Quatro dias foram suficientes para 15 dos 36 policiais aptos fisicamente cravarem a cruz no cemitério e desistirem de ir adiante no mais rigoroso e exigente teste da Polícia Militar de Santa Catarina: o curso para a entrada no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
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Os 21 obstinados ainda vão precisar de muita resistência e força psicológica para completar os três meses de treinamento, a grande parte em local rústico de mato, incomunicáveis e distante de contato com familiares, para se tornar um caveira, o símbolo do pelotão de elite da corporação.
O Diário Catarinense acompanhou algumas horas do árduo caminho a que os policiais militares interessados em atuar no Bope – no total mais de 120 se inscreveram – estão percorrendo desde 29 de julho, num dos raros momentos de abertura da área de estágio a quem não é aluno ou instrutor.
Era o quarto dia de atividades num sítio que fica entre Palhoça e Paulo Lopes, na Grande Florianópolis. O silêncio da paisagem verde contrastava com a entonação dos cânticos durante a movimentação da tropa, enfileirada, empunhando uma carabina calibre 12 e com mochila de 20 quilos nas costas.
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O semblante de cansaço era visível, assim como o caminhar torto diante das prováveis bolhas nos pés nos poucos comandos de descansar. Os instrutores afirmam que é algo comum nos primeiros dias de pouco sono e intensos exercícios, que todos os que estão ali são verdadeiros atletas, com grande vigor físico.
O cenário de treinamento lembra o clássico filme policial Tropa de Elite, de 2007: um quadrado enlameado, os homens posicionados sem esboçar qualquer sorriso, o capitão falando ao pé do ouvido, rosto sem mexer um músculo sequer, quando no máximo os dizeres “não senhor!, sim senhor!”.
A bronca foi geral aos alunos quando, ao colocarem a arma ao chão, um barulho se fez, num suposto desleixo de largá-la abruptamente. Mas houve também instantes de brincadeira pelos comandantes e outros de surpresa:
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– “37, pode tirar as pedras da mochila! Ouviu 37?”.
Cada aluno carrega uma cruz e a lápide. Ninguém é obrigado a ficar no curso, lembram os instrutores à reportagem. Se optar pela desistência, o ato de enterrar a cruz marca a despedida antecipada e o fim do sonho de virar caveira. O cemitério fica bem visível ao lado do campo, com uma caveira enorme branca no alto.
Superar o frio da madrugada e o sono são os principais desafios nos primeiros dias. O despertar começa cedo, às 6h e as missões e orientações costumam ir até a madrugada do dia seguinte. Nas poucas horas de descanso e sono – todos ficam numa mesma barraca – ainda é preciso fazer a barba, limpar os objetos pessoais e a arma.
O banho é no rio, não há banheiro. Os instrutores lembram que ambientes assim são impostos a fim de deixar o aluno da forma mais próxima possível do que irá encontrar na realidade. No Estado, por exemplo, há constantes caçadas de PMs a quadrilhas de assaltantes que se embrenham dias no mato durante a fuga.
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O último curso para entrada no Bope em Santa Catarina havia sido em 2009. O clima interno nos últimos anos sempre foi de expectativa pela abertura das inscrições, envolvendo desde praças a oficiais.
Ocupação, manutenção e retomada de pontos sensíveis
A formação de um policial do Bope tem três fortes vertentes: o foco no homem, no armamento e o treinamento constante. É como um misto de habilidades com valores e conhecimentos.
Segundo os instrutores e capitães do Bope, Jorge Echude e Lucius Carvalho, se trabalha a capacidade de resistência, senso de inteligência, liderança, o lado emocional, a capacidade de raciocinar na pressão.
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O psicológico sem dúvida é o mais difícil. O policial, completam os instrutores, tem que sair com a certeza de que vai sair mais forte que o marginal.
São abordadas, por exemplo, técnicas de sobrevivência, patrulha, abordagens. Algo enfatizado também é o voluntariado e o espírito de equipe, assim como as condutas.
Para se ter uma ideia da dimensão de perigo que envolve a profissão de policial do Bope, o próprio capitão Jorge lembra que já foi baleado durante confronto com criminosos no Jardim Zanelato, em São José.
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O curso é eliminatório e classificatório. Os alunos são policiais de Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Piauí. Têm em média 26 anos. Ao final, levando em conta o histórico dos cursos do Bope, estima-se que o índice de desistência alcance 70%.
As principais missões são intervenção e operações de resgate de reféns em áreas urbanas ou rurais, combater o tráfico de drogas e o crime organizado estadual, patrulhamento em locais de alto risco, captura de criminosos em áreas de difícil acesso, ocupação, manutenção e retomada de pontos sensíveis.
“É a nossa Swat”
O curso é desenvolvido justamente quando um ex-comandante do Bope ocupa o comando-geral da PM em Santa Catarina, o coronel Valdemir Cabral, que fundou o batalhão e o comandou por três anos.
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– É a nossa Swat (grupo tático de elite das polícias americanas), um grupo de qualidade, bem treinado, com preparo psicológico e físico diferenciado para operações de altíssimo risco. Ou como a escada mecânica dos bombeiros: você não quer usar, mas tem que ter – compara.
O grupo atua com equipamento diferenciado, armas e técnicas. Ali estão por exemplo sniper (atirador de elite), especialista em explosivos e negociador em ocorrências com refém, cuja média é de duas ocorrências ao mês.
As demandas principais no Estado para emprego dos policiais têm sido as que envolvem a utilização de explosivos por quadrilhas que assaltam caixas eletrônicos. Também as ações de captura desses criminosos.
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O comandante diz que o longo período sem o curso aconteceu em razão do déficit no efetivo geral, o que acabaria gerando desfalque pelo Estado, mas que se tornou possível agora diante da reposição de cerca de três mil policiais nos últimos anos.
Além disso, Cabral ressalta a necessidade de renovação da tropa, pois há policiais no batalhão com mais de 20 anos de serviço.
O comandante do Bope, tenente-coronel Marcelo Cardoso, lembra que a tropa também tem atuado em operações em cidades que enfrentaram aumento repentino da criminalidade como Chapecó e Navegantes, além das ocupações do Morro da Caixa e da Chico Mendes, as duas em Florianópolis.
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– Estamos mais na rua, com mais visibilidade também na repressão dos crimes – destaca Cardoso.
O Bope
Criado em 24 de março de 1994 com origens na união das antigas Unidades Operacionais: o Esquadrão de Polícia Montada, Companhia de Choque (que pertencia ao 4º BPM), e o Pelotão de Policiamento com Cães (do 7º BPM).
Em 15 de dezembro de 1995 recebeu o reforço de 14 policiais do primeiro Curso de Operações Especiais (Coesp) da PM denominados então de Comando de Operações Busca Resgate e Assalto (Cobra).
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A partir de 25 de outubro de 2005 passou a ser Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). É comandado pelo tenente-coronel Marcelo Cardoso e está sediado na rua Matias Kabuchi, 234, em Barreiros, São José.
O efetivo é composto pelo comando, subcomando, estado-maior, pelotão de comando e serviço, pela companhia de operações especiais (COE) e pelo comando de operações busca resgate e assalto (Cobra), num total de 103 policiais.
Principais missões:
Combater o tráfico de drogas e o crime organizado estadual;
Intervenção e operações de resgate de reféns em áreas urbanas ou rurais;
Patrulhamento em locais de alto risco;
Captura de criminosos em áreas de difícil acesso;