Extremos do clima, como os vivenciados no Rio Grande do Sul nos últimos dias, possuem efeitos sobre berçários de espécies como peixes e camarões. Como consequência, atividades econômicas e sociais, como a pesca, encontram-se em risco.

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— Sem berçário não tem peixe — alerta Paulo Horta, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina.

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Por sorte, considera o pesquisador, a safra atual de tainha, já oficialmente aberta no Estado, não será tão impactada, diferente das futuras.

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— O maior problema virá nos próximos anos. A redução da salinidade na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, deve comprometer o desenvolvimento gonadal e a migração da espécie para o litoral catarinense — explica.

Mudanças climáticas interferem na saúde das espécies marinhas

O estuário representa o principal local de berçário para o estoque e abundância de juvenis. Horta explica que sob condições ideais — com salinidade elevada — a captura na Lagoa dos Patos ocorre o ano todo, conforme demonstrado em estudos científicos.

— Além dos impactos causados pela pesca industrial, as mudanças climáticas também interferem na saúde das populações destes animais que são essenciais para muitas famílias de pescadores do Sul do Brasil — diz o biólogo.

Horta observa que, quando há um evento extremo climático como o atual, toda a infraestrutura urbana colapsa e junto o sistema de saneamento. Essa situação leva para os estuários uma grande quantidade de poluentes, alguns muito tóxicos para organismos que estão no topo da cadeia alimentar. Substâncias como os metais pesados podem acumular nas tainhas e por consequência nas pessoas em níveis tóxicos.

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— Esse é um exemplo do tipo de problema que podemos observar à medida que eventos extremos se tornam mais comuns. É uma situação preocupante, pois estamos perdendo saúde dos nossos ambientes costeiros — salienta.

Alteração de temperatura das águas do mar impactam na migração e reprodução

Sérgio Winckler da Costa, doutor em aquicultura e pesquisador do Centro de Desenvolvimento em Aquicultur e Pesca (CEDAP/EPAGRI), concorda que a alteração de temperaturas das águas incide nas condições ideais para a migração e a reprodução de espécies como a tainha. O especialista lembra que Santa Catarina sofre influência de duas correntes marinhas: do Brasil, no verão, e das Malvinas, no inverno. Winckler explica que parte da tainha capturada no litoral não vem apenas do Rio Grande do Sul, mas também da Bacia do Prata, formada por rios como Paraná, Uruguai e Paraguai. Não há estudos que apontem a quantidade de estoque de cada local.

— Existem espécies que se adaptam melhor e às vezes até se beneficiam. Se o clima mudar, com certeza vai ter influência na pesca. A tainha é uma espécie que se adapta bem em baixa salinidade, diferente do camarão, que em momentos de grandes chuvas acaba tendo a safra bastante prejudicada — observa Winckler.

Prova dos efeitos dessas mudanças ocorreram na safra atual do camarão capturado nas águas da Lagoa dos Patos. Diferente dos anos anteriores, quando a espécie sofreu impacto favorável da estiagem, as fortes chuvas em setembro e dezembro no Rio Grande do Sul prejudicaram a reprodução. O deságue dos rios deixou as águas mais doce. O crustáceo prefere um ambiente mais quente e salinizado. Como o resultado da safra atual – encerrada em 31 de maio – praticamente não existiu. Milhares de pescadores artesanais do Rio Grande do Sul sequer colocaram as redes no mar.

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