No maior gargalo da BR-101, no Litoral Norte, há um verdadeiro “salve-se quem puder”. Ou melhor, “locomova-se se puder”. É nessa energia que moradores que têm a rodovia como quintal tentam se organizar diariamente. Bicicleta, motos, patinetes e até percursos a pé são adotados porque quem está cansado de perder tempo parado no trânsito.
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Valdete Alves Reiser é pensionista e mora há 52 anos na frente da BR-101, em Itajaí. No passado, a rodovia era mais tranquila e sequer tinha marginal, descreve. Nas últimas décadas, com o aumento de movimento por causa dos portos, turismo, do crescimento da frota de veículos e de moradores nas cidades da região, o cenário começou a mudar. A duplicação veio em 2011 trazendo, à primeira vista, a promessa de alívio, mas não levou muito tempo para o trecho no Litoral Norte se tornar o principal gargalo da BR-101 em toda Santa Catarina.
— Não tem mais horário de pico. É o dia inteiro, todo dia. Tem vez que leva 40 minutos para dar a volta e chegar aqui. É ruim pra todo mundo, tanto que meu irmão tem um terreno aqui e não constrói por causa desse estresse. Morar aqui na beirada é “brabo” — comenta.
Para evitar o trânsito que parece engolir parte da cidade, moradores adotam “táticas” perigosas para conseguir fazer o básico: ir trabalhar, fazer compras no supermercado, levar os filhos na escola e por aí vai. Alessandra Bernardes, por exemplo, vai para o serviço de auxiliar de serviços gerais pedalando. Para atravessar do bairro Portal 2 ao São Judas é necessário uma hora sobre a bike.
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— A gente tem todo o cuidado e mesmo assim às vezes eles quase passam por cima da gente. Mesmo vendo que estou passando os carros não respeitam — lamenta.
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Há riscos
A Polícia Rodoviária Federal já se posicionou em diferentes momentos sobre os riscos de usar transportes alternativos às margens da BR-101, justamente porque a rodovia é para tráfego rápido e longas distâncias, não servindo como “via urbana”. Porém, em uma realidade em que as cidades engolem as BRs, o que se vê é o contrário:
— Para mim a scooter [tipo de moto elétrica] foi uma alternativa. Tudo que tem que fazer tem que pegar trânsito — desabafa outra moradora, a autônoma Susana Moura Dias.
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Acidentes, buracos, poças, congestionamento e muita pressa fazem parte do dia a dia de quem não tem outra alternativa a não ser se adaptar e conviver com tudo isso.
Alternativa que terminou em tragédia
Para quem também precisa se locomover de forma mais rápida e econômica, só que em longas distâncias, a alternativa também é sobre duas rodas. As motocicletas são figuras frequentes em meio aos carros e caminhões e a exposição que esse tipo de veículo acarreta traz um risco enorme aos pilotos, opina o motoboy André Schmidt.
— Todo dia a gente vê vários acidentes e principalmente mortes, sabe? — lamenta o profissional.
Uma das vidas perdidas na BR-101 foi a da filha de Cibele de Almeida. A dançarina e coreógrafa Desiree tinha 21 anos quando fazia o trajeto de Itajaí a Itapema diariamente para trabalhar em uma academia. A moto que ela pilotava se envolveu em um acidente com caminhão em 2022:
— O que eu soube do acidente é que havia alguém atrás dela fazendo jogo de luz para que ela saísse da frente. É claro que essa pessoa não queria matar ela, não vejo como algo proposital, mas acaba sendo, porque tu sabes do risco — analisa a mãe.
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Na loucura da BR-101, qualquer descuido ou imprudência pode ser fatal.
E a solução?
Uma projeção da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) aponta que, em um bom cenário, a obra de uma nova rodovia pode ser entregue em 2031. Só que aí vem outra questão: até lá o volume de veículos já aumentou exponencialmente acompanhando o crescimento e desenvolvimento das cidades às margens da BR-101. O medo é que a via litorânea por si só não seja a solução completa.
Um transporte alternativo, como um trem ou metrô de superfície, para interligar populosas cidades que contornam o trecho Norte da BR-101 seria uma possibilidade. É uma alternativa para retirar da rodovia uma parte das cargas e um bom número de carros que circulam diariamente entre os municípios, a trabalho e a lazer.
Para isso, seria necessário uma discussão a sério com o governo federal.
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