Na chuvosa tarde desta segunda-feira (15), o Sul da Ilha de Santa Catarina se despediu de um dos moradores mais queridos: o ‘seo’ (como dizem os nativos) Acácio Coelho dos Santos. Aos 101 anos de idade, o corpo de um dos primeiros a viver na Armação do Pântano do Sul foi velado na capela da comunidade e enterrado no cemitério local, onde também repousa a esposa Valdemira, com quem foi casado a vida toda. O casal teve três filhos, um homem e duas mulheres.

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Mesmo com a idade avançada, Acácio gostava de jogar dominó e carregava a logomarca do Avaí, time do coração, no tabuleiro. Contam que, em um mero descuido do adversário, o velhinho vencia.

Não foi surpresa muita gente ir à despedida. A popularidade de Acácio sempre foi grande e começou quando se tornou dono de venda, lugar onde as famílias se abasteciam de secos e molhados, lá pelos anos 1940. Como a maioria dos clientes era formada por pescadores, havia um compromisso: podiam levar fiado, mas quando chegasse a safra da tainha tinham que pagar pela dívida.

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Plantação de café e salga de peixe

Assim foi por muitos anos. Também teve plantação de café e salga de peixe. Com tino para o comércio, preferia comprar peixe do que ir para o mar. Em suas memórias, a vez em que o caminhão estava tão abarrotado que tombou na estradinha de chão no Morro das Pedras. Por sinal, foi dele o primeiro caminhão a transportar peixe do Sul da Ilha para o Mercado Público. Mas o abastecimento teria começado bem antes, no lombo do cavalo, por uma picada no mato que mais tarde iria dar lugar à pista tripla atual daquela área do Rio Tavares

— Acácio foi um bom contador de histórias que sempre encantou — reconhece Rodrigo Stüpp, o idealizador do Guia Manezinho e que faz tours guiados em diferentes roteiros de Florianópolis.

O jornalista e criador de conteúdo digital observa que Acácio viveu uma Ilha que Cascaes narrou, sem luz, com bruxas, onde a comunicação com o Centro era muito desafiadora. Época em que usava o cavalo para chegar nos salões dos bailes, “porque as moças do Ribeirão eram melhores de dançar”. Uma vez, ele se empolgou, demorou e o cavalo voltou sozinho para casa. Veio “de pé” com o dia raiando da Freguesia do Ribeirão à Armação. Também gostava de ir para o Pântano do Sul, não necessariamente para conversar com o Arante, outro manezinho que se tornou muito conhecido na região.  

— A gente ia pro Pântano e de vez em quando arrumava rolo porque estávamos interessados nas mulheres de lá. Eles (os rapazes) ficavam enciumados porque nós dançávamos bem — relatou Acácio.

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Reconhecido com honraria para manezinhos

Acácio sempre foi bom de amizade. Da infância, citava Zé do Cacupé, que certa vez comprou-lhe uma canoa, e Arante, o do restaurate, ambos falecidos. Outros tantos, como o Erasmo João Antunes, que dá nome ao trevo na SC-405, no Sul da Ilha.

Em 2015, Acácio recebeu uma homenagem que o deixou muito feliz: a Medalha Aldírio Simões, uma honraria para os manezinhos. Acácio perdeu a esposa há cerca de três anos. Nos últimos tempos começou a apresentar problemas de saúde, inclusive para digerir alimento, e precisou de maior suporte profissional numa casa para idosos.

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