Teve uma época que quando alguém morria em uma das Vargens ou na Cachoeira, bairros do Norte de Florianópolis, era enterrado no cemitério de Canasvieiras — o único da região. O velório ocorria nas casas e depois o corpo do morto era levado em um carro de boi até o local anexo à igreja São Francisco de Paula. O pessoal do cortejo ia todo aprumado e com sapatos nos pés (o que era raro no dia a dia em que os chinelos dominavam). Depois do sepultamento, o aglomero fazia o caminho de volta. “Com os sapatos pendurados no pescoço porque ninguém tinha costume de usar coisa fechada e dava calos”, comenta Jocelino Plácido Tadeu.

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O manezinho é testemunha do crescimento de Canasvieiras, que já nessa época era uma espécie de subcentro, algo que se mantém até hoje apesar de o local não necessariamente concentrar mais as despedidas dos vizinhos. 

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Nas seis décadas em que Jocelino está vivo, Canasvieiras se consolidou como polo de comércio e serviço, se enquadrando ainda mais como subcentro. Assim como Ingleses, também no Norte, e Coqueiros, na área continental.

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O termo é explicado pelo professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Almir Francisco Reis, como um espaço que concentra uma grande quantidade de atividades e serviços.  

— Quando se fala em subcentro é geralmente um lugar que tem facilidade de acessibilidade, que tem uma grande concentração de diversas funções e serviços e também uma referência simbólica — comenta o professor Almir.

Jocelino é nascido e criado no bairro de Canasvieiras (Foto: Patrick Rodrigues / NSC Total)

Nos três bairros é possível ir ao banco (seja ele público ou privado), no posto de saúde, pet shop, verdureira, comprar roupas novas ou em brechós, adquirir cacarecos ou móveis para a casa, ir em mercados grandes e também nos menores e escolher entre as cinco opções de farmácias instaladas em um raio de 30 metros. Tudo isso sem botar os pés para fora dos limites distritais. 

Além das percepções cotidianas, o crescimento destes locais se traduz em números. São mais de 21 mil empresas registradas na Junta Comercial do Estado se somados os três bairros, segundo dados do governo. Na questão populacional, os dados são defasados, mas, em 2010, quando foi feito o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 29 mil pessoas vivam nessas três áreas. Na época, a Capital tinha 421.240 habitantes vivendo em 88 bairros.

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Essa grande oferta de serviços também possibilita que as pessoas trabalhem no mesmo bairro onde moram, se distanciando da ideia de bairro-dormitório (em que os moradores só ficavam para dormir já que o trabalho e demais atividades de compra, por exemplo, são realizados em outras áreas).

— Isso evita deslocamentos. É muito importante, cada vez mais, juntar trabalho e moradia. Por que acontecem esses grandes engarrafamentos na cidade? Porque a maioria dos empregos estão concentrados no Centro. Quanto mais as diferentes partes da cidade estiverem oferecendo também empregos, menos engarrafamentos — aponta Almir. 

Helena Bossan Duarte, 57 anos, é um bom exemplo disso. Moradora dos Ingleses há 27 anos, ela é dona de uma floricultura ponto de referência no bairro. “Onde fica a loja toalhas?”, “é lá depois da Dona Helena”. “E o sacolão?”, “É na frente da Dona Helena”. 

Helena comanda floricultura nos Ingleses há 27 anos (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Foi nos Ingleses que a gaúcha construiu a vida e criou os dois filhos e é ali onde conhece quase todo mundo “das antigas”. Um traço disso é que a moradora não diz que vai ao médico e, sim, ao Laitano, nome do profissional que fundou uma das primeiras clínicas do bairro e que atende até hoje. Ela lembra de todos os primeiros comércios dos Ingleses e de como ela e a família tinham que se deslocar para o Centro para resolver coisas no banco e comprar itens mais especiais. 

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Hoje não é mais assim, diz Helena. Tudo pode ser resolvido ali. O ruim é que o crescimento do bairro, o qual ela descreve como “desgovernado”, trouxe consequências para o cotidiano. 

— Na ida e vinda para a casa eu penso “meu Deus, o que é isso?”. De uns 11 anos para cá a gente pega fila para ir para casa. Antes nós levamos um minuto e meio ou dois, hoje você leva 25 [minutos], 30 [minutos] quando não é verão — comenta Helena. 

O trânsito não é alvo principal das reclamações de Jocelino, mas ele também vê que Canasvieiras cresceu rápido. O bairro que, na década de 1960 era de moradores de pescadores e lavradores, caiu no gosto dos argentinos na década seguinte. Foi onde começou o “boom” turístico na região. 

As casas de veraneio dos moradores do Centro da cidade acabaram em sua maioria vendidas para os gringos que vinham aos montes. Os hotéis e restaurantes também aumentaram de capacidade para dar conta da clientela. O próprio Jocelino foi um dos que abriu um negócio voltado para os argentinos. A família montou uma padaria que vendia quitutes do país vizinho e a manteve em lucro por 10 anos. 

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Hoje, Jocelino acha que o bairro caminha para uma verticalização ainda intensa. 

— Vão construir prédios no lugar das casas e depois destruir esses prédios para construir edificações ainda maiores — diz Jocelino. 

Coqueiros é o subcentro do Continente 

Henrique é morador orgulhoso de Coqueiros e presidente do Clube Doze de Agosto (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

No bairro de Coqueiros, no Continente, as linhas de ônibus circulam quase de 15 em 15 minutos, a via gastronômica tem sushi, hambúrguer e feijoada aos sábados. Há também uma unidade do Clube Doze de Agosto, um dos mais tradicionais da cidade. A piscina da sede foi onde treinou por um tempo Fernando Scherer, o Xuxa, campeão olímpico. 

Henrique Jacintho de Oliveira, atual presidente do clube, é um fã do bairro. Se questionado sobre os problemas de Coqueiros, ele demora a conseguir elencar alguns. 

— A gente tem tudo aqui. Consegue ir a pé para o Centro pelas pontes — comenta. 

Mas Henrique se preocupa com a balneabilidade das praias do bairro, que constantemente tem seus pontos considerados impróprios para o banho pelo Instituto de Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). 

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— A principal e urgente é melhorar a balneabilidade das praias de Coqueiros. A praia do Meio, praia da Saudade, das Palmeiras e do Riso. Isso para resgatar o passado onde todo mundo frequentava. Eram outros tempos — acrescenta Henrique. 

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