O inquérito do golpe, que teve sigilo derrubado nesta terça-feira (26), revela que o ex-presidente Jair Bolsonaro pediu apoio às Forças Armadas para se manter no poder. A informação consta no relatório de 884 páginas da Polícia Federal (PF). Conforme o documento, que dá detalhes minuciosos do plano golpista, Bolsonaro teria recebido um “sim” do comandante da Marinha, o almirante Almir Garnier, e do então ministro da Defesa, Paulo Sérgio.

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Conversas do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, confirmam que haveria a sinalização do almirante Garnier de aderir ao plano golpista que estava em curso. Um dos prints (confira os principais abaixo) revela a iminente adesão da Marinha ao que a PF chama de “intento golpista”: “O almirante Garnier é patriota. Tinham tanques e arsenal prontos”, diz a conversa entre Cid e um interlocutor salvo como “Riva”. A conversa ainda sugere que o ex-presidente deveria ter dado sequência à ruptura institucional mesmo sem o apoio das Forças Armadas.

Veja algumas conversas que constam no inquérito

Isso porque o relatório da PF indica, ainda, que Exército e Aeronáutica teriam dito “não” às intenções de Bolsonaro de publicar um decreto que o mantivesse no poder, mesmo após a derrota. “A consumação do golpe necessitaria de um elemento fundamental, o apoio do braço armado do Estado, em especial a força terrestre, o Exército. Para isso, o então presidente Jair Bolsonaro realizou várias reuniões com os comandantes das Forças e com o ministro da Defesa para apresentar o Decreto e obter seus respectivos apoios”, diz o inquérito.

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PF aponta que plano golpista temia prisão de Bolsonaro e planejou fuga com uso de armas

Essas reuniões, ainda segundo a PF, sinalizaram a Bolsonaro que o Exército e a Aeronáutica não participariam do plano golpista, ao contrário da Marinha: “Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se posicionaram contrários a aderir a qualquer plano que impedisse a posse do governo legitimamente eleito. Já o comandante da Marinha, almirante Garnier, colocou-se à disposição para cumprimento das ordens”.

Sem apoio pleno das Forças Armadas, conforme a PF, Bolsonaro se reuniu com o general Braga Netto, com o general Mário Fernandes, com o então ministro da Justiça Ânderson Torres e com Filipe Martins, ex-assessor do ex-presidente. Naquela “tarde e noite” de 15 de de dezembro, como se refere a investigação, o plano de assassinar Alexandre de Moraes teria sido abortado e, com isso, parte da trama golpista teria ido por água abaixo.

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