Casa. No dicionário, o significado é: família; lar. Lugar destinado a encontros, a reuniões, ou à moradia de certas categorias de pessoas, cujos interesses, origens e cultura por vezes representa. Ao longo dos 100 anos de história, o Avaí Futebol Clube, chamou dois endereços de casa.

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O clube, que nesta sexta-feira (1/9) completa 100 anos, nasceu no centro da cidade. Estádio Adolfo Konder. Conhecido também como Pasto do Bode, ou Campo da Liga. Uma casa dividida entre Avaí, Figueirense e tantos outros times. Mas, quem fez daquele gramado, cercado por eucaliptos, o seu templo, foi o Leão da Ilha.

Adolfo Konder, a primeira casa avaiana
Adolfo Konder, a primeira casa avaiana (Foto: arquivo/Avaí)

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Nessa relação entre Adolfo Konder e Avaí, Saul Oliveira, o Saulzinho, foi o maior jogador que passou por ali.

— Tem uma história que um zagueiro tava marcando ele muito. Ele fez uma manobra, fingiu que se machucou e combinou [a jogada] com o Nizeta, que era um meio-campo de altíssima qualidade. Quando o zagueiro saiu de perto dele, ele se levantou, o Nizeta lançou a bola e ele fez o gol — conta Saul Oliveira Filho, filho mais velho do ídolo avaiano.

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Saulzinho é o maior artilheiro da história do Avaí com 203 gols (Foto: Memória Avaiana/Reprodução)
Saulzinho é o maior artilheiro da história do Avaí com 203 gols (Foto: Memória Avaiana/Reprodução)

Saul jogou no Avaí de 1939 a 1953. Ele foi tetracampeão catarinense e se tornou o maior artilheiro da história do clube. Os números são imprecisos. Oficialmente foram 205 gols com a camisa avaiana. Mas quem acompanhou essa trajetória, discorda. Se estivesse vivo, Saulzinho diria que marcou mais de 400 gols com a camisa avaiana.

Após ser jogador e técnico, Saul ultrapassou o campo e chegou à presidência do Avaí. Uma trajetória inspiradora, que virou sinônimo de homenagem. Hoje, quem faz história no Leão da Ilha é condecorado com a medalha Saul Oliveira.

— A saudade é eterna, agradeço pelo exemplo de pai, de amigo que foi. Lembrar sempre e agradecer por lembrarem sempre dele — diz Gilberto Oliveira, filho mais novo de Saul.

Já aposentado, Saul visitou o elenco avaiano nas vésperas da decisão do Campeonato Catarinense de 1997 e deu sorte. O Leão da Ilha venceu o Tubarão e sagrou-se campeão.

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O último jogo no Estádio Adolfo Konder foi em 1983, uma partida festiva entre um combinado de craques do Avaí e do Figueirense.

Ressacada, uma nova era azurra

Há 40 anos iniciava uma nova fase dessa história centenária. No dia 15 de novembro de 1983, o Avaí inaugurou o Estádio Aderbal Ramos da Silva, a Ressacada. Foi em um amistoso contra o Vasco da Gama, onde o time carioca venceu por 6 a 1.

Ressacada, casa do Avaí há 40 anos
Ressacada, casa do Avaí há 40 anos (Foto: Laysa Silva/Avaí F.C.)

No segundo tempo daquela partida, entrou em campo Décio Antônio. Que escreveu o nome da história do clube marcando 57 gols na Ressacada. Por 30 anos ele carregou o posto de maior artilheiro do clube no estádio.

Décio Antônio chegou ao Avaí em 1983 e marcou 54 gols, sendo o segundo maior artilheiro do estádio da Ressacada (Foto: Arquivo Pessoal/Polidoro Júnior)

Até 2017, quando Marquinhos Santos marcou, de falta, o gol de número 58 dele na Ressacada.

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— Eu jogo direto no gol, o goleiro tenta ir na bola antes, a bola quica na frente dele e passa. Foi um gol que mais cedo ou mais tarde ia sair — relembra Marquinhos.

