Recém-empossado prefeito de Blumenau, Egidio Ferrari (PL) ascendeu rapidamente na política. Na primeira eleição que disputou, em 2022, elegeu-se deputado estadual – o mais votado para o cargo na cidade. Mal cumpriu o segundo ano de mandato na Assembleia Legislativa quando, a convite do governador Jorginho Mello (PL), aceitou o desafio de liderar a chapa encabeçada pelo PL na disputa pela prefeitura em 2024.

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O resultado: uma, para muitos, improvável vitória em primeiro turno. Menos para ele.

Agora Ferrari se prepara para deixar a imagem de delegado de polícia um pouco de lado – mas nem tanto – para vestir o figurino de prefeito do terceiro maior município catarinenses. Nesta entrevista, concedida antes de assumir o cargo, ele fala sobre as perspectivas da gestão.

Confira a entrevista com Egidio Ferrari

O senhor disputou a primeira eleição em 2022 e se elegeu deputado estadual. Agora se tornou prefeito da terceira maior cidade de SC em primeiro turno. O que explica essa trajetória meteórica na política?

As pessoas querem renovar. Pude sentir isso na primeira eleição e agora de novo, a questão da profissão de delegado, de colocar alguém sério, alguém que já demonstrou uma prestação de serviço público correta antes. Tem também a identidade com a cidade que nasci e vivo. As pessoas me encontram na rua e comentam: “Que legal o guri da (escola) Adelaide Starke, da (rua) 7 de Maio”. Isso tudo foi pegando na majoritária. A gente fala muito que precisa renovar, colocar pessoas que pensem diferente, que tenham outro histórico. Na eleição para deputado, disputando pela primeira vez, sem experiência nenhuma em pedir votos, andando na rua, conversando com as pessoas, com pouquíssima estrutura, só material impresso, santinho e utilizando rede social, já fui o mais votado da cidade disputando até com ex-prefeito e pessoas com bastante experiência em campanhas. Isso me gabaritou para disputar a eleição municipal. Senti que isso ainda estava muito vivo nas pessoas. Tanto que o resultado foi em primeiro turno.

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De que maneira a experiência como delegado pode ajudá-lo no cargo de prefeito?

O delegado tem uma questão de probidade, integridade, da coisa reta, de cuidar muito do recurso público. Antes de ser delegado fui servidor público do Fórum. Tenho comigo, desde a época de estagiário, que a gente está ali para servir. Meu salário no final do mês vem do meu trabalho de auxiliar as pessoas. Falamos muito disso na campanha: fazer com que a prefeitura e os seus servidores sirvam à população, e não o contrário. E demonstrar isso com seriedade. Não é simplesmente prestar o serviço, tem que ter a eficiência, tem que jogar limpo com as pessoas e a sociedade. As pessoas reclamam, falam do político, que nada funciona, às vezes que ninguém presta, mas no dia da eleição quase um quarto dos eleitores não vai votar. Então você tem a missão de chamar essas pessoas para participar do processo. Comigo é muito claro e tranquilo: eu sei que tem prazo determinado. O meu mandato acaba. O prefeito Egidio vai terminar em quatro ou oito anos. Tem prazo para isso, mas a cidade vai ficar. E o que eu quero fazer é deixar a cidade melhor do que eu peguei, em todos os aspectos. Eu vou continuar aqui como morador, cidadão. Os meus filhos, eu espero que eles queiram constituir família em Blumenau.

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O senhor disse logo depois da vitória na eleição que queria montar um governo com a própria cara, mas aproveitou, na definição do secretariado, vários nomes da gestão de Mário Hildebrandt (PL). Houve dificuldades para montar o colegiado do jeito que imaginava?

Houve um pouco de dificuldade. Recebi alguns “nãos” de bons profissionais. Eles diziam: “Muito obrigado, seria um desafio importante, mas para mim não serve”.

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O que essas pessoas justificavam?

