No coração de Tijucas, a 60 quilômetros de Florianópolis, toca uma banda. Ou melhor, reverbera uma escola de música. Fundada em 10 de julho de 1957, a Associação Musical União Tijuquense ensina gratuitamente a arte de cantar e tocar instrumentos para sucessivas gerações. Motivos diferentes levam os alunos, com idade e grau de escolaridade diversos, a se aproximar do prédio estrategicamente localizado na Avenida Bayer Filho, 1335.

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Kamille Cavalheiro Machado, de oito anos, faz aulas de violão por gostar e se inscreveu no canto. Laudirene Miranda Cardoso, de 54, se dedica ao violino por orientação médica, pois sofreu dois AVCs (Acidente Vascular Cerebral) e precisa movimentar os braços. Já Radassa Samy, de 18, queria tocar flauta transversal, mas não tinha dinheiro para comprar o instrumento: passou pela sede, entrou e hoje mostra habilidade. Vinicius de Souza Ferreira, de 12, pediu aos pais para estudar sax alto. Foi atendido e se diz feliz pela escolha.

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A música tem o poder de transformar o ambiente

Atualmente são 800 alunos cadastrados. Cerca de 700 com frequência semanal. As aulas são de segunda a sextas-feiras na sede e em dois bairros. Entre os oito professores, a maioria é formada por ex-alunos.

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— Eu tinha oito anos quando comecei a frequentar a escola. Gostava de fanfarra, mas era pequeno e não sabia tocar nenhum instrumento. Ingressei nas aulas de trompete, tornei-me músico, cheguei a professor e hoje sou presidente da instituição. Posso dizer que experimentamos mais do que música, pois além do ensino musical, a gente procura desenvolver o lado humano e social, já que muitas famílias vivem em situação de vulnerabilidade — conta Ezequiel Rosa, presidente da Associação Musical União Tijuquense (ASMUT) e contramestre da banda, uma espécie de segundo maestro.

O espaço da escola é também de acolhimento, já que a música tem o poder de transformar o ambiente. Paciência e respeito moldam os encontros e ajudam a superar dificuldades. Quando chegou, a dona de casa Laudirene Miranda Cardoso não sabia sequer segurar o violino.

— O vaivém do arco ajuda a exercitar o lado do corpo que foi atingido pelo AVC. Eu me sinto bem aqui — explica.

Para o professor dela, o chileno Diego Navarrete, o contato com alunos e colegas professores ajuda a devolver-lhe o sentimento de família:

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— É gratificante ensinar e transmitir conhecimento para uma pessoa, tenha oito ou 80 anos. O que eu digo para cada um? Que todos podem aprender.

Fundos, programas sociais e empresas ajudam manter a instituição

A escola disponibiliza instrumentos, material didático e estrutura necessária para o desenvolvimento das aulas. Motivo de alívio para muitas famílias e de incentivo para alunos, como Kamille Cavalheiro Machado: recentemente ela teve o direito de levar um violão para treinar em casa. Neste caso, os pais assinam um documento.

— Acho importante a família se responsabilizar, pois o aprendizado é uma coisa boa para todos e permite a inclusão social. Eu sinto que as crianças ficam mais concentradas e no caso dela [Kamille], nem o celular é tão atraente quanto estudar música — diz Adalgisa Cavalheiro Machado, mãe da jovem.

A manutenção da escola de música é feita pelo Fundo de Incentivo à Infância (FIA) municipal e outros programas mantidos pela prefeitura. Também existe parcerias com empresas, o que ajuda no pagamento dos salários dos professores e nas despesas de água, luz e limpeza. Os alunos em idade escolar devem apresentar atestado de frequência. O trabalho é feito em rede e tem parcerias com o Centro de Referência de Assistência Social, Ministério Público, Conselho Tutelar e polícias Civil e Militar.

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Apresentações em festas e comemorações cívicas

A criação da ASMUT está ligada à tradição antiga de cada clube ter a própria banda. Uma desavença entre dois irmãos originou a setentona. A banda musical segue a linha cívico e militar, e possui 40 músicos, entre homens e mulheres, com idades de 12 a 60 anos. O grupo musical se apresenta em festivais e em breve irá participar de concursos.

O respeito à liberdade é um dos princípios da escola. As portas estão abertas para quem chega, assim como para quem decide se afastar. Mas a história de uma das bandas mais antigas em Santa Catarina aponta para um caminho natural: a chance de se tornar um músico profissional. Também é válido se o interesse for melhorar a saúde, desestressar ou prazer de tocar. É como disse o filósofo grego Platão, que nasceu cerca de 447 anos antes de Cristo: “A música é o grande remédio da alma”.

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