Melgaço e Belém, no Pará, registraram os maiores períodos de calor extremo no Brasil em 2024. Melgaço, cidade com o pior IDH do país, sofreu com 228 dias de calor extremo, e Belém registrou 212 dias. O levantamento foi feito pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As informações são do g1.
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De acordo com o levantamento, a cidade do arquipélago do Marajó, Melgaço, registrou o maior número de dias sob calor extremo em 2024 no país, passando mais de 200 dias do ano com temperaturas até 6°C acima das máximas.
Com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, grande parte de moradias erguidas em estacas de madeira sobre as águas, pouco acesso à energia elétrica e quase 28 mil habitantes vivendo do plantio, Melgaço sofre para enfrentar o calor.
— A água do rio esquentou. Meio-dia era um horário que a gente não conseguia nem mesmo lavar as mãos, lavar vasilha com a água da torneira. Às vezes, só com a água da torneira já amolecia o açaí porque era muito quente. Não tinha condição da gente lavar a mão — relembra Maria Maia, de 58 anos, líder comunitária de Santa Luzia, comunidade na Zona Rural do município.
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A realidade é um alerta para o que especialistas já informam: o calor afeta o mundo todo, mas as regiões quentes e as cidades vulneráveis, como Melgaço, são mais impactadas.
O que é considerado calor extremo
Uma análise feita pelo Centro Nacional de Monitoramento de Desastres (Cemaden), com dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), observou que o total de dias no ano de 2024 superaram os valores mais altos vistos entre os anos de 2000 até 2024. Entenda como o estudo foi feito:
- Para cada dia do ano foi calculado um valor limite de temperatura;
- Para isso, foram analisandos os dados diários dos anos de 2000 até 2024;
- Dessa forma, foi constatado que o total de dias no ano de 2024 superaram os valores mais altos vistos na série histórica, o que configura um extremo de calor.
- O índice é o mesmo usado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Em Melgaço, as temperaturas máximas costumavam chegar aos 32°C nos meses mais quentes do ano, mas segundo o levantamento, em 2024 esse número atingiu 38°C.
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Belém, capital do Pará, também apresentou um aumento de temperatura. O estado do Pará teve o maior número de cidades com mais de 150 dias sob extremos de calor em 2024 no país, afetando mais de 4 milhões de pessoas.
O calor na cidade com o pior IDH do Brasil
Melgaço tem o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,418, considerado o menor do Brasil desde 2013, de acordo com a última edição publicada do Atlas do Desenvolvimento Humano Brasil, feito pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNDU).
Os dados são com base no Censo de 2010. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda não há dados atualizados de IDH considerando o Censo 2022.
Veja imagens da cidade de Melgaço
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A maior parte da população da cidade está na zona rural e o roçado é a principal atividade para suporte financeiro e para alimentação. Por ser isolada por água, o abastecimento depende de longas viagens de barco e os habitantes precisam se locomover por dias expostos ao sol, sem opção.
Cerca de 3% das moradias têm acesso a esgoto sanitário adequado e não há estruturas básicas de saúde na cidade.
No ano passado, a cidade enfrentava também a pior seca já vista na região Norte. Famílias perderam o plantio, afetando a renda e alimentação da população, e os poços de água para beber secaram.
— Não tinha como pescar, porque quando a água seca, o peixe vai embora para outros lugares. A caça do mato também ficou escassa. Então a gente passou a trabalhar mais para comprar comida congelada na cidade — relembra Maria Maia.
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Os moradores contam que o ano de 2024 foi um dos anos mais difíceis que eles já passaram, por causa da falta de chuva, calor intenso e água escassa. De acordo com Maria Maia, nem mesmo os bichos suportavam.
— As onças vieram para beira do rio porque ficou tão seca a floresta que não tinha tinha água para os bichos beberem, os lagos secaram. A onça é um animal que a gente teme muito, ela veio para a beira do rio — relatou a líder comunitária na região.
Até mesmo os moradores da zona urbana, que tinham energia, relatam terem enfrentado um calor nunca antes visto. Pela sobrecarga do sistema, a rede elétrica nem sempre estava disponível.
— Para amenizar o calor, tivemos que ligar mais vezes o ar condicionado, no horário da tarde, chamávamos de horário de pico, onde todos ligavam seus aparelhos de ar, e a energia caía com frequência —, detalha o contador Ricardo Viegas.
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A cidade ainda teve que enfrentar a fumaça. De acordo com informações divulgadas pelo Inpe, o Pará foi estado que mais queimou no país em 2024, ano que o Brasil teve recorde de queimadas. O estado registrou 20% dos focos no país, com 56 mil pontos de fogo, e lidera o índice desde 2021.