Principalmente o desafio de ir para o setor público, de largar uma profissão. As pessoas já estão em suas áreas, nas suas empresas. Tem a questão da remuneração. Se a pessoa não quer seguir uma carreira política, parece que ela não tinha muito atrativo para colocar o CPF dela no papel. Muitas pessoas não querem ter essa grande responsabilidade. Teve um pouco de dificuldade nisso. Mas eu realmente fui montando (o governo) da forma que eu imagino que deveria ser. E as (pessoas) que vão ficar têm algumas questões. O Marcelo Althoff (futuro secretário de Gestão Governamental) e o Éder Boron (futuro Procurador Geral) são amigos pessoais, acompanho a trajetória deles. São extremamente profissionais no que fazem. Independentemente se estivessem no governo ou não, seriam pessoas que eu chamaria para trabalhar comigo. O Anderson Rosa (secretário de Administração) é uma pessoa que eu tinha pouco contato, mas é uma grande referência dentro da área administrativa. É um cara que conhece, domina, está desde a época do Napoleão (Bernardes) e ficou com o prefeito Mário (Hildebrandt). Fiz questão de convidá-lo e conversar com ele. O próprio Dirk (Reiter), em Obras, é um cara extremamente técnico, engenheiro, servidor de carreira, que ascendeu ao cargo de secretário há pouco tempo. Ele cumpre missão e é o que a gente precisa e quer. Essa questão de alguns nomes permanecerem foi escolha totalmente minha. Ninguém veio dizer para deixar esse ou que aquele outro precisa permanecer. Fui identificando os perfis e vendo que eram pessoas importantes para a administração.

No secretariado, Egidio manteve nomes que integravam o primeiro escalão de Hildebrandt (Foto: Patrick Rodrigues)

O senhor já sinalizou que pretende fazer uma reforma administrativa com corte de algumas secretarias e cargos comissionados. Isso vai acabar ficando para 2025. O que tem em mente?

Eu sempre vou buscar a eficiência. Vai ser mais fácil de fazer essa leitura, essa análise, a partir de janeiro, quando estivermos lá dentro. Todas as funções gratificadas, todos os cargos estão realmente cumprindo com o que se propõem e com aquilo que são as prioridades do prefeito Egidio? É nesse sentido que a gente vai fazer a leitura para enxugar. E não é só para dizer que vamos cortar. É diminuir em algo para investir em outro lugar, tem que ter reflexo e uma comunicação com a população para que ela entenda. Quando não tem médico no posto de saúde ou falta uma vaga em creche, a culpa é do político, do gestor. Mas e quando está funcionando? Quando as nossas escolas bilíngues são referência? Quando hospitais e referencias médicas são um polo para outros municípios dentro do Estado? Quando isso funciona a “culpa”, entre aspas, também é do político, tem um gestor trabalhando e se dedicando, que entrega aquilo que a população espera. Se não der para cortar muito, a gente não vai cortar, porque está funcionando.

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Mas o senhor já tem, dentro desse desenho administrativo, alguma área em que é possível haver cortes?

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Por exemplo, a secretaria de Parcerias e Concessões. A gente pode enxugar essa secretaria, tendo uma diretoria ou uma gerência que já vai se prestar ao fim que ela se destina. Outras áreas a gente vai ver a partir do momento em que assumir. Em janeiro, com as reuniões e os novos secretários chegando, eles entendendo o que está acontecendo e me trazendo essas informações, vai ser mais fácil tomar as decisões.

Uma das suas principais promessas de campanha é a criação de uma guarda municipal armada. O senhor diz que ela teria um custo anual estimado de R$ 10 milhões. Blumenau já é hoje uma das cidades mais seguras do Brasil. Faz sentido gastar mais recurso público nessa área?

Faz, porque para mim o termo “gastar” está errado. Para mim é investimento. Além da segurança, existe a sensação de segurança. Eu entendo que o município deve tomar esse protagonismo, apesar de segurança pública ser dever do Estado. Eu dei o exemplo durante a campanha. Falei de Rio do Sul, que é uma cidade bem menor e tem uma guarda municipal armada. Eu presenciei. Estava lá fazendo uma visita, conversando com os guardas, com os agentes, e no rádio deles a Polícia Militar chamando um apoio para uma ocorrência policial. A população não quer saber se é PM, Polícia Civil ou guarda. Ela quer saber de ter uma viatura, policiais para cuidar da segurança dela. E a segurança não é só da polícia, mas também de alguém investir para trazer o seu negócio para Blumenau. Os índices criminais são cíclicos. Hoje está bem, mas já não foi tão bom. Passamos, por exemplo, o governo do (Carlos) Moisés (Republicanos) sem nenhum concurso para a Polícia Civil. Agora estão sendo nomeados novos policiais, delegados, psicólogos. Isso faz uma diferença enorme. Só em Blumenau, vou chutar aqui, foram mais de cinco delegados e se não me engano mais de 20 policiais. Estamos falando de 20% do efetivo da cidade perdidos nos últimos anos porque se aposentaram, foram para outras cidades ou saíram da profissão. Dois colegas passaram no concurso para juiz e promotor. Você não consegue controlar isso. Então com uma guarda, na minha opinião, a gente consegue pelo menor ir mantendo alguma coisa.

