boa parte das escolas brasileiras (82,6%) adotaram o formato híbrido ou presencial em algum momento do ano letivo.
A mudança brusca que a pandemia exigiu, de um ambiente de convivência e interação nas escolas para a reclusão e atividades à distância, exigiu adaptação. Todo o contexto da pandemia trouxe também impactos emocionais, pelo cenário global do avanço da doença, o que também se refletiu no ensino.
— A pandemia foi uma situação atípica que impactou diretamente em todo o funcionamento do sistema de ensino. Ou seja, da educação infantil ao ensino superior, professores e alunos tiveram que se adequar, com urgência, a formatos de aula e ferramentas de ensino ainda não utilizadas pela maioria — explica Gabriela Piske, doutora e mestre em Educação, Especialista em Tecnologias para Educação.
Principais impactos da pandemia
Essas mudanças trouxeram reflexos no processo de ensino-aprendizagem, já que não era possível garantir um acompanhamento efetivo dos estudantes pelas escolas, aponta Gabriela. Assim, foram sentidos impactos negativos da pandemia não somente durante a crise de saúde global, mas posteriormente, com consequências em aspectos cognitivos e emocionais.
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Junto a isso, especialistas citam entre os principais impactos o afastamento social e o aumento do uso das telas, que acabam se associando e reverberando até os dias atuais.
— O impacto que mais se percebeu foi que, com o aumento do uso das telas, os alunos apresentaram maior tendência ao isolamento. Houve um notório aumento da dependência das redes sociais, desqualificando as relações sociais presenciais, efeito que está presente até a atualidade — declara Luciane Wayss Staffen, pedagoga, mestre e doutora em Educação.
É consenso entre as especialistas que os grupos mais afetados durante a pandemia foram as classes econômicas mais baixas, por conta da dificuldade de acesso ao ensino remoto. Crianças de condições socioeconômicas menos favoráveis tinham menos recursos para acessar internet e dispositivos eletrônicos de qualidade, e poderem assim acompanhar as aulas.
Outro grupo mencionado pelas professoras foi o dos alunos em processo de alfabetização, especialmente no 1° e 2° ano do ensino fundamental. Passar por essa etapa, que é crucial no processo de formação dos alunos, no formato à distância, trouxe lacunas que devem se estender ao longo dos anos.
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— A base para toda a formação no ensino fundamental e no ensino médio começa nos primeiros anos escolares. Sendo assim, não ter o apoio presencial do professor e a dinâmica pedagógica também presencial, tão importantes para essa etapa da vida de uma criança, implicou em impactos negativos na formação desses sujeitos — explica Gabriela Piske.
Luciane Maria Schlindwein, professora do Departamento de Metodologia de Ensino do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), reforça que esse impacto também atingiu crianças que iriam para o 2° ou 3° ano do ensino fundamental em 2020 e tiveram o processo de alfabetização interrompido, especialmente as que fazem parte de ambientes mais vulneráveis e menos letrados. Essa mudança exigiu um planejamento e uma organização curricular diferenciada para as escolas, pontua.
Além disso, estudantes que estariam terminando os ciclos de estudo no período da pandemia, no outro extremo, também foram muito impactados. Luciane reforça a forma como as condições socioeconômicas e o uso do celular dos pais, que às vezes também eram os instrumentos de trabalho dos adultos, traziam mais desafios ao andamento das aulas remotas.
— Tenho um exemplo, em que eu estava acompanhando a aula online e a criança fez uma pergunta. A professora começou a responder e o pai retirou o telefone, porque precisava do telefone para trabalhar, exatamente naquele momento. E, uma outra criança, que estava quase no topo de um pé de goiaba. Eu perguntei: por que você está aí? E ela: aqui ninguém tira o celular da minha mão! — relembra Luciane.
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Adaptações necessárias
Para o retorno das atividades presenciais, uma série de ações como uso de máscaras, monitoramento de temperatura, capacitação dos professores e adequação ou ampliação da infraestrutura física das escolas foram adotadas. A volta foi feita de forma gradativa, sendo que em 2020 as escolas brasileiras tiveram uma média de 279 dias de suspensão das atividades presenciais, e em 2021 cerca de 100 dias de aulas remotas, considerando escolas públicas e privadas de diferentes níveis de ensino.
Segundo o Inep, foram adotadas diferentes estratégias pedagógicas para enfrentar os impactos da pandemia e o déficit educacional que este período deixou. Entre elas:
- a busca ativa como enfrentamento à evasão escolar;
- avaliação de lacunas de aprendizagem dos alunos;
- aulas ou atividades de reforço;
- aumento da carga horária diária de atividades presenciais;
- reorganização curricular com priorização de habilidades e conteúdos;
- e complementação curricular com ampliação da jornada escolar no ano letivo de 2022.
Esse tipo de ação foi recomendada por órgãos como o Conselho Nacional de Educação (CNE) e organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
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Prevendo possíveis dificuldades no aprendizado dos alunos e na dinâmica de funcionamento das escolas ao longo de 2020, o CNE ainda sugeriu que fosse adotado um continuum curricular (ou “currículo contínuo”) para os anos 2020-2021.