Ao longo dos 100 anos do Avaí Futebol Clube, centenas de jogadores vestiram as cores do clube. Muitos deixaram sua marca no Adolfo Konder. Outros tantos na Ressacada. Mas poucos entraram para história. A nação avaiana sempre soube onde é o lugar para chamar de casa.

Pereirinha, o ídolo dos ídolos

Uma vida dedicada a um clube. Delmar da Rosa Pereira, o Pereirinha, massagista do Avaí, foi contratado em julho de 1984. Desde então, ele se tornou morador de Florianópolis e símbolo um clube que hoje completa 100 anos.

-O Avaí significa a minha vida praticamente. Eu tenho 78 anos e tenho 40 anos aqui dentro do Avaí – revela, o emocionado Pereirinha, testemunha ocular da mudança do clube.

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Na linha do tempo da história, lugar cativo. Na era Ressacada, quase um amuleto. No coração que já viveu tanto nesse lugar, a memória é de conquistas inesquecíveis, como o título brasileiro da Série C em 1998, chamado por ele o “da estrelinha” no escudo da camisa avaiana.

Marquinhos, Pereirinha e Felipinho
Marquinhos, Pereirinha e Felipinho (Foto: reprodução NSCTV)

Na rotina de Pereirinha existe um trabalho perfeccionista. Se um jogador está machucado, ele resolve. Um pouco confidente, amigo e conselheiro, como relata ninguém menos que o maior ídolo da história do clube, o ex-meia e agora coordenador técnico Marquinhos Santos:

-A gente tem ele como um pai, literalmente. Muitas vezes é o cara com quem a gente desabafa, que nos dá uma palavra de incentivo. É um cara que viveu épocas diferentes da nossa, que já passou por muitas coisas que a gente não havia passado. Agora do lado de fora eu vejo como é importante a presença do Pereirinha com a gente, assim como outros personagens mais antigos. Foram caras que sempre cuidaram da gente, deram toda a calma e sempre trataram a gente como filho porque a gente vivia mais junto do que a própria família.

Os serviços prestados por Pereirinha extrapolaram os muros da Ressacada. Agora, ele é um cidadão honorário de Florianópolis, título recebido em 2023, pelo poder público da Capital. Reconhecimento de uma cidade que o acolheu na década de 1980. Por aqui, o seu Delmar virou Pereirinha.

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-Quarenta anos aqui né, então já sou mais manezinho do que gaúcho. Fui muito bem recebido aqui em Santa Catarina e especialmente em Florianópolis. As pessoas me adotaram assim como eu adotei Florianópolis como a minha cidade.

Trina e oito anos ele tem de clube. O que nenhum jogador do atual elenco tem de vida. O ídolo Marquinhos, hoje na comissão técnica, chegou ao Avaí em 1999. Entre idas e vindas, quase duas décadas de clube. Momentos de alegrias e dificuldades, sempre na companhia do seu Delmar.

-Um cara que eu tenho um carinho especial, sempre esteve ao lado da minha família… chegou a me emocionar aqui. Esse cara é especial, que ama o Avaí. Que sempre está ali pra arrancar o nosso sorriso. Um cara que vive o Avaí. Ele é muito importante para a nossa profissão – diz Marquinhos, antes de um abraço e um beijo na “careca” do Pereirinha.

Além de um exemplo para os mais experientes, Pereirinha é uma referência para os mais jovens, como Felipinho, que vive seus primeiros momentos como profissional e também tem no massagista do clube uma pessoa em quem confiar:

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-A gente subia para fazer alguns treinos [da base no profissional] e ele sempre nos tratava com muita humildade. É bizarro ver a importância que ele tem dentro do clube. É muito gratificante ter o carinho do Pereirinha aqui com a gente. – afirma Felipinho.

Personagem de uma história centenária. Símbolo de amor, dedicação e comprometimento. Esse é Pereirinha, talvez o sujeito do clube atualmente que mais entoou uma frase que faz bater mais forte o coração de cada torcedor azurra:

-Avaí, meu Avaí. Tu já nasceste campeão.

