Quando Mauro Möller acordou na manhã daquele 9 de fevereiro de 1995, Joinville continuava sendo atingida pela mesma chuva que caia ao longo dos últimos dias. O empresário continuou suas atividades de rotina sem imaginar que um temporal chegaria, deixando três mortos e milhares desabrigados. Também não passou pela sua cabeça que aquela quinta-feira ficaria marcada por uma das maiores enchentes da história da cidade. Além da memória dos moradores, fotos da época também contam como o temporal impactou Joinville. 

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Mesmo após trinta anos, quem viveu aquela quinta-feira de fevereiro jamais esqueceu. Aos 60 anos, Norberto Davet tem essa memória viva em sua mente. Ele lembra até hoje as imagens do rio Cubatão enchendo e tomando conta da propriedade. Dona de um comércio local, a família viu a água levar geladeira, bebidas e outros produtos. Só foi possível salvar um trator e alguns objetos que foram amarrados com correntes, impedindo que também fossem levados pela enchente.

Por que SC lida com tantos extremos climáticos? Reportagem explica

— A gente tentou tirar e amarrar as coisas assim, amarramos o trator, o carro, essas coisas. Tentamos tirar algumas coisas do comércio ainda, que já existia naquela época, mas não deu mais tempo. Aí a gente teve que sair rápido do local, porque senão, o rio levava ‘nós’ embora junto — lembra Davet.

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Norberto Davet viu o rio Cubatão invadir a casa da família (Foto: Fernanda Silva, A Notícia)

A família mora na Estrada do Pico, ao lado do Rio Cubatão que, por conta da chuva e maré alta saiu da calha e começou a entrar nas casas. Assustados, os Davet tentaram salvar o que podiam com a ajuda de vizinhos. A água já chegava na cintura quando eles conseguiram deixar o local. Uma das filhas de Norberto precisou ser carregada nas costas por um amigo.

— Foi um dia muito assustador para a gente. Vem na lembrança muita chuva. Já vinha chovendo há uma semana, mais ou menos, uma chuva torrencial todo dia. Aí veio uma chuva mais forte, onde o solo praticamente não absorveu mais a água. O rio, ele subiu bastante e subiu os barrancos, onde chegou até em torno das nossas casas — conta o empresário.

Enchente fez ruas virarem rios

Perto dali, na SC-418, Mauro Möller viu a ponte que liga a rodovia, e que fica na frente de sua casa, desmoronar. A força da água fez o concreto ceder. Imagens flagraram o momento em que todo o asfalto caiu no rio que passa sob a ponte. 

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— A gente vendo a ponte cair e com aquele medo. Porque a água estava subindo e poderia entrar nas nossas residências. Graças a Deus, depois da queda da ponte, até facilitou o escoamento da água e dessa forma não permitiu que as águas entrassem nas nossas  casas e no nosso comércio — lembra o empresário, que era o intendente distrital de Pirabeiraba naquele período.

Mauro Möller presenciou a queda da ponte e ainda mora ao lado da estrutura (Foto: Fernanda Silva, A Notícia)

Outra pessoa que tem a lembrança daquele dia muito viva na memória é o ex-repórter da RBS, hoje NSC TV, Geraldo Lion. Naquela quinta-feira, dia 9 de fevereiro, o jornalista e o cinegrafista Francisco Schimiler Oliveira embarcaram no helicóptero Águia da Polícia Militar e, do alto, tiveram uma dimensão ainda maior da quantidade de água que corria pelas ruas de Pirabeiraba.

— Nós fomos destacados para ir lá, no olho do furacão, que era o caminho entre a BR-101 e a Vila Dona Francisca, fazendo então esse trabalho de correr atrás das imagens. Nós iniciamos o dia em um sobrevoo de helicóptero com a PM e, lá na serra, nós vimos vários caminhos abertos pela quantidade de chuva que foi precipitada naquele dia — lembra Geraldo.

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Veja imagens da ponte que desabou

Depois de captar as imagens do alto, era hora de percorrer por terra. Geraldo e Francisco estavam na região do Rio da Prata, acompanhando as enchentes que atingiram os moradores quando, de repente, viram que a ponte da SC-418 desabou. 

— Era muita água que descia pelo Rio da Prata, até que veio uma árvore, passou por debaixo da ponte, veio outra, passou por debaixo da ponte, mais uma e lá pela quinta ou sexta, a árvore levou a ponte junto. Ela foi desmoronando e nós gravando. Foi muito impactante para mim — conta o repórter.