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Isso passaria por concurso público? O senhor imagina qual efetivo? Porque isso demanda um treinamento específico…

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Isso não é do dia para a noite. São novos agentes. Isso foi algo que eu tive que explicar durante a campanha. As pessoas questionavam se eu ia dar arma de fogo para os agentes de trânsito. Não, é um novo concurso, um novo cargo que é criado, que tem todo um treinamento. Eu espero 100 agentes para Blumenau, já faria uma grande diferença. É uma conta que a cidade merece. Não estava prevista, por exemplo, a vigilância armada nas escolas. Se eu não me engano é uma conta anual de R$ 20 milhões. Virou a chave, R$ 20 milhões do orçamento. Então é uma questão de prioridade.

Egidio Ferrari vai comandar Blumenau pelo menos até 2028 (Foto: Patrick Rodrigues)

Qual vai ser a grande obra do governo Egidio na área de infraestrutura urbana?

Nós temos projetos já prontos e outros em mente. O Norte, a região das Itoupavas, é a região que vai continuar crescendo mais do que em outros lugares, é onde a gente pode expandir e ter o polo industrial. Precisamos ter grandes obras ali. Tem projeto não só da duplicação, mas da triplicação da (Rua) Pedro Zimmermann. É algo muito importante para a população, que pede, era o que eu mais ouvia, e também para as indústrias que estão lá. Agora com a duplicação da BR-470 você melhora aquele acesso, aquela rodovia, isso tudo vai trazer uma diferença enorme para a cidade, não só para a região. É um desafio, porque são obras grandes, com desapropriações, com bastante investimento. Temos pontes e pelo menos um túnel previsto para a construção, com projeto pronto e recursos garantidos. Mas eu acho que a principal vai ser lá na Pedro Zimmermann. Temos também o projeto ali da Ponte Santa Catarina, ali do lado, na rua anterior, onde é a Catedral da Pizza. Vai ter um binário naquela região. Veja a diferença que já vai fazer.

Um dos principais problemas de Blumenau, principalmente durante o verão, é o abastecimento de água. Nos últimos anos o Samae tem sido alvo de investigações e operações policiais. O senhor escalou um homem da sua confiança (Alexandre Vargas) para comandar a autarquia. Como resolver esses gargalos?

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A minha ideia de colocar o Alexandre lá é porque eu queria mostrar para a população que eu vou pessoalmente me empenhar para que as mudanças e melhorias aconteçam. O Alexandre é um grande amigo, uma pessoa de extrema confiança, que trabalhou comigo na polícia por muitos anos e também no gabinete de deputado. Eu disse para ele que a gente precisa mostrar para as pessoas que infelizmente tiveram (investigações na autarquia), e ninguém está aqui para esconder, muito menos eu, que não tive relação nenhuma até agora com o que aconteceu, em toda a administração, na parte boa e na ruim. Mas tiveram operações envolvendo agentes públicos que trabalharam no Samae. O grande recado é: acabou qualquer possibilidade de confusão ou de desvios. O Alexandre já tem uma experiencia em gestão e administração, tem um currículo, bons cursos. Ele trabalhou comigo na delegacia regional fazendo exatamente isso. Eu disse para ele valorizar e chamar os servidores de carreira, eles que conhecem. E nesse breve espaço de tempo que o Alexandre já está se dedicando, indo lá para fazer a transição e ouvindo para montar a equipe dele, ele já está sentindo as coisas melhorando, o ânimo dos servidores. Ele chamou o pessoal e disse que precisava deles para resolver o problema. É uma questão para eles (os servidores) também para melhorar a imagem do lugar onde trabalham. Daqui a pouco as pessoas têm vergonha de dizer que trabalham no Samae, como se para fora nada funcionasse. Não é bem assim. Funciona muito pela cidade, mas tem problemas. Pessoalmente eu vou estar empenhado, se precisar todos os dias visitar as obras, ver o que precisa ser feito. E fazer a leitura do porquê não chega água na casa das pessoas. Excepcionalmente sempre aconteceram problemas de abastecimento, um rompimento de um cano, de uma adutora, um acidente, uma obra. E as pessoas também precisam ser orientadas para se prepararem para as excepcionalidades. Não pode ser regra a pessoa não ter água. O Samae é uma autarquia, uma empresa pública que dá lucro. Ela cobra pela prestação do serviço, e não é barato. As pessoas pagam e muitas reclamam que usam menos do que pagam, porque existe a taxa mínima.