Segundo os dados, Melgaço teve 0,2% das queimadas no país, com 120 focos, mas por ficar cercada por áreas em chamas, a cidade foi tomada por fumaça.
Os moradores enfrentaram problemas respiratórios devido à fumaça das queimadas e, segundo um médico que atua na rede pública do estado, o número de pessoas com doenças respiratórias mais que dobrou durante o período de queimadas.
Calor é um problema de saúde pública
O estresse térmico, índice que mede a exposição ao calor e os riscos potenciais à saúde humana, pode levar a consequências mais graves, como a morte.
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Segundo o Ministério da Saúde, quase 60 pessoas morreram devido ao calor intenso no país nos últimos 14 anos. No entanto, não há dados sobre quantas dessas mortes ocorreram em Melgaço ou no Pará e, de acordo com especialistas, esse número é subestimado, porque não há um acompanhamento específico para esses casos.
Em Melgaço, o atendimento médico é de barco e leva muitas horas. Na comunidade Santa Luzia, que fica na zona rural, há um posto de saúde para atendimentos apenas para ações básicas como curativos e medicação.
Para ser atendido por médicos os moradores precisam fazer uma viagem de até 5 horas de barco até o hospital municipal, que fica na zona urbana de Melgaço. Em casos de urgência, uma ‘ambulancha’, embarcação que funciona como ambulância, é acionada, mas o caminho também não é rápido.
Quando há necessidade de atendimento especializado é preciso ir a Belém, uma viagem pode chegar a 16 horas.
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Sandra Hacon, pesquisadora da Fiocruz sobre os impactos do calor à saúde, explica que a cidade é um retrato do que as mudanças climáticas estão fazendo.
— Os 37°C de uma cidade são sentidos de forma diferente por quem trabalha em um escritório e quem trabalha na rua, como um gari e um policial. As pessoas mais vulneráveis são, justamente, as mais pobres, indígenas e quem mora em cidades com pouca infraestrutura de saúde. O calor deixa exposto ainda mais as diferenças sociais que dividem o Brasil— diz a especialista.
O meteorologista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Mauricio do Nascimento Moura, também relata como a população com menos acesso a infraestrutura é a que mais sofre com as consequência do calor.
— Se você tem um município que investe em um transporte público melhor, mais rápido e com ar-condicionado, por exemplo, você tem uma população que vai sofrer menos. Diferente de uma população que não tem essa estrutura toda, porque não tem investimento nisso e vai sofrer mais esses efeitos. Melgaço e Belém, por exemplo, o efeito do clima praticamente igual sobre as duas cidades, mas a infraestrutura vai modificar a percepção disso — diz.
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Motivos do calor
Ainda segundo o meteorologista e professor Mauricio Moura, o calor no Pará tem dois motivos: um natural e outro antrópico, que depende da ação humana. O natural é resultado de fenômenos como o El Niño e o La Niña.
— Esse fenômeno, tanto o El Niño quanto La Ninã, quando acontecem se estendem de um ano para o outro. Em 2023 aconteceu isso trazendo grandes consequências para o Oeste da Amazônia—, explica o pesquisador. Segundo ele, o fenômeno se prolongou até o ano passado, resultando em secas na região Norte.
Para o professor, as queimadas e desmatamento são os fatores antrópicos que influenciaram no clima do Pará em 2023 e 2024. Com menos chuva, os focos de incêndios aumentaram ainda mais e o governo estadual decretou situação de emergência em agosto de 2024, além de proibir uso de fogo.
Em Melgaço, os focos foram resultado da queima de vegetação na limpeza de quintais e terrenos, segundo Marluth Fialho, atual secretaria municipal de Meio Ambiente. No entanto, o município não possui batalhão dos bombeiros e os próprios moradores e voluntários que trabalharam no combate às chamas.
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Quando a gente fala de desmatamento e queimadas, esse efeito, seja positivo ou negativo, é a longo prazo, a gente avalia o efeito disso daqui a dois ou três anos. Por exemplo, eu tenho um ano de El Niño muito forte e anteriormente a esse ano, muito desmatamento, muita queimada: isso combinado, vai ter uma resposta
O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Mauricio do Nascimento Moura, destaca a importância de debates sobre as mudanças climáticas e a importância de investimentos em políticas públicas.
— Governos, Estados, União têm que investir no que for melhor para o nosso meio ambiente. Por exemplo, arborização de cidade. Inclusive até Belém, uma capital, precisa ser bem mais arborizada, ainda mais então nessas cidades que tem um potencial [econômico] menor, cidades do interior— diz o professor.
—Investir em políticas públicas de redução de desmatamento, das queimadas, não só no Pará, mas a nível nacional. Se a gente desacelerar, vamos mitigar os efeitos do clima. […] A gente não pode esperar mais, tem que levar a sério — relembra Mauricio.
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