A proposta buscava assegurar que objetivos não cumpridos em 2020 pudessem ser remanejados de forma conjunta em 2021 e 2022. A ideia é que os calendários escolares pudessem ser reprogramados para que os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento fossem cumpridos em cada nível, ano/série e modalidade.
Eliziane, coordenadora da Escola Indígena Itaty, conta que por lá, as mudanças começaram a partir da percepção das dificuldades dos alunos na volta às aulas presenciais. Foi aí que a equipe educacional buscou inovar no ensino para conseguir resgatar a atenção dos alunos e melhorar a qualidade do aprendizado.
— Observando essas questões dos alunos, começamos a também ter outra maneira de lidar com eles. Trazendo conteúdos mais atrativos, para eles se envolverem mais naquilo que estavam fazendo. Trazendo uma aula mais expositiva, mais falada, trazendo o que eles gostam para a sala de aula, para tentar trazer eles de volta às aulas — explica Eliziane.
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A leitura também virou foco das atividades em sala de aula, a partir da identificação de uma maior dificuldade na escrita e no português, inclusive trazendo autores e materiais didáticos feitos por indígenas como forma de aproximação com os alunos.
O que foi feito em SC
A resposta ao déficit educacional pós-pandemia se deu de diferentes formas a depender dos municípios, estados e até das próprias escolas.
Florianópolis, por exemplo, desenvolveu na rede municipal de ensino ações com foco na recomposição, recuperação e aprofundamento das aprendizagens como Apoio Pedagógico, o reforço escolar, e a oferta de projetos para recuperar as perdas no desenvolvimento das crianças na educação infantil, assim como das aprendizagens dos estudantes do ensino fundamental.
Já em Blumenau, um conjunto de ações foram implementadas, segundo a secretária de educação municipal, Simone Probst, como contratação de professores especializados para trabalhar na recomposição de aprendizagens, planos de ação com base no perfil de cada escola, implantação das equipes multiprofissionais para lidar com os impactos emocionais e sociais da pandemia e intervenção psicopedagógica no caso de estudantes com defasagem de aprendizagem.
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Além disso, houve a adesão ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e qualificação da Educação de Jovens e Adultos, assim como a pactuação do Decreto nº 11.556/23, que institui o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. Ambas as ações têm como foco a alfabetização, uma das etapas de aprendizagem mais afetadas durante o período de pandemia.
Em Joinville, um programa de avaliação contínua da aprendizagem foi instituído na rede municipal para monitorar os grupos com mais dificuldades. Em 2021, foi criado o Aprender Mais, programa de recuperação de aprendizagem que presta apoio aos alunos com atividades extra classe de reforço e acompanhamento. Ainda, os professores receberam capacitação para que pudessem identificar os diferentes níveis dos alunos e realizar atividades diferenciadas conforme as necessidades.
A nível estadual, a Secretaria de Estado da Educação (SED) cita ações como a implementação do Núcleo de Acompanhamento Pedagógico e Formação nas Coordenadorias Regionais (CREs) em 2024, o projeto piloto com o método IntraAct de alfabetização, o programa Catarinense Técnico (CaTec) e ampliação da oferta da disciplina de inglês para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Impactos que duram até hoje
Mesmo com uma retomada gradual e com esforços coletivos para reverter os impactos negativos causados pela pandemia, o déficit educacional ainda é visível. Eliziane Antunes, coordenadora da Escola Indígena Itaty, diz que é possível perceber no comportamento dos alunos os efeitos da pandemia.
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— Como professora, eu ainda percebo essa questão, dos efeitos colaterais da pandemia. Ainda percebo que os alunos têm um pouco mais de dificuldade em interagir com o conteúdo que está sendo passado pelas professoras. Uma dificuldade maior de se desconectar desse mundo virtual — destaca.
As especialistas são categóricas em prever o tempo que levará para atingir patamares pré-pandemia na educação: depende. Depende de cada escola, dos investimentos feitos e das medidas adotadas para compensar os impactos do período.
Em caso de escolas ou municípios que foram mais efetivos em implementar medidas para reverter as perdas da pandemia, isso pode ocorrer antes do que em locais onde houve menos planejamento, acompanhamento de alunos e professores e apoio pedagógico.
Já as secretarias de Educação das principais cidades do Estado divergem quanto às previsões. Thiago Peixoto, secretário de educação de Florianópolis, afirma que a gestão tem feito um planejamento para que ao longo dos próximos quatro anos esse quadro possa ser revertido.
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Em Blumenau, a secretária de Educação, Simone Probst, traz como projeção dados do Governo Federal de que os reflexos da pandemia na educação podem se estender até 2030, e projeta que as ações que têm sido realizadas na cidade devem fazer com que os níveis de aprendizagem sejam retomados até lá.
O secretário de Educação de Joinville, Diego Calegari, por sua vez, alega que os patamares pré-pandemia já estão sendo retomados no município, com índices que mostram um nível de aprendizagem equivalente e até um pouco superior aos de antes de 2020. A expectativa apontada pela gestão municipal é de que os números do Ideb deste ano consigam comprovar esse atingimento.
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