Essa taxa mínima vai ser mantida?

Não consigo te responder se sim ou se não porque eu preciso fazer a leitura do que acontece. Mas o que precisa ser feito é que, se a pessoa paga, usando ou não usando, o mínimo que ela precisa é ter a prestação do serviço público, que é a água chegando na casa dela. Acabou a possibilidade de ter qualquer tipo de coisa errada ou confusão. E a polícia, em vez de entrar lá para a operação, vai estar lá dentro todo dia. Tem um policial lá como presidente da autarquia trabalhando para que as coisas aconteçam.

Dados recentes do Ministério da Educação apontaram que a média do Ideb em Blumenau nos anos iniciais ficou em 6,3, abaixo da média estadual que foi de 6,4. Como melhorar esse indicador?

Se eu fosse elencar prioridades, a educação estaria até acima da segurança. A segurança é a minha casa, aquilo que eu trabalho e lido no meu dia a dia. A educação é aquilo que transformou a minha vida. Não é uma frase clichê, aconteceu comigo. Sou filho de pedreiro, criado pelo avô, minha mãe era diarista. Meu avô dizia para eu ir estudar porque é isso que mudaria minha vida. Na educação vamos investir para isso acontecer. Se a gente pegar o resultado do Ideb, os melhores índices estão nas escolas bilíngues e cívico-militares, que é um nome que se coloca para uma escola que tem um perfil que eu acredito que funciona, que tem disciplina e hierarquia. Infelizmente muitos jovens chegam nas escolas com famílias totalmente desestruturadas. E alguns precisam receber educação dentro da escola, a educação do respeito que deveria vir de casa. Quando isso começa a funcionar, melhora os índices e o desempenho dos alunos. No meu plano de governo a gente fala em ampliar o número dessas escolas.

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O que o senhor imagina?

Hoje temos duas. Por mim eu dobro, triplico esse número. Mas volto a dizer, cívico-militar é apenas um termo para algo que está funcionando. Não precisa chamar de cívico-militar ou ter militar lá dentro trabalhando, mas um modelo que funcione. Quem teve a oportunidade de frequentar, é uma escola pública, é impressionante. Você vai a uma formatura deles e todos se colocam no pátio com ordem, silêncio e disciplina. Eles aprendem isso. Todo dia eles têm a palavra do dia, que eles precisam estudar antes. Na escola que eu estudei não tinha isso. Chamam um aluno na hora, aleatório, e ele precisa falar a palavra do dia e explicar o seu significado em português e em inglês. Não é uma escola bilíngue, é militar. É impressionante o avanço e a diferença que as crianças e os jovens têm em relação a outras escolas. Precisamos pegar esses modelos que funcionam e trazer para a nossa realidade municipal. Também quero estar muito presente e entender os melhores exemplos, onde tem funcionado, porque o Ideb é uma consequência daquilo que a gente faz no dia a dia.

Capa da edição impressa do Jornal de Santa Catarina desta semana (Foto: Patrick Rodrigues)

Existem tratativas há bastante tempo para a federalização da Furb ao mesmo tempo em que a UFSC também busca uma expansão com um novo campus em Blumenau. Há quem diga nos bastidores que as duas coisas dificilmente vão andar juntas. Como o senhor vê essa ampliação da oferta de ensino superior?