Na época, a queda da estrutura deixou a SC-418 sem ligação, separando famílias, moradores da comunidade e a equipe de reportagem. Para tentar recuperar o contato, o 5º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, de Porto União, construiu uma ponte provisória dias depois. De acordo com o morador Mauro Möller, a estrutura ficou em pé por cerca de dez meses até que a nova ponte ficasse pronta. Esta é a construção que existe até hoje no local. Ao lado dela, dentro da água, ainda é possível ver os entulhos da ponte antiga, encalhados no local.

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Do outro lado da ponte, a equipe de reportagem acabou isolada junto com os moradores sem poder voltar para a sede da emissora e trazer o material gravado para o jornal da noite.

— Nós testemunhamos a queda da ponte, filmamos o asfalto se dissolver. O trânsito ficou interrompido alguns dias. O problema era trazer a fita para colocar no RBS Notícias, pois ficamos presos do lado de lá. Conversando com os moradores, nos ensinaram um caminho por dentro da mata, saindo da estrada. Então, o carro ficou e eu e Francisco viemos a pé por dentro da floresta até a BR-101, onde um outro veículo da emissora nos resgatou — recorda Geraldo. A equipe conseguiu entregar as fitas, ajudar a edição e, por fim, finalizar o material para que ele fosse ao ar no mesmo dia à noite. 

Tsunami de enchente atingiu vários bairros

Os relatos dos moradores e do repórter demonstram como a chuva impactou a comunidade. Porém, não foi somente aquele trecho de Pirabeiraba que sofreu com o “tsunami” da enchente. Ainda naquele dia, a força da chuva estourou as barragens do Rio Cubatão. O ocorrido fez com que parte de Pirabeiraba tivesse a água escoada. Mas, enquanto o alagamento diminuía na região da SC-418, outra parte do bairro enchia.

Moradora do “Centro de Pirabeiraba”, como a área é conhecida, Marcia Gehrmann Voigt viu as ruas serem lavadas pela água com o estouro das barragens. A família possui um comércio de venda e conserto de bicicletas e, nunca antes na história, havia entrado água dentro do imóvel. 

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A loja da família encheu pela primeira vez naquele dia 9 de fevereiro de 1995 (Foto: Fernanda Silva, A Notícia)

Foi necessário correr, erguer as peças das “zicas”, ferramentas e objetos mais preciosos. Depois, a família subiu para o segundo andar da casa, de onde acompanhou a passagem da enchente.

— Eu lembro que entrou água aqui e as peças estavam flutuando. Aí, a gente correu rapidinho para levar elas para cima. Nunca tínhamos visto isso, a gente ficou com medo, lógico. Algumas coisas a gente não conseguiu recuperar. Lembro da rua cheia, a pracinha também. ‘Daí’, tinha uma parte ali na pracinha que não tinha água, meu pai e todo mundo começou a colocar os carros lá para cima. Foi uma loucura — conta Márcia.

Marcia mostra onde a água chegou (Foto: Fernanda Silva, A Notícia)

O rompimento da barragem foi um dos principais fatores que contribuíram para o estrago na cidade, conta Wivian Nereida Silveira, que é mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e fez um estudo sobre as enchentes em Joinville desde a fundação até o ano de 2008.

— O colapso da estrutura de partição de vazão do Rio Cubatão do Norte em Pirabeiraba, pois a vazão do rio era tal que o vertedor não suportou e rompeu, destruiu. Os bairros Jardim Sofia, Jardim Kelly, Jardim Paraíso ficaram embaixo d’água, a exemplo de todo o município de Joinville — explica.

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A chuva deixou como saldo mais de 5,7 mil desabrigados, 15 mil desalojados e três mortes, conforme cita a pesquisa feita por Wivian. Entre as vítimas fatais estão um garoto, morador do bairro Jardim Sofia, que não teve o nome e idade revelados, Pedro Roberto Castelhano, do Boa Vista, e Arlindo Krelling, de 68 anos, que morava em Pirabeiraba.

Em 2009, Wivian publicou um livro sobre as enchentes de Joinville. Em um trecho, a mestre em engenheira ambiental cita outros estragos deixados pelo turbilhão de água que atingiu 22% da área total da cidade. 

