De Mawé, uma porção de terra nas águas do médio rio Amazonas, para a Ilha de Santa Catarina, cantada pelo poeta Zininho como um pedacinho de terra perdido no mar. Essa é a trajetória de Ingrid Sateré-Mawé, de 37 anos, eleita vereadora pelo PSOL neste domingo (6). É a primeira vez que a Câmara Municipal teve uma mulher indígena eleita em chapa pura em quase 300 anos.

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Duas mulheres indígenas – Joziléia Kaingang e Janaína Barbosa – passaram em 2020 pela Câmara de Vereadores de Florianópolis, mas para o Tribunal Superior Eleitoral, vale o registro de um único nome, aquele que aparece com foto na urna, na hora em que o eleitor vota.

Há quase 18 anos morando em Florianópolis, Ingrid é formada em Biologia, professora e atualmente cursa Direito. Foi a primeira vez que ela disputou uma vaga na Câmara Municipal, conquistando 3.430 votos. Ela é casada pela segunda vez e tem três filhos, com 13, 11 e quatro anos.

— A minha candidatura foi uma construção coletiva, uma aposta do partido mediante a minha figura política que se construiu com atuação no meio sindical, junto aos professores, e outras frentes. Diria que é um conjunto de coisas que fizeram dar certo, um convite para que outras mulheres possam vir com a gente — diz Ingrid.

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Foco será o combate a violência de gênero

Com forte presença nas redes sociais, a liderança indígena é comprometida com os direitos humanos e sociais, com foco na defesa das mulheres e do meio ambiente.

— Venho de um grupo político empenhado em trazer as questões de forma transversal, principalmente quando se trata da questão de gênero. Quando falamos de mulheres, temos uma situação de mulheres que não estão bem em todos os quesitos. Sabemos que, quando as mulheres não estão bem, a sociedade não está bem. Queremos executar um plano de cuidados focando as mulheres — explica.

Ingrid já trabalhou como assessora na Câmara Municipal de Florianópolis, por ocasião de um mandato coletivo de vereadoras eleito em 2020. Na ocasião, sentiu que se tratava de um ambiente pesado para as mulheres. Mais tarde, atuando na Câmara Federal enquanto assessora especial no mandato da deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG), entendeu que o peso não era local: mas do parlamento.

— Hoje, estou mais escaldada. Mas não quero apenas ser mais escaldada, e sim atuante para combater a violência de gênero na política e de raça nesse espaço — diz.

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Primeira experiência na urna foi para governadora de SC

Em 2018, Ingrid disputou a eleição para o governo de Santa Catarina pelo PSTU. Fez cerca de 10 mil votos e não se elegeu, mas ganhou visibilidade nos 295 municípios catarinenses. Por outro lado, pagou um preço alto: vizinhos da extrema-direita jogaram garrafas de vidro em sua casa, o que a fez deixar o local e andar com segurança armada. Em 2022, por sua luta em defesa da moradia, sofreu uma tentativa de invasão de residência por pessoas com ligação com as forças de segurança.

A partir de 1º de janeiro, Ingrid Sateré-Mawé passa a integrar a Bancada do Cocar, formada por parlamentares de diferentes povos indígenas espalhados pelo país. Promete um mandato corajoso e combativo, como foi durante a campanha, quando sofreu com atitudes racistas.

Questionada sobre o momento histórico em ser a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira nos 298 anos da Câmara Municipal de Florianópolis, Ingrid Sateré-Mawé responde:

— Eu me entendo como uma semente de Marielle Franco. Penso que não posso deixar o ego tomar conta.

Onde vivem os parentes Sateré-Mawé

Os Sateré-Mawé vivem na região do médio rio Amazonas, em duas terras indígenas: a Andirá-Marau, na fronteira dos estados do Amazonas e do Pará, e na Coatá-Laranjal, da etnia Munduruku. Os Sateré-Mawé também são encontrados morando nas cidades de Barreirinha, Parintins, Maués, Nova Olinda do Norte e Manaus, todas situadas no estado do Amazonas.

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