Todos nós temos um carinho muito grande pela Furb porque muita gente passou por lá, e não só blumenauense, pessoas vieram de fora para estudar e fazer um curso superior. Mas a gente precisa ter gestão. Quando a gente ouve que tem déficit, que não se paga, que diminuiu muito o número de alunos… da minha época, eu me formei em 2006, para hoje a realidade é muito diferente. Tem que ter uma gestão que funciona. Ainda não tive a oportunidade de ter acesso mais específico a isso (sobre a federalização)… Federalizar é vir o governo federal e assumir os custos. Isso é transferir o problema. Para mim, como gestor municipal, é excelente, porque agora o gasto e o investimento não são mais do município. Mas o recurso é o mesmo, é público, alguém vai pagar a conta. Será que só isso faz a diferença? Para quem é bom? Só para os servidores, para os professores, ou vai fazer a diferença para os alunos e a nossa cidade? Precisamos voltar a ser um polo forte de educação superior. E para isso a cidade precisa entender e vender essa ideia. As pessoas vinham para a Furb porque ter um diploma de nível superior fazia diferença no mercado de trabalho. Tem espaço para todo mundo. A UFSC está aí, ampliando, investindo na cidade e com isso a gente traz alunos novos, gente de fora, e a cidade cresce e prospera com isso. A gente quer criar melhores condições para que esses alunos não venham só estudar e vão embora, mas que depois apliquem seus conhecimentos e se tornem pessoas para investir na cidade. O nível superior precisa voltar. E o protagonismo da Furb já passou. A gente precisa resgatar isso de alguma forma, mas com gestão. Não dá para todo ano simplesmente ficar colocando recurso em algo que talvez não está dando resultado.

Tanto a Furb quanto prefeitura têm recorrido nos últimos anos, com frequência, a parcelamentos de dívidas com o ISSBlu. Isso provoca preocupação no servidor público sobre o futuro de aposentadorias. O senhor já tem algum plano para equilibrar as contas?

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Primeiro precisamos entender o motivo de isso acontecer. Se esse parcelamento está acontecendo é porque em algum momento lá atrás não se fez uma gestão eficiente para que se conseguisse pagar os recursos. Isso precisa ser visto com muita responsabilidade porque já foi feita uma reforma previdenciária, que diminuiu o déficit e a previsão futura de gastos com a previdência, e não foi suficiente. O que está acontecendo? O ideal não é fazer isso, porque você vai parcelar uma parcela. Alguma coisa está errada. Mas esse não é um problema só de Blumenau. Isso a gente sabe que é um problema do Estado, é uma dificuldade federal e de diversos outros municípios. Em algum momento lá atrás se criaram regras que hoje não se sustentam mais. A diferença hoje já é grande. O servidor que entra hoje já não tem todos os benefícios que tinha lá atrás. É uma bola de neve que foi crescendo e hoje você tem que tirar recursos muitas vezes de outra área para cobrir aquilo ali. É claro que as pessoas trabalharam, dedicaram suas vidas, precisam e vivem disso. Mas a gestão tem que ser clara e ver o que está acontecendo para melhorar.

Blumenau tem uma das tarifas de ônibus mais caras do Estado e o senhor falou muito durante a campanha em ampliar o número de linhas e horários. Mas é preciso pensar também em outras alternativas de mobilidade urbana. O que imagina?

Hoje Blumenau tem um sistema de transporte público, dos ônibus, caro, e não vou dizer ineficiente, mas que deixa muito a desejar. Ele não é atrativo e as pessoas reclamam. A gente precisa melhorar isso, demais. Falamos muito em revisar o contrato feito em 2017 e que hoje não se paga. Tem a tarifa, mas tem o subsídio da prefeitura porque está previsto em contrato o equilíbrio financeiro. Mas volto a dizer, você paga e não tem a prestação do serviço de qualidade. A gente precisa investir nisso. Vamos fazer várias ações no governo, como as parcerias público-privadas, a manutenção, a exploração comercial dos terminais e das paradas de ônibus, dos próprios veículos. Eu entendo que isso (o sistema) não deveria ser de exclusividade de uma empresa, deveria ser um sistema aberto para quem tem condições vir prestar o serviço para que tivesse disputa pelo mercado. Aí ganha a população. Mas esse não é o modelo do Brasil, infelizmente. Existe reserva de mercado, empresas que dominam esse setor no país inteiro. Dessa forma está errado. Precisamos revisar o contrato. E se o poder público se presta a pagar e investir nesse serviço, ele precisa ser de qualidade. Diminuíram as linhas, a culpa é da época da pandemia, realmente. Mas a pandemia passou e as pessoas estão precisando do serviço. Por que não voltou? O que está acontecendo? A gente precisa trazer as pessoas para o serviço, mas para isso tem que melhorar. E a gente vai mexer no contrato se for preciso. O interesse não pode ser da empresa e nem da prefeitura, o interesse tem que ser do público, do usuário.