“O relatório da Defesa Civil de Joinville apontou: prejuízo total de R$ 46.417.492,39, […] 15 pessoas feridas, 5.000 casas atingidas, R$ 8 milhões de reais de prejuízos agropecuários, R$ 12 milhões de prejuízos pessoais, 942 mil árvores atingidas pelos deslizamentos, R$3.164.550,00 com prejuízos industriais, R$ 17 milhões com prejuízos na barragem, pontes e canais […] A Comissão Municipal de Defesa Civil, Comdec contabilizou 5 mil casas atingidas – deste total, 38 ficaram totalmente destruídas e 515 danificadas; 159 ruas atingidas; 7 quedas de barreiras; 21 pontes, canais e galerias atingidas; R$ 25.320,00 de prejuízos em prédios da Prefeitura; R$ 945.230,00 de prejuízos em estabelecimentos de ensino; R$150.000,00 de prejuízos em equipamentos de saúde e R$ 430,00 de prejuízos em equipamentos de segurança”, cita um trecho da publicação.

O que mudou depois da grande enchente

Nos dias seguintes da enchente de 9 de fevereiro, as famílias que não tiveram as casas totalmente destruídas pelo turbilhão puderam voltar ao lar. Com o retorno, chegou também o momento da reconstrução.

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— Foi muito sofrido. A gente não tinha dinheiro, eu tive que começar a fazer tudo sozinho. Tive ajuda de um amigo, que ainda me ajudou com máquinas, essas coisas, para tirar o material de cima e limpar o terreno para a gente poder reconstruir novamente — recorda Norberto Davet. 

Além da limpeza das casas, em Pirabeiraba, foi necessário restabelecer a passagem na SC-418. Mauro Möller, superintendente do distrito naquele ano, conta que com a ajuda dos moradores e servidores da prefeitura foi possível, em poucos dias, dar acesso aos moradores. No início, por meio de barco, mas logo depois, por meio da ponte de metal construída pela equipe do 5º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, de Porto União.

Nos meses seguintes, outras obras foram executadas para evitar mais uma enchente histórica como aquela. Morador de Pirabeiraba desde que nasceu, Davet conta que nunca mais viu outro episódio igual ao de 1995. O joinvilense lembra que, pouco depois do ocorrido, o rio Cubatão foi desassoreado — ou seja, terra, sedimentos, lixos e outros materiais foram retirados do fundo do rio para permitir que a água fluísse melhor. 

Além de Pirabeiraba, o doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor  de Engenharia Civil da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Leonardo Romero Monteiro conta que os bairros Jardim Sofia e Jardim Paraíso também receberam obras para reduzir, mesmo que pouco, os impactos de enchentes.

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— Por volta de 1990 foi criada uma obra de engenharia para reduzir as inundações nesta região. Ela é composta por uma barragem com dois vertedores e um novo canal que desviou parcialmente o rio Cubatão de seu leito original. Esta obra está em funcionamento e se encontra no Norte do município. Perceba que, ainda assim, estas regiões sofrem inundações com frequência, provavelmente menos do que antes, mas muitas vezes os moradores ainda ficam ilhados e não conseguem sair de suas casas — explica.

E de fato, em 2025, alagamentos, enchentes e inundações seguem fazendo parte da realidade de Joinville. Segundo a prefeitura, a atual gestão municipal tem investido em ações que visam reduzir os impactos das chuvas. Uma delas é o Plano Municipal de Gestão de Risco de Desastres, que deve ser finalizado durante este ano e deve estabelecer medidas e ações para a gestão eficiente dos riscos através da indicação de estudos necessários, intervenções físicas e também de educação e percepção de riscos. Outro trabalho que foi ampliado no município é o avanço no monitoramento e alerta de desastres à população. 

Desde 2021, a Secretaria de Infraestrutura Urbana tem um trabalho permanente de limpeza de rios, valas e canais. Somados os anos de 2021 a 2024, foram limpos 648 quilômetros de rios, valas e canais, de onde foram retirados mais de 50 mil toneladas de materiais, o equivalente a 4.195 caminhões. De acordo com a prefeitura, este trabalho realizado no Jardim Sofia contribuiu para que o bairro não registrasse alagamentos desde 2022.

Também há investimento com dragagem, limpeza, alargamento e melhorias ambientais no Rio Águas Vermelhas. A obra ainda está em andamento e, após a conclusão, deve melhorar a vazão da água e contribuir para amenizar cheias e alagamentos em bairros como Vila Nova, São Marcos, Morro do Meio e Nova Brasília.

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A prefeitura de Joinville informou que está em processo junto ao governo federal para a execução de uma obra orçada em quase R$ 206 milhões. O Termo de Compromisso com a União foi assinado em novembro do ano passado e, agora, a Prefeitura está na fase de levantamento da documentação. A obra de galeria de macrodrenagem do rio Jaguarão consiste na implantação de uma galeria de seis metros de largura por cinco metros de altura que inicia na rua Bahia e segue até o fim da rua Affonso Penna, onde deságua o rio. 

