O episódio de chuvas intensas que resultou em morte, destruição, alagamentos e 13 decretos municipais de emergência em Santa Catarina na última semana deixou uma lição: o Estado precisa avançar em tecnologia e conhecimento. É o que defendem os especialistas sobre o fato de ninguém ter conseguido prever a quantidade de precipitação que cairia entre quinta e sexta-feira (dias 16 e 17), o que pegou as cidades de surpresa.
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Em nota, a Defesa Civil e Epagri afirmaram que nenhum modelo meteorológico foi capaz de apontar o alto volume de chuvas. As ferramentas indicaram até 70 milímetros acumulados, mas a realidade foi bem distinta. Em alguns pontos, a exemplo de Biguaçu, foram mais de 430 milímetros nos dois dias — o esperado para o mês inteiro é menos da metade desse número.
Sem receber alertas significativos, moradores e turistas do Litoral foram surpreendidos pela força da água, que rapidamente fez ruas virarem rios em municípios como Balneário Camboriú, Florianópolis, Itapema e Camboriú. Trazido por um sistema comum no verão, relacionado à circulação marítima, o que impactou foi a magnitude do fenômeno, que agora deve ser estudado para que se descubra os pormenores que o tornaram tão forte.
Um dos primeiros argumentos que se recorre ao tentar explicar tanta chuva em tão pouco tempo são as mudanças climáticas. De fato, já há diferentes pesquisas que demonstram que elas potencializam os eventos, mas culpá-las exclusivamente pela imprevisibilidade da intensidade das chuvas da semana passada é insuficiente, acredita o doutor em Meteorologia e professor no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Mário Quadro.
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Para o docente, o Estado enfrenta três gargalos importantes: falta de profissionais, necessidade de capacitações e modelos meteorológicos que precisam de melhorias. Os dois primeiros são os pontos mais importantes na avaliação de outro pesquisador, Álvaro Ávila, que trabalha no Centro Euro-Mediterrâneo de Mudanças Climáticas, na Europa.
— O modelo é físico, mas a experiência do meteorologista em uma região acaba sendo muito importante. Mais que investir em equipamentos, o poder público precisa investir em pessoas e operativo — comenta Álvaro.
O que os dois querem dizer é que é preciso mais meteorologistas a serviço da população e que eles estejam espalhados pelo Estado, já que cada mesorregião tem suas próprias características climáticas.
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Ajustes nos modelos
Os modelos usados pelo governo para “ler” o tempo são globais e regionais — um ponto positivo, já que esses últimos são focados em Santa Catarina. O ideal é que o modelo regional tenha ajustes para cada região, justamente por conta dos aspectos diferentes de cada uma, mas isso não ocorre em nenhum estado do país. Perde a meteorologia, a ciência e o catarinense:
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— Falta “traduzir” as mensagens das novas redes de observação para compreender melhor a formação destes sistemas. Na Conferência Pan-Americana de Meteorologia foi discutida a criação de um Centro Nacional de Tempestades para avançar no conhecimento desse fenômeno — detalha Mário.
A Defesa Civil de SC revelou que está trabalhando em um projeto para unir todas as redes disponíveis (dos radares meteorológicos, de descargas elétricas, das estações meteorológicas e de sondagens atmosféricas) e melhorar a previsão. “É um projeto que irá colocar Santa Catarina na vanguarda da modelagem atmosférica para a previsão de eventos extremos”, comemorou. A verba já está garantida para a proposta sair do papel, mas isso deve ocorrer até o ano que vem.
Colocar a ideia em prática também não é tarefa simples. Além de pessoal capacitado, computadores potentes são necessários para rodar tantos dados simultâneos, tecnologia que custa caro e requer atualização constante. Para o professor do IFSC, parcerias com instituições de ensino podem ser um caminho na solução desse obstáculo.
— (Os modelos usados em Santa Catarina são) incapazes de prever esse tipo de tempestade associada à circulação marítima. Parcerias são importantes neste caso — defende.
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Apesar da lacuna que ficou exposta com o episódio das chuvas na última semana, Mário avalia que aos poucos o Estado está evoluindo no serviço de monitoramento meteorológico e ocupa uma posição melhor em comparação a outros pontos do Brasil, como o próprio vizinho Rio Grande do Sul.
O que está claro é que Santa Catarina não pode parar no tempo.
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Novos investimentos
Em nota, o governo do Estado garantiu que investe “fortemente” na infraestrutura de monitoramento e alerta. Santa Catarina “possui uma das mais modernas redes de radares meteorológicos. São dois radares em Lontras e Chapecó e dois em Araranguá e Joinville. Entre 2025 e 2026 um novo radar será instalado na Grande Florianópolis”, divulgou.
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A Epagri tem uma rede de estações meteorológicas e agrometeorológicas distribuídas no Estado há décadas, com 250 estações. Em 2022 foi instalada uma rede de monitoramento no Vale do Itajaí com 42 estações meteorológicas, hidrológicas e pluviômetros, que fornecem dados a cada 15 segundos. No final de 2024 foi licitada a expansão dessa rede. O contrato levará a outras cidades mais 50 estações hidrológicas, 30 meteorológicas, além de sistemas de sirenes para nas barragens de Taió e Ituporanga, e depois na de José Boiteux.
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Dois dias de chuvas fortes
As chuvas torrenciais de quinta e sexta-feira se formaram pela combinação da circulação marítima com um sistema de baixa pressão atmosférica. O alto volume resultou em uma morte em Governador Celso Ramos, estragos, mil pessoas desabrigadas e mais de 1,3 mil desalojadas. Ao menos 18 cidades foram afetadas e 11 decretaram situação de emergência: Balneário Camboriú, Camboriú, Governador Celso Ramos, Biguaçu, Tijucas, Porto Belo, Florianópolis, Ilhota, Gaspar, São José e Palhoça.
O que se viu foram centenas de ruas alagadas, casas inundadas, deslizamentos e quedas de árvores. De acordo com a Defesa Civil, a situação mais crítica ocorreu na Grande Florianópolis e na região de Itajaí. Em Biguaçu, a BR-101 ficou totalmente interditada por quatro dias depois de uma cratera abrir no Km 181.
O episódio causou prejuízos milionários aos municípios e fez a Defesa Civil gastar mais de R$ 1 milhão com assistência humanitária. A instituição afirmou que emitiu 35 alertas meteorológicos e 25 geológicos entre às 6h da quinta-feira — quando as cidades já começavam a registrar os primeiros transtornos — e o final da manhã de sexta-feira.
Para receber alertas e avisos da Defesa Civil basta enviar um SMS com o CEP para o número 40199.