Na saúde, há filas para consultas e exames. Também há o impasse financeiro envolvendo o pagamento de algumas especialidades no SUS no Hospital Santa Isabel. Como resolver?

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Ao passo que a gente acompanha essa dificuldade, você consegue verificar que falta gente nas consultas, que não comparece para os exames. As cirurgias, quando a pessoa é chamada, ou já fez por conta porque demorou muito ou não era bem aquilo. É preciso uma transparência muito grande nisso e uma eficiência nessa triagem. O Estado tem feito isso, já deu bom resultado. Às vezes eu pergunto qual é hoje o tamanho disso e não se tem. Sempre vai crescer, porque se você começa a melhorar o serviço as pessoas procuram mais também para a prevenção, para ter algum tipo de atendimento. Essa gestão precisa ser muito eficiente nesse sentido. É preciso valorizar os servidores que estão lá. Fizemos pesquisas antes da campanha e, mais do que a falta de atendimento, que apareceu muito, tinha o mau atendimento, a reclamação. Isso passa por um treinamento e valorização das pessoas que estão lá, pelo menos para dar um “Bom dia, dona Maria, como a senhora está? O que está acontecendo?”. É bem complexo. E é algo que você nunca vai zerar, acabar, porque você vai melhorando e a demanda vai aumentando. Blumenau já investe muito acima daquilo que a lei determina. O percentual é 15%, Blumenau se não me engano neste ano bateu 30% da arrecadação do município. Mas a gente precisa ver se esse investimento está sendo bem aplicado. Sobre o Santa Isabel, as pessoas precisam entender que não é um hospital do município. O município repassa recursos para que ele cumpra e pratique diversas ações e atendimentos. A obrigação do município é na saúde primária. Aí os gargalos começam a acontecer quando esses procedimentos são de responsabilidade do Estado, que tem melhorado muito agora, e do governo federal. Olha a tabela SUS, quantos anos a gente fala da defasagem e da má remuneração dos profissionais, que vai desestimulando. Há dificuldades para contratar médicos. Tem concursos lançados que não têm interessados na vaga.

Mas fazendo uma analogia com a segurança pública, como o senhor comentou antes, a população não vê distinção se o hospital é do município, do Estado ou do governo federal. Ela vai bater na porta do prefeito para resolver o problema…

Sim, exatamente. Mas muitas vezes as pessoas cobram como se o hospital fosse da prefeitura. O histórico do hospital é da comunidade, ele foi construído muito com recursos públicos, com a ajuda da população, dos empresários. Começou a dar um problema maior agora quando a gestão mudou, tem uma nova congregação cuidando (do Hospital Santa Isabel). E eles também disseram que não querem mais fazer determinados procedimentos. Tem um impasse ali até de gestão, tanto que o gestor do hospital de anos, o Juliano (Petters), saiu. A Maria Regina tem acompanhado isso muito de perto e eu também quero acompanhar junto ao governo do Estado. Já conversei com a (ex) secretária Carmen (Zanotto), com o Diogo (Demarchi Silva, atual secretário de Saúde do Estado), de que Blumenau não podia perder isso. Mas a conta não fecha. Eles precisam de muito recurso e não é simplesmente dizer que não vai mais atender.

O senhor citou a vice-prefeita Maria Regina, que na gestão de Mário Hildebrandt teve protagonismo. No seu governo ela terá que tipo de papel?