Também estão em fase de estudos os novos Planos Diretores para as Bacias do Cachoeira, do Piraí, Cubatão, Vertente Leste e Sul. Com esses planos elaborados, o município terá alternativas estruturais e não estruturais para as principais bacias hidrográficas. Entretanto, o governo municipal reforça que estes estudos estão em fase inicial.

Por que Joinville sofre tanto com as águas?

Historicamente, Joinville é uma cidade que é fortemente atingida por alagamentos, enchentes e inundações. A investigação feita pela mestre em engenharia ambiental Wivian Nereida Silveira apontou que, dos 157 anos analisados no estudo, de 1851 a 2008, 111 deles ocorreram inundações. 

A especialista observou na análise da série histórica que houve uma tendência de diminuição da chuva, a precipitação anual. Segundo ela, até 1890 a precipitação média foi a maior para o período analisado, provavelmente associada a eventos intensos de El-Niño ocorridos em 1877,1878, 1889, 1889 e 1890. Wivian também observou que a partir de 1891 houve um decréscimo da precipitação, chegando no seu mínimo na década de 1940. Posteriormente, houve um aumento nas médias da precipitação, mas com valores inferiores aos do século 19.

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— É possível afirmar que, com o passar do anos, a frequência das inundações em Joinville aumentou, todavia os volumes de chuva diminuíram, o que sugere que outros fatores contribuem para o aumento na frequência de inundações que não são as chuvas. Os elementos que foram analisados para o desenvolvimento das investigações científicas são: frequência de inundações, volume anual de chuvas, ou seja, a precipitação média anual, crescimento populacional e expansão urbana — comenta. 

Com isso, a pesquisadora chegou a algumas conclusões sobre os motivos que levam Joinville a alagar. Um deles é a relação entre inundação e urbanização. O aumento das áreas impermeáveis, efeito típico da urbanização, diminui a capacidade de infiltração, provocando o aumento do escoamento superficial, explica a especialista. Assim, um evento de chuva que normalmente não causaria uma súbita elevação dos rios, acaba por gerar um evento de inundação.

O doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, Leonardo Romero Monteiro, também explica que o município foi estabelecido, em 1851, em uma área propensa a inundações. Por isso, o município de Joinville precisa se adaptar a uma situação natural do próprio terreno em que foi estabelecido, diz.

Conforme explica Leonardo, a situação de inundação nessas regiões é natural, ou seja, antes do município existir, essas regiões já eram inundadas. Como Joinville é afetada tanto por inundações de chuva quanto por inundações de maré, a situação se mantém e é mais complexa de ser resolvida do que normalmente. Assim, os problemas de inundação em Joinville são persistentes e obras básicas de drenagem podem reduzir alagamentos, mas ainda sim eles ocorrem com uma frequência bastante elevada.

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— Joinville foi construída em cima de uma região inundável, de mangue, basicamente. Desde 1850 já se sabia que a região inundava, mas se decidiu começar a ocupação mesmo assim. É uma região que, dependendo de como a maré está, pode acabar atingindo regiões mesmo sem chuva. A drenagem ela falha porque a água está voltando, na verdade, para onde ela devia estar indo — explica Leonardo.

Wivian ainda cita que a incapacidade das administrações municipais em acompanhar adequadamente o ritmo de crescimento urbano resultou em problemas, consequência da inobservância dos condicionantes físico-naturais. Este fator provoca sucessivas inundações e geração de novas áreas de risco, o que compromete severamente a infraestrutura instalada com o aumento exponencial dos custos de manutenção do sistema urbano e até prejuízos materiais em escalas variadas, demonstra a pesquisadora.

Mesmo com obras, município deve continuar sofrendo alagamentos

Trinta anos depois, Davet acredita que seja muito difícil que outra enchente repita os estragos daquela de 1995. Entretanto, não acha que seja impossível, ainda mais diante da atual crise climática.

— É difícil de ocorrer, mas pode [acontecer]. Contra a natureza não dá para dizer que não vai ocorrer mais. Mas, é muito difícil porque o leito do rio está bem mais baixo, a calha de vazão é muito maior — opina.

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Mauro Möller, que viu a natureza derrubar uma ponte de concreto ao lado de sua casa divide a mesma opinião que o vizinho. 

— Isso a gente não pode garantir [que não vai mais ocorrer]. Foi uma das maiores enchentes, mas esses fenômenos naturais podem voltar a acontecer. Apesar de que a nossa região está sendo muito bem preservada, isso com certeza ajuda a reduzir os impactos desses fenômenos — indica Mauro.

