Depois de colhido, um morango precisa estar pronto para ser vendido em até 24 horas. Caso contrário, o fruto começa a ficar passado e os compradores já não se interessam. O mesmo acontece com as hortaliças.

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– A hortaliça é altamente perecível, então ela tem que ser colhida e imediatamente destinada ao mercado consumidor e muitas vezes a produção de hortaliças está associada a regiões onde o relevo é mais acidentado – diz Dirceu Leite, presidente da Epagri.

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O tempo é um dos fatores que vai definir se o produto está bom o suficiente para ser comprado. O que não é vendido, corre o risco de estragar e ser descartado. Para os agricultores familiares, é sinônimo de prejuízo.

– Nós temos uma agricultura muito forte. Temos 180 mil propriedades familiares produzindo alimento que alimentam tanto Santa Catarina como o resto do mundo, com as exportações – complementa Leite.

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Não são apenas os agricultores familiares que precisam de agilidade na hora de escoar as produções. De Maravilha, no Oeste do Estado, Cristiano Marinello roda estradas de Norte a Sul do país para transportar aves e suínos. São 20 anos na boleia, sempre em busca de cumprir os prazos. Para ficar mais próximo da família, agora ele faz apenas trajetos em Santa Catarina.

A reportagem da NSC TV acompanhou uma das viagens recentes dele, com destino a Itajaí. Quanto tempo na estrada? Cerca de 10 horas, se tudo correr bem, projeta o experiente caminhoneiro. Antes de sair, Cristiano faz uma prece. Ele diz que a fé ajudou a enfrentar os anos nas estradas com mais serenidade. E foram só alguns minutos para a reportagem presenciar a primeira situação de risco: um caminhão ultrapassando outro na terceira faixa, invadindo parcialmente a contramão.

– Isso acontece porque falta espaço na terceira faixa. O caminhão que é ultrapassado não tem como ir mais para a direita, porque sai da pista – explica o caminhoneiro.

A BR-282 é a maior rodovia federal exclusivamente em território catarinense. Ela liga Paraíso, na fronteira com a Argentina, a Palhoça, no litoral catarinense. De acordo com especialistas, essa que é a principal rota de escoamento da produção agropecuária do interior do Estado aos portos, já não comporta o tráfego pesado que diariamente passa por ela.

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– Seria um sonho, né, de ver ela toda duplicada, até o litoral – comenta o caminhoneiro.

– Na minha cabeça, e no tempo que tenho de estrada, só tem piorado. Porque melhorar… pouco. Vão lá, tapam aqueles buracos que tem e não melhora nada. Aí, não tem como um caminhão aguentar. Às vezes, a gente tem horário pra fazer. É sofrido – completa Cristiano.

Mais de 3 horas para percorrer 80 quilômetros

Na Ceasa, em São José, na Grande Florianópolis, fica o galpão da agricultura familiar. Ali, as rodovias também mudam a rotina dos trabalhadores. Para que os produtos cheguem até o lugar na qualidade ideal, praticamente todo mundo precisa madrugar.

– Eles tiveram que se adaptar a sair mais cedo. Às vezes, ficam do lado fora esperando a Ceasa abrir, para fugir das filas, principalmente na BR-101 e na BR-282 – diz Emerson Martins, diretor-técnico da Ceasa/SC.

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As características geográficas e climáticas tornam o desafio ainda maior.

– Temos um Estado com características peculiares, com relevo bastante acidentado, presença de morros, rios… Somos um Estado que sofre com fenômenos climáticos extremos. Isso dificulta a manutenção de estradas por onde a produção passa. Nas estradas, desde o município, naquelas estradas que muitas vezes são de pavimentação primária, somente com cascalho, sofre com questão de infraestrutura. Ponte e pontilhões, quando dá uma chuva acaba perdendo a trafegabilidade – comenta Dirceu Leite, presidente da Epagri.

A família Brun vai à Ceasa duas vezes por semana. No dia em que a reportagem o acompanhou, o Alsomir levou os morangos. Ele sai de casa às 2h. São 80 quilômetros da propriedade, que fica em Angelina, na região da Grande Florianópolis, até o galpão em São José. Parece pouco. A reportagem acompanhou o produtor na volta para casa, para entender os desafios das idas e vindas.

A viagem de volta começa perto das 10h30min e, de cara, ainda em São José, enfrentamos fila na BR-101. Mais alguns quilômetros, entramos na BR-282 e não demora muito para mais um trecho com lentidão. Entre Palhoça e Santo Amaro da Imperatriz, o motorista precisa de paciência. Duas horas depois chegamos a Rancho Queimado. Mais uma rodovia, dessa vez estadual, a SC-108, até o Centro de Angelina.

Dali em diante, passamos a transitar em uma via municipal. Estreita e esburacada, a estrada de chão desafia a habilidade do motorista. Marcas de deslizamentos recentes ainda estão nas margens. São apenas 14 quilômetros, mas acredite. De caminhão, para percorrer o trecho foi necessário quase uma hora de viagem. Praticamente três horas depois de sair de São José, chegamos à propriedade da família Brun.

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– Dá muita manutenção no caminhão, né? Porque o quebra molas estoura pneu, essas coisas assim. Porque (as condições das estradas) é muito ruim. E acaba deixando o produto mais caro no final.

– Com prejuízo (para os produtores), isso vai aumentar o preço do produto – diz Emerson Martins, diretor-técnico da Ceasa/SC.

Em Santa Catarina a maioria dos produtores rurais está no interior do Estado. Já a concentração populacional é maior no litoral. Inevitavelmente esses produtores vão precisar das rodovias para que os produtos cheguem até os consumidores. De acordo com o levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), se a condição estradas fosse ótima no Sul do Brasil, o custo do transporte poderia cair em até 31%.

Enquanto as soluções não chegam, consumidores, trabalhadores e empresários sentem os impactos no bolso e no dia a dia.

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– O setor de transporte tem custo alto na cadeia produtiva. A partir do momento que você tem estradas de qualidade e esse custo menor, isso reflete em redução no preço lá para o consumidor final. E a venda de produtos de qualidade, na hora certa – pondera Dirceu Leite, presidente da Epagri.

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