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Se ela não tivesse esse papel no governo Mário, ela teria comigo. O meu perfil é dividir as responsabilidades. E eu vejo na Maria uma pessoa com uma grande experiência. Foi secretária de Saúde, ela tem essa história, vivia isso intensamente todos os dias. E agora como vice-prefeita em todas as áreas. Ela tocou diversos projetos municipais, e isso foi muito importante porque ajudou o prefeito. Assim eu quero fazer. Assim foi a nossa primeira conversa lá atrás, quando a gente começou a ver a possibilidade de unirmos forças para disputar a eleição. E até hoje isso é muito claro. Pedi que a Maria diariamente me auxilie com a experiência nas áreas. Claro que a responsabilidade é minha, o prefeito serei eu, mas quero tê-la como uma grande parceira. Eu não tenho problema nenhum com isso. E citando a Maria, eu dou o exemplo dos secretários. Eu preciso e quero dividir essa responsabilidade com eles. Por isso é tão importante ter pessoas qualificadas e conhecedoras trabalhando nas suas áreas.

O prefeito Egidio então terá um perfil mais de delegar do que ser centralizador nas decisões?

Com toda a certeza. A responsabilidade vai ser sempre minha, por óbvio. Eu não fujo dela. Mas eu quero dividir isso com as pessoas, é dessa forma que eu entendo. A minha característica é do diálogo, gosto de ouvir. Lá na frente a decisão pode não ser aquilo que a pessoa me disse. Mas eu preciso ouvir os dois lados e as versões existentes para poder decidir. Eu não sou aquele que decide da própria cabeça. Por isso que eu delego, realmente, essas funções importantes. Não vou ter problema nenhum, muito pelo contrário, de um protagonismo de secretários ou da própria Maria. Eu quero que o serviço seja prestado e as coisas funcionem.

O governo que está saindo deixou um legado de concessões de ativos para a iniciativa privada. O senhor pretende mantê-las?

Vamos ampliar. No governo Bolsonaro e com o governador Tarcisio (Freitas, em São Paulo) houve diversos leilões e concessões, isso fez muita diferença, deu uma maior eficiência nessas áreas. Aqui eu vou citar a educação. Muitas vezes a gente tem uma demanda por vaga em creche. Até construir, passar por licitação… as pessoas precisam daquilo já, de compra de vaga na iniciativa privada. É o que funciona mais rápido. Mais uma vez, o pai ou a mãe, se é público ou privado, ele precisa ter um lugar para que o seu filho vá, frequente e aprenda, mas que eles também possam trabalhar e cuidar da sua casa. Essa foi uma das discussões da campanha. Eu falava que queria manter e ampliar esse processo. Na área da saúde eu vou atuar muito também nas clínicas privadas, fazer parcerias. Uma vez tive uma fratura no pé e precisava fazer exame. Disseram que tinha horário em 20 dias ou, se eu não me importasse de fazer de madrugada, daqui a dois dias tinha uma vaga. E eu fui lá de madrugada. A iniciativa privada me deu essa possibilidade através do plano de saúde. Por que o poder público não pode fazer? Agora foi feita a concessão da rodoviária. Há quantos anos se fala disso? Agora saiu. Não é fácil, são processos burocráticos e morosos, mas isso tem acontecido e faz muita diferença. Por que não fazer uma concessão do nosso aeroporto, transferir a administração para alguém explorar agora com balizamento, iluminação noturna, para que as aeronaves consigam operar à noite? Olhe as praças, o que transformou. A gente tinha a Praça Dr. Blumenau, no Centro. Passava por ali e dava até medo, havia andarilhos, tudo apagado, escuro. Hoje tem uma praça que alguém explora ali, por óbvio tem lucro para isso, porque senão ele não vai investir. Virou um grande centro de lazer não só aos fins de semana, mas todos os dias. Assim foi também com a praça do lado da prefeitura.

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Há pelo menos mais duas concessões engatilhadas, que são os serviços funerários e a iluminação pública. O senhor citou o aeroporto. Algum outro ativo que não está no radar hoje, mas que pensa que possa ser concessionado?

Não me recordo especificamente, mas a gente vai explorar e muito essas áreas. A eficiência que eu busco tanto no serviço público passa por isso. O gestor público municipal precisa se preocupar com aquilo que efetivamente o município precisa prestar para as pessoas, a educação, a saúde, a segurança, a infraestrutura. O restante eu não vejo problema algum de trabalhar em parceria com as empresas, porque são elas que fazem a economia girar. Precisamos dar condições para elas trabalharem.

