Wando Cunha, o Borracha, nasceu em Laguna, morou no Rio de Janeiro, fixou residência na Grande Florianópolis, mudou-se para o Acre e, agora, desenvolve projetos em Dubai. Das areias do deserto dos Emirados Árabes, trouxe a ânfora que decora um canto da sala no bairro Rio Grande, em Palhoça. Do mesmo contêiner vindo do Oriente Médio, desembarcou a mesa de cozinha com escritos em folha de ouro e protegida por uma tampa de vidro.
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A ida para a luxuosa Dubai, explica, deu-se pelo convite do amigo Júnior Byner Silva, funcionário do xeique Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o príncipe herdeiro. “
— Por que não aceitar o convite? — perguntou-se.
O fotógrafo que fez registro “raro” do Morro do Cambirela coberto de neve
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— São hábitos muito diferentes por causa das tantas culturas. Dos 3 milhões de habitantes, 10% é formado por gente de fora, estrangeiros que vivem para realizar sonhos. Costumo dizer que Dubai é a nova Babilônia — compara.
Com 35 anos de carreira, Wando conta que em Dubai encontrou uma matéria-prima que muito ajuda nas suas obras: sucata.
— Sempre gostei de usar ferro e alumínio nas esculturas, material que sobra em Dubai devido à frota de automóveis que tem carros bastantes luxuosos e muito renovada — explica.
Estátua de Chico Mendes e dupla de pescadores
Não é exagero dizer que Wando é um artista múltiplo. O apelido Borracha vem do tempo que se contorcia dançando break. Um dos primeiros tatuadores de Santa Catarina, nos anos 1990, voltou-se à música com as bandas Funcionários de Deus e Homem Tribal. Além de compor, é vocal, toca violão e gaita de boca. Também pintou letreiros, murais e lojas maçônicas, produziu fachadas de lojas, decorou ruas para o Natal e embelezou o Carnaval conquistando títulos no quesito Originalidade em clubes da Grande Florianópolis.
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Numa prateleira do ateliê, em Palhoça, um entre três bustos em gesso chama a atenção: é do seringueiro, ambientalista e sindicalista Chico Mendes. Wando é o responsável pela estátua do brasileiro assassinado em dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre. Em tamanho natural, o monumento encontra-se na Fundação Chico Mendes, um dos locais mais visitados na Amazônia. Moral da história: a fotografia da obra ganhou o mundo.
— Fui passar seis meses no Acre e fiquei morando por quatro anos. Fiz muitos amigos lá. Tem mais duas obras: do frei Paulino (inaugurada em Sena Madureira) e do Marechal Rondon — conta.
As obras não se limitam ao Norte, mas estão espalhadas por diferentes lugares. Como no Parque da Barra, em Palhoça, onde o monumento da dupla de pescadores e o barco servem de encontros. Se os planos derem certo, depois do Carnaval 2025, Wando viaja para a Nova Zelândia:
— Eu respiro arte 24 horas por dia. Sonho sempre, enquanto desenho, se estou fazendo escultura ou compondo músicas. Sabe aquela história de falar sozinho? Todo mundo fala, mas são os artistas que têm coragem de dizer que falam. E eu falo.
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A arte como serviço do outro, mas também de si próprio
Muitos dos objetos que Wando guarda em casa foram presentes. Um deles foi de Gesoni Pawlick, referência na alta costura catarinense, falecido em 2015: um manequim que o amigo usava ganhou a cara de Salvador Dali transformado em luminária. Tem também um relógio recebido de um tio que virou cabo de guitarra.
Entre os quadros, o rosto de Ricardo dos Santos, o Ricardinho, surfista assassinado em janeiro de 2015 na Guarda do Embaú. O rapaz foi morto por um ex-policial militar.
Wando também é palhaço. O personagem lúdico da banda Theatro dos Bonecos, que reúne vários artistas no palco, foi idealizado por ele. As apresentações visam pessoas que estão precisando de ajuda, como crianças com câncer. A próxima apresentação será o “Júlia In Concert”, adolescente de 16 anos que se encontra hospitalizada para combater um câncer de medula.
— Seria a arte a serviço do outro? — pergunta a repórter.
Ele responde:
— A serviço do outro, a serviço de mim. É assim a vida.
Confira fotos do escultor
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