Aos 97 anos, dona Catarina costuma brincar que não precisa usar óculos, nem pintar os cabelos e não precisa de nenhum outro lugar para viver. Uma das mais antigas moradoras do bairro Itaipava, em Itajaí, viu grande parte das casas, comércios e empresas serem construídos e o crescimento do “outro lado da BR”, como diz a idosa:
Continua depois da publicidade
– Quando eu vim morar aqui (no bairro Itaipava) não tinha nada. Aqui, onde é a casa, era arrozeira. Na esquina tinha uma venda e só. Da BR para cá, só tinha arrozeira e umas casas muito ralas – lembra a idosa.
Receba notícias de Blumenau e região por WhatsApp
A terra é de “sol e mar, das praias e belas sereias”, como diz o hino da cidade. Mas, os frutos do interior também “encantam os corações”. Braço forte da economia de SC, com 28º lugar no ranking nacional do PIB nacional, Itajaí celebra 163 anos na quinta-feira, dia 15. Conhecida pela ligação com o rio e o mar, a cidade vê o interior impulsionar o desenvolvimento socioeconômico, a cultura e o lazer.
O interior de Itajaí representa 86% do território da cidade, segundo a prefeitura. São 18 comunidades: Arraial dos Cunha, Baia, Brilhante I, Brilhante II, Canhanduba, Campeche, Espinheiros, Espinheirinhos, Itaipava, Km 12, Laranjeiras, Limoeiro, Rio do Meio, Rio Novo, Paciência, Salseiros, São Roque e Volta de Cima.
Continua depois da publicidade
Leia também: The Ocean Race movimenta a economia e gera empregos em Itajaí
O historiador Edison d’Ávila destaca que o desenvolvimento urbano de Itajaí se intensificou a partir da década de 1990:
– Nesse período foi necessário estender o perímetro urbano para áreas do que era conhecido como zona rural, porque o perímetro era delimitado pela BR-101. Tivemos a incorporação da região dos bairros Itaipava e Espinheiros, por exemplo. Esse interior, essencialmente agrícola, passou a viver uma troca de situação rural para situação urbana e essa urbanização está avançando muito rápido – complementa.
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Itajaí, Thiago Morastoni, a estimativa é que 15% da população da cidade esteja no interior, entre 30 mil e 40 mil pessoas.
– É uma área em desenvolvimento com uma grande oportunidade de crescer de forma coordenada e planejada, diferente da área urbana que foi crescendo de uma forma mais desordenada. Tudo iniciou com um planejamento estratégico feito no município em 2017. Também estamos com o Plano Diretor na Câmara que visa trazer a arquitetura desse desenvolvimento para que as políticas públicas sejam efetivas – explica Morastoni.
Continua depois da publicidade
Instalação de empresas e destaque na agricultura
Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação apontam que entre janeiro de 2021 a dezembro de 2022, 416 novas empresas se instalaram nos bairros do interior de Itajaí. Ao todo são 368 mil metros quadrados. O número representa cerca de 11% das empresas abertas na cidade, no período.
Leia mais: Estudo inédito revela bairros de Itajaí com maior procura por imóveis
Em área, nenhum setor é páreo para o campo. A área rural de Itajaí está distribuída por 80% do território. O arroz destaca-se, com 46 produtores, 1.909 hectares e uma produção de 16 mil toneladas, segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Além do grão, também é possível encontrar plantações de aipim, alface, abóbora, abobrinha, acelga, batata-doce, beterraba, brócolis, agrião, cenoura, cebolinha, couve-folha, couve-flor, espinafre, milho verde, repolho, rúcula, pepino, salsa e feijão-de-vagem na cidade.
A família Bertholdi é proprietária de uma das maiores áreas dessas plantações, no bairro Brilhante. Assim como o pai e o irmão, Edésio é agricultor:
– A gente vive do arroz desde o tempo do meu pai, há 70 anos. Muita gente aqui vive da terra, aqui na área rural tem bastante produtor ainda. Mas, vem diminuindo muito.
Continua depois da publicidade
Leia também: Itajaí celebra aniversário com mês inteiro de festividades em junho; veja programação
O arroz encontrado nas prateleiras dos supermercados da região é produzido em Itajaí. A produção da família Bertholdi, por exemplo, vai para quatro grandes empresas – que também levam o arroz daqui para o restante do país.
– O arroz daqui é especial, aqui é especial, até o ar é diferente – brinca o agricultor.
Parte da história do interior guardada no museu
Parte da história das 18 comunidades do interior de Itajaí está preservada no Museu Etno-Arqueológico, no bairro Itaipava. O museu é dedicado à arqueologia sambaquiana e etnografia da área rural da cidade, evidenciando as manifestações culturais da comunidade local.
– Nós temos um misto de peças da etnografia rural, principalmente porque o museu está localizado numa área que antigamente era rural e hoje já é urbana. São muitas peças da agricultura familiar, dessas questões relacionadas à moralidade do bairro e também muitas peças arqueológicas, muitos materiais ósseos, de conchas, dos sítios arqueológicos de Itajaí e de outras regiões aqui próximas – conta o arqueólogo Darlan Pereira Cordeiro.
São 800 peças de ferrovia e etnografia rural e mais de 50 mil peças de arqueologia. O museu está fechado desde 2021 para reforma, com previsão de reabertura para os próximos meses. Enquanto isso, os materiais estão armazenados em espaços chamados de reservas técnicas. Em uma delas encontramos um quepe que fez parte da história da região e do próprio museu.
Continua depois da publicidade
O prédio onde está o museu abrigava a antiga Estação Ferroviária Engenheiro Vereza, que funcionou até 1971, quando foi desativada a Estrada de Ferro Santa Catarina.
– O quepe pertenceu ao guarda que abria e fechava a estação. Ele esteve aqui quando a estação ainda funcionava. O modelo dele é padrão das estradas de ferro que existiam, ele ser das décadas de 1950 e 1960. É uma das peças mais importantes do acervo ferroviário – explica o auxiliar de museu Marco Antônio Figueira Júnior.
Rota do cicloturismo
O interior de Itajaí também é opção de lazer com o cicloturismo. Grupos de ciclistas apostam no passeio de bicicleta pelas estradas dos bairros São Roque, Laranjeiras e Campeche diariamente. Andréa da Veiga é uma dessas ciclistas.
– Comecei a pedalar em 2017, na área Central da cidade, que é onde eu moro. Mas, percebi que queria mais aventura e natureza. Comprei uma bike mais preparada e comecei a pedalar aqui – conta a empresária, que costuma pedalar aos finais de semana com a família e amigos.
Continua depois da publicidade
Moradora da área central da cidade, gostou tanto das paisagens do bairro São Roque que pretende se mudar para a localidade no próximo ano.
– Comprei um terreno aqui, minha intenção é viver aqui – conclui.
Leia mais
Projeto oferece transporte gratuito de Itajaí a Blumenau para doadores de sangue
Área em Itajaí mapeada para investimento milionário tem potencial subutilizado, sugere empresa