A Oktoberfest Blumenau é o principal cartão-postal do turismo da cidade. Acabou de terminar uma edição que bateu recorde histórico de receita e superávit. O que o senhor planeja para o futuro da festa?

A Oktoberfest é uma festa de sucesso. E o resultado de recorde não foi só do ano passado para cá. Foi algo que foi construído. Eu com 15, 16, 17 anos frequentava a festa, era muito diferente do que é hoje. Naquela época, se eu tivesse os meus dois filhos, casado, talvez não iria para a festa. Não era do jeito que a gente frequenta hoje, com segurança e tudo que o tamanho do evento proporciona. A gente quer manter esses modelos que têm funcionado, com os patrocínios. Eu soube esse ano, um pouco antes do início da festa, que empresas ainda estavam procurando a administração do Parque Vila Germânica para patrocinar, mas não tinha mais lugar. É tão sucesso que as empresas queriam colocar recursos e não puderam porque não dava mais. Esse modelo tem que manter e ir melhorando mais. A gente já tem algumas ideias. Conversei com o (Guilherme) Guenther, que vai permanecer lá (na Vila Germânica), principalmente pelo seu perfil técnico. E cá entre nós, as pessoas falam que a festa é uma antes e depois do cara. Ele realmente vive aquilo, durante a festa ele está lá o tempo inteiro cuidando dos detalhes. A gente vai lá e não sabe o que acontece nos bastidores. Eu, de uns anos bem recentes para cá, comecei a acompanhar mais. Já coordenei alguns anos a parte de segurança da festa como delegado de polícia. É um modelo de sucesso. A gente tem que fazer isso inclusive em outros eventos. O nosso Natal já é uma referência, a Páscoa, o Réveillon, quem diria que se colocaria milhares e milhares de pessoas na Beira-Rio para ver o show de fogos. É isso que a gente espera trazer, e com isso desenvolvimento para a cidade. O turismo é um setor que está dentro da economia limpa. Quando eu saio do Estado, falou em Blumenau e todo mundo conhece, ligam muito à Oktoberfest. Isso é muito bom, mas não é só de Oktober que vive o turismo da cidade. Temos que trazer o turista para ele ficar aqui, permanecer na nossa cidade.

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O senhor falou de algumas ideias para a Oktoberfest. O que já está sendo pensado?

Por exemplo, em voltar a utilizar o Galegão durante a festa para que a gente possa fazer um modelo diferente, pegar uma ideia da Oktoberfest de Munique. O modelo está tão bom, deu tão certo, que a gente consegue ir ampliando, melhorando e criando ainda novas possibilidades. Veja o boulevard, construído esse ano, ficou lindo.

Houve um pedido do governador Jorginho Mello (PL) para que o senhor fosse candidato a prefeito. Isso é um trunfo na negociação com o Estado para trazer mais recursos para Blumenau?

Com toda a certeza. O governador é um visionário. Ele olhou lá atrás e falou: “Egidio, se você for candidato, você vai ganhar a eleição”. Eu não podia falar isso durante a eleição, mas ele dizia isso. Ele dizia que via no meu perfil a possibilidade de ganhar. Ele disse também que queria ser o governador de Blumenau, e para isso ele precisava de alguém, por óbvio, de confiança, alguém que estivesse junto no time dele. E Blumenau fez isso, não me recordo da última vez que isso aconteceu, da cidade eleger um prefeito candidato do governador, alinhado com o governo do Estado. E hoje o governador Jorginho já tem, se não me engano, mais de 70 obras em andamento com recursos estaduais, totais e parciais. E a gente vai ampliar em muito, tenho certeza. Eu tenho porta aberta. Troco mensagem com ele tarde da noite. Isso é muito comum acontecer, ligar, falar o que está acontecendo. Isso é importante não para mim, mas para a cidade. E assim aconteceu quando a gente falou do Sesi, da nova torre do Hospital Santo Antônio. Eu não me recordo de o governo do Estado vir aqui e colocar R$ 60 milhões para construir um equipamento daquele porte com recursos estaduais. Não é um recurso que Blumenau vai pagar financiamento. Você falou em trunfo, essa parceria é importante para a cidade. E o governador sabe que a cidade é importante para o Estado e também politicamente para ele.