Especialistas, entretanto, acreditam que novos eventos de grande magnitude devem ocorrer na cidade. Uma das razões citadas por Leonardo Romero Monteiro são as mudanças climáticas, que têm causado mais eventos de seca, de deslizamentos, mais eventos extremos no geral. Por isso, o especialista acredita que, futuramente, possam ocorrer novas inundações severas na cidade.

— O aumento populacional das áreas naturalmente suscetíveis a inundações, como as beiras dos rios, áreas de baixa altitude e de relevo plano, como a planície de inundação, acabam ocupadas. Com o aumento da população, eventos de inundação que ocorrem atualmente acabam causando mais prejuízos, afetando mais pessoas e se tornando mais severos do que os eventos do passado — aponta Wivian Nereida Silveira.

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Para redução de danos e salvamento dos moradores, o professor de Engenharia Civil da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) comenta que a universidade fez uma parceria com a Defesa Civil de Joinville para que a cidade tivesse um sistema de câmeras. Parte desses aparelhos, que também servem para monitoramento da segurança e trânsito, estão voltadas para o rio e regiões que inundam.

— Para a Defesa Civil já saber o que está acontecendo e se preparar. A gente já tem alertas no nosso próprio celular. Nós estamos mais preparados. A sociedade de 50 anos atrás é completamente diferente, a gente tem uma comunicação muito mais rápida, muito melhor. Temos que continuar nos preparando porque a situação pode piorar efetivamente — explica Leonardo.

O especialista lembra, porém, que apesar do alerta, a situação de Joinville não deve ser a mesma registrada no Rio Grande do Sul em 2024, em que as cidades ficaram alagadas por inúmeros dias. Isso porque, segundo o professor, Joinville está muito perto do mar, E a água chega muito rápido no mar. Ele explica que a bacia geográfica do Rio Cachoeira é minúscula comparada com a bacia do Rio Grande do Sul e, com isso, o tempo de resposta é mais rápido. Na cidade, em 15 minutos de chuva as ruas já começam a alagar, mas em contrapartida, em poucas horas a inundação vai embora.

Hoje, em Joinville, a Defesa Civil possui um  Plano de Contingência da Defesa Civil Municipal (Plancon). Com o Plancon, cada uma das secretarias, órgãos municipais, forças de resgate e salvamento, além de equipes preparadas para atuarem em situações de desastre sabem quando serão acionadas, quais as suas atribuições e a quem cada um responde diante de uma situação de desastre. Os estágios também são estruturados e avançam conforme a gravidade das ocorrências.

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Também existem os alertas emitidos por órgãos oficiais. A Defesa Civil de Joinville informa a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Joinville que faz a comunicação para a imprensa, no site oficial e também nas redes sociais para orientar e dar dicas de como agir e como se proteger em cada um dos casos. Esse trabalho de comunicação é mantido e reforçado quando ocorrem situações de grande volume de chuva, temporais, ou alagamentos, por exemplo.

O Gabinete de Crise é acionado pelo prefeito Adriano Silva e coordenado por ele, quando há necessidade que todas as secretarias, órgãos municipais e forças de segurança, resgate e salvamento estejam empenhadas em orientar, proteger, e se houver necessidade, realizar ações para resgate e salvamento da população. É a partir das reuniões do Gabinete de Crise que são decididas as decisões sobre as ações que serão tomadas, inclusive a elevação dos níveis do Plancon.

O professor Leonardo também ressalta a importância do investimento em obras. Ele indica algumas soluções de engenharia que podem ser usadas para a redução de danos, como as usadas na Holanda, que possui sistemas de comportas e barragens que controlam a entrada da maré. Outro exemplo é o sistema de diques e comportas na grande Porto Alegre, que infelizmente falhou em 2024. 

— A questão é que além de um impacto social e ambiental bastante relevante, estas obras podem falhar, e quando falham a catástrofe é maior do que se elas não existissem, pois as pessoas se sentem seguras e ocupam regiões em que antes eram frequentemente inundadas. Cientificamente, chamamos este efeito de “Paradoxo dos Diques” (Levee Paradox em inglês) — cita.

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O especialista ainda cita Curitiba, que tem um conjunto de obras que organizaram o município para receber as águas, armazenando-as. O professor defende que a engenharia englobe a organização da cidade e não apenas grandes obras.

— Eu sou a favor de que o município se reorganize e se transforme em algo semelhante a uma cidade esponja. Serão necessárias desapropriações, alteração da localização de estruturas como o terminal do centro, talvez a mudança de organização do próprio centro de Joinville. Necessitamos de um bom projeto feito exclusivamente para Joinville, pensando em suas características, sem ter medo de mudanças. Temos uma escassez de parques inundáveis no município — exemplifica.

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