Avaianos desde o nascimento, literalmente

Já nascer campeão. Já nascer com coração pulsando no ritmo dos campos que embala o time da raça. Como explicar esse sentimento. Quando despertar essa paixão? Existe um momento para começar a amar esse time? Para vestir com o orgulho o manto azul e branco e fazer da Ressacada a sua casa e festejar em família um gol, a vitória… a escolha, ou destino de ser Avaí desde criança.

Quando se tornou sócio do Avaí logo nos primeiros deias de vida, o Eduardo sequer tinha RG, mas já estava no registro geral dos avaianos. Eduardo Reis Pessi já saiu da maternidade vestindo azul e branco. Estranho seria se não fosse assim sendo filho da Roberta e do Bernardo.

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Roberta e Bernardo, com o pequeno Eduardo, avaiano desde o primeiro dia de vida
Roberta e Bernardo, com o pequeno Eduardo, avaiano desde o primeiro dia de vida (Foto: reprodução NSC TV)

-Em alguns jogos eu vim grávida. No acesso à Série A e eu estava aqui bem barriguda com ele, que ele deu sorte – brinca a mãe sorridente, ao lado do pai, manezinhos e, claro, avaianos apaixonados.

O primeiro jogo do pequeno Eduardo na sua segunda casa foi no dia 11 de setembro de 2022, no empate com o Athletico-PR pela Série A,

-Desde que a gente soube que ia ser pai a gente planejou esse momento de trazê-lo na Ressacada e foi bem legal. Ele adorou, curtiu bastante – recorda-se o pai.

Mesmo ainda sem entender muito o que acontece, o significado para os pais do Eduardo tê-lo na Ressacada traz um componente especial, um significado novo a cada jogo do Avaí com a família completa na arquibancada, que volta ao tempo em que Bernardo era trazido ao estádio pelo avô de seu filhote.

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-Um brilho a mais, um componente a mais. E a gente enxerga isso no avô dele, que provavelmente sentia a mesma coisa quando me trazia no estádio na mesma idade – relembra Bernardo.

Essa sensação é a de muitos outros pais também. Hoje o Avaí tem 9.787 sócios. E como paixão vem de berço muitas outras conexões foram criadas pela mesma história centenária. Hoje são 355 sócios mirins, criança de até 12 anos, que podem até não entender como, nem como começou, mas já vivem essa paixão.

Cupido avaiano

A Anita e o Joaquim receberam a sua carteirinha de sócios do Avaí no primeiro dia de vida. E não poderia ser diferente, pois são filhos de um casal que se conheceu na Ressacada. O Leão da Ilha foi o cupido deles.

-Eu era repórter de rádio e conheci a Cláudia no estádio da Ressacada. A gente começou a conversar, depois fomos numa festa e decidimos ficar juntos. Hoje a nossa relação com o Avaí é uma questão de vida. A nossa agenda é montada com base nos jogos e no que o Avaí faz – afirma Vandrei Bion, jornalista.

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Cláudia Bion, Vandrei Bion e os filhos Joaquim e Anita
Cláudia Bion, Vandrei Bion e os filhos Joaquim e Anita (Foto: reprodução NSC TV)

A família está em quase todos os jogos. Os irmãos se divertem na arquibancada. Se sentem na sala de casa. E faz sentido, se formos parar para pensar que o lar deles começou a ser construído no estádio azurra, casa de tantas paixões.

Como disse Vandrei Bion, “parecia que nunca ia chegar, mas o centenário chegou”, e essa nova geração, formada por pequenos como Eduardo, a Anita e o Joaquim, serão o futuro do Avaí.

Ainda é cedo para eles entenderem o significado desse sentimento nas últimas dez décadas, mas seus pais já sabiam, pois desde o primeiro momento em que seus filhos vieram ao mundo eles os pegaram no colo e fizeram questão de abraçá-los com a segunda pele: a de um leão azul e branco. O destino já havia decidido que eles